Hoje, 8h da manhã, entro numa ótica, no Centro de BH, para encomendar meus óculos.
Tô lá, sentadinha, escolhendo a armação.
Uma mocinha, toda sorridente, se apresenta na minha frente:
- Bom dia, meu nome é Paola e estou aqui para te oferecer um café.
- Prazer, Paola. Vou agradecer, mas não tomo café. Vou preferir uma água. Pode ser?
Ela volta com a água. Agradeço.
Dois minutos depois:
- Te trouxe um novo copo d'água.
- Obrigada. Você é muito gentil.
Bebo o novo copo.
Não mais que dois minutos após o primeiro copo:
- Te trouxe mais uma água.
- Paola, vou agradecer. Não precisa.
- Eu insisto. Água é sempre muito bom pra saúde.
- Sim, claro. Mas dois copos, nesse intervalo de tempo, são suficientes. Obrigada de verdade - respondo, já constrangida.
Mal consigo escolher a armação dos óculos:
- Trouxe um licor pra vocêêê-ê-ê-ê.
- Aaah, que gentileza! Mas eu não bebo nada alcoólico, ainda mais a essa hora do dia. Não são nem 8h30.
- Um licorzinho não vai te fazer mal.
- Agradeço de coração. Eu já disse que você é muito gentil, né? De verdade. Mas vou recusar o licor.
Por dentro, já estava irritada. A gentileza da Paola não me dava tempo de negociar meus óculos com o vendedor.
Novamente, a Paola e sua gentileza:
- Aceita um conhaque?
- Não bebo - respondi, já com vontade de arrancar-lhe a cabeça com os dentes, tal qual um rotweiller, mas ainda com a consciência de que ela estava ali, fazendo o seu trabalho da forma que lhe fora recomendada e da melhor maneira possível. Assim, engoli minha vontade e retribui o sorriso.
Enfim, consegui fechar a negociação.
Fui pagar os óculos.
No fundo da loja, ao lado do caixa, um freezer e um bar com diversas bebidas - licor, conhaque, uísque, vodca e tudo mais que se encontra numa casa de shows. E só associei a uma casa de shows porque, ao fundo, bem alto - e ainda não tinha percebido, porque minha atenção estava totalmente dividida entre os óculos e a gentileza da Paola - um sertanejo universitário.
Marketing. Ou pelo, é o que eles imaginam que seja.
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Noooooooooooooooooooooooó
Vim pra Sélagoas hoje, cidade onde meus pais nasceram, onde eu passava férias durante a infância e adolescência na casa dos meus avós, onde eu inclusive morei por alguns anos, já adulta, e onde minhas irmãs optaram por viver atualmente. Minha irmã deu a dica:
- Tem uma van que sai da Cidade Administrativa, que deixa você na porta da minha casa.
E frisou o “na porta da minha casa” umas tantas vezes.
Minha irmã me passou o telefone do motorista. Liguei, marquei tudo direitim com ele, expliquei onde ficaria.
- Aaaah, eu deixo uma outra moça lá pertim. Podexá que eu te deixo lá também -, ele garantiu.
Assim, hoje, no horário marcado, viemos pra Sélagoas.
Duas horas sacolejando na van. Nunca vi uma estrada com tanto quebra-molas na vida. Fazia bons anos que não passava por ela, a tal “estrada velha”, como é conhecida, ou rodovia MG-424, que passa por absolutamente todas as cidadezinhas vizinhas a Sélagoas. Daí tanta demora em chegar e daí tanto quebra-molas.
Durante o caminho, vim trocando umazideia aí com a minha amiga Paulinha, no WhatsApp, sobre unzassunto aê:
- Nooooooooooooooó...
- Juuuuuuuuuraaaa?
- Juuuuuuuuuuuuro.
- Mentiraaaaaaaaaa?
- Que cachorrada!
- Cachorrada meeeeeeeesmo...
- Nooooooooooooooó...
