Se Graham Bell não tivesse inventado o telefone, minha mãe,
muito provavelmente, o teria feito.
Ela gostava tanto de um telefone que, durante sua doença,
pedia:
- Quando eu morrer, me enterrem com o meu celular. Vai que
eu preciso...
E assim foi feita sua vontade. Minha mãe partiu com o
celular nas mãos. Bateria já carregada e carregador junto, é claro. Vai que ela
precisa...
Mas ela não usava o telefone para falar com qualquer pessoa.
Ela gostava de falar com as filhas. Queria sempre estar junto das filhas.
Eu tinha 17 anos, quando arrumei meu primeiro emprego, numa locadora
de vídeos, em BH.
Como já conhecia bem a mãe que tinha, recomendei:
- Só ligue se alguém morrer, ok?
- Ok.
- Entendeu?
- Entendi.
- Meeeeeeesmo?
- Deixa de ser chata, menina. Só ligo se alguém morrer. Não
se preocupe.
Na época, ainda não existia celular.
Cheguei na locadora
e, antes mesmo de dizer boa tarde ou me dar as boas-vindas, a gerente falou:
- Sua mãe ligou.
Eu, super constrangida:
- Posso retornar a ligação? Deve ter morrido alguém.
A gerente, preocupada:
- Claro. Ligue lá.
- Alô, mãe! Quem morreu?
- Ninguém morreu. Foi o vídeo cassete que estragou.
-E você está me ligando por quê? Eu não sei consertar vídeo
cassete. Ligue para um técnico.
- Não conheço nenhum.
- Muito menos eu. E não estou em condições de encontrar um,
agora.
- Mas você não está trabalhando numa locadora?
- Sim. Aqui, aluga-se filmes. Não prestamos assistência
técnica.
- Então, traz um filme à noite pra gente ver.
- Mas o vídeo não está estragado?
- Acabou de ligar. Deve ter sido alguma bobagem. Pode ficar tranquila.
Beijos!
A gerente:
- E então? Tá tudo bem? Quem morreu?
- O vídeo cassete. Mas ele já ressuscitou. Tá tudo ok.
Ela era assim: ligava compulsivamente para mim e minhas
irmãs. E mesmo antes da invenção do celular, ela conseguia nos descobrir em lugares
inacreditáveis.
Certa vez, eu estava numa loja de CD´s no Centro de BH.
No momento em que eu estava saindo, o telefone da loja
tocou. O rapaz atendeu e, imediatamente, perguntou:
- Quem é Romyna?
Coloquei as duas mãos sobre a cabeça. Pensei:
- Não acredito que minha mãe me descobriu aqui, numa loja no
Centro da cidade.
Fui até o rapaz, pronta pra morrer de vergonha:
- Sou eu. É minha mãe no telefone?
- Claro que não. Você esqueceu seu cartão aqui – disse, já
me entregando o cartão.
Caí na gargalhada. Ele, lógico, não entendeu nada.
Vocês é que não conheceram minha mãe, mas ela era capaz de
coisas assim.
Daí o meu susto.
Veio o celular e, com ele, claro, mais ligações.
Deixei, na porta da geladeira, uma lista de situações em que ela poderia me ligar:
“Me ligue apenas se...
Houver um tsunami na Lagoa Paulino
Um avião cair em cima da casa
O Papa chegar para almoçar
A Luma (nossa cachorra) falar”.
Ela entendeu o recado. Ou quase.
No primeiro dia, nenhuma ligação.
No segundo, uma ligação.
No terceiro, tudo normal novamente.
Hoje, sinto uma falta imensa das suas ligações. Em não raras
vezes, pego o telefone para ligar pra ela para contar alguma novidade ou algum
problema.
Aí, a ficha cai, a saudade bate e a lágrima escorre.