Chegamos em Sélagoas. Cerca de 10 minutos depois, ele me deixou numa avenida e disse:
- É só descer essa rua aqui e virar a primeira à esquerda, que você chega na rua que você quer.
- Ok.
E ele ainda repetiu:
- Desce...primeira rua à esquerda, ok?
- Ok.
Entretanto, esse “ok” significou, na verdade, por algum motivo que até deus desconhece, “não acho importante guardar essa informação, portanto, vou deletá-la da minha vida”.
E assim desci a rua, ainda conversando com a Paulinha no WhatsApp:
- Tô IN DIG NA DA!
- E eu, então?
Passei pela primeira rua, e nada de virar à esquerda.
- Não tô acreditando. Que horror!
- Bota horror nisso, menina.
Passei pela segunda, pela terceira...
- Misericórdia! Como pode uma coisa dessas?
Décima rua... 18ª... 20ª... enfim, quando dei por mim, já estava andando por Sélagoas como se não houvesse amanhã. Não tinha a mínima noção de onde estava. E não tinha a mínima noção mesmo, apesar de conhecer bem a cidade. Mas, enfim, consegui chegar, graças à era da nossa queridíssima tecnologia, sem a qual eu estaria perdida eternamente, se me conheço bem.
Agora, vou ali, continuar minha conversa com a Paulinha.
- Tem uma van que sai da Cidade Administrativa, que deixa você na porta da minha casa.
E frisou o “na porta da minha casa” umas tantas vezes.
Minha irmã me passou o telefone do motorista. Liguei, marquei tudo direitim com ele, expliquei onde ficaria.
- Aaaah, eu deixo uma outra moça lá pertim. Podexá que eu te deixo lá também -, ele garantiu.
Assim, hoje, no horário marcado, viemos pra Sélagoas.
Duas horas sacolejando na van. Nunca vi uma estrada com tanto quebra-molas na vida. Fazia bons anos que não passava por ela, a tal “estrada velha”, como é conhecida, ou rodovia MG-424, que passa por absolutamente todas as cidadezinhas vizinhas a Sélagoas. Daí tanta demora em chegar e daí tanto quebra-molas.
Durante o caminho, vim trocando umazideia aí com a minha amiga Paulinha, no WhatsApp, sobre unzassunto aê:
- Nooooooooooooooó...
- Juuuuuuuuuraaaa?
- Juuuuuuuuuuuuro.
- Mentiraaaaaaaaaa?
- Que cachorrada!
- Cachorrada meeeeeeeesmo...
- Nooooooooooooooó...
Chegamos em Sélagoas. Cerca de 10 minutos depois, ele me deixou numa avenida e disse:
- É só descer essa rua aqui e virar a primeira à esquerda, que você chega na rua que você quer.
- Ok.
E ele ainda repetiu:
- Desce...primeira rua à esquerda, ok?
- Ok.
Entretanto, esse “ok” significou, na verdade, por algum motivo que até deus desconhece, “não acho importante guardar essa informação, portanto, vou deletá-la da minha vida”.
E assim desci a rua, ainda conversando com a Paulinha no WhatsApp:
- Tô IN DIG NA DA!
- E eu, então?
Passei pela primeira rua, e nada de virar à esquerda.
- Não tô acreditando. Que horror!
- Bota horror nisso, menina.
Passei pela segunda, pela terceira...
- Misericórdia! Como pode uma coisa dessas?
Décima rua... 18ª... 20ª... enfim, quando dei por mim, já estava andando por Sélagoas como se não houvesse amanhã. Não tinha a mínima noção de onde estava. E não tinha a mínima noção mesmo, apesar de conhecer bem a cidade. Mas, enfim, consegui chegar, graças à era da nossa queridíssima tecnologia, sem a qual eu estaria perdida eternamente, se me conheço bem.
Agora, vou ali, continuar minha conversa com a Paulinha.
Depois do interrogatório...
Cheguei em casa com uma enxaqueca daquelas de me derrubar na cama, tudo por causa da TPM. Aí lembrei que tinha comprado Dipirona ontem, exatamente, por conta da minha cólica. Dipirona, santo remédio pra minha cólica e pra minha enxaqueca de TPM.
Fui procurar o remédio na minha bolsa, e nada. Na gavetinha dos remédios, e nada. Comecei a entrar em pânico, revirei a casa toda, e nada. Decidi ligar pra farmácia pra fazer o pedido.
Liguei do celular, pois o aparelho do meu fixo está quebrado há um ano e, como não uso ele pra nada, não comprei outro. O problema é que o meu cadastro na farmácia é o número do fixo.
Liguei.
Atendente:
- Boa noite! Qual o seu endereço?
- Joga o número do meu fixo, que tá cadastrado. É que ele está quebrado há um ano e, como não uso ele pra nada, não comprei outro.
- Sem problemas. Passe o número.
- É o 36...
- 36...??? Perguntou a atendente.
- Ai, esqueci. Não uso ele pra nada, né? Não lembro mesmo o número.
- Tudo bem, vamos fazer o cadastro com o número do seu celular.
E aí começou o interrogatório:
Nome completo
Nome da mãe
Nome do pai
Data de nascimento
Documento de identidade
Endereço
Nome do cachorro
Nome da filha
Time pra que torce
Coca ou Pepsi?
PT ou PSDB?
Três últimas coisas que comeu hoje
Série favorita
Tá boicotando a Netflix?
Ponto de referência
- Olha, o ponto de referência é a farmácia de vocês mesmo. Fica a três quarteirões da minha casa, mas não tô dando conta de ir lá não, porque minha cabeça tá doendo pra caramba. Tô praticamente em coma.
- Sem problema, vamos mandar o remédio.
Quando ela disse isso, de repente, não mais do que de repente, tropecei na porra da Dipirona que comprei ontem. Falei logo:
- Menina, ói só procê vê. Foi só conversar com você que minha enxaqueca passou. Pode cancelar o pedido. Grata! Beijos!
Fui procurar o remédio na minha bolsa, e nada. Na gavetinha dos remédios, e nada. Comecei a entrar em pânico, revirei a casa toda, e nada. Decidi ligar pra farmácia pra fazer o pedido.
Liguei do celular, pois o aparelho do meu fixo está quebrado há um ano e, como não uso ele pra nada, não comprei outro. O problema é que o meu cadastro na farmácia é o número do fixo.
Liguei.
Atendente:
- Boa noite! Qual o seu endereço?
- Joga o número do meu fixo, que tá cadastrado. É que ele está quebrado há um ano e, como não uso ele pra nada, não comprei outro.
- Sem problemas. Passe o número.
- É o 36...
- 36...??? Perguntou a atendente.
- Ai, esqueci. Não uso ele pra nada, né? Não lembro mesmo o número.
- Tudo bem, vamos fazer o cadastro com o número do seu celular.
E aí começou o interrogatório:
Nome completo
Nome da mãe
Nome do pai
Data de nascimento
Documento de identidade
Endereço
Nome do cachorro
Nome da filha
Time pra que torce
Coca ou Pepsi?
PT ou PSDB?
Três últimas coisas que comeu hoje
Série favorita
Tá boicotando a Netflix?
Ponto de referência
- Olha, o ponto de referência é a farmácia de vocês mesmo. Fica a três quarteirões da minha casa, mas não tô dando conta de ir lá não, porque minha cabeça tá doendo pra caramba. Tô praticamente em coma.
- Sem problema, vamos mandar o remédio.
Quando ela disse isso, de repente, não mais do que de repente, tropecei na porra da Dipirona que comprei ontem. Falei logo:
- Menina, ói só procê vê. Foi só conversar com você que minha enxaqueca passou. Pode cancelar o pedido. Grata! Beijos!
Sulamita é legal sim
Hoje de manhã, passei na farmácia
da firma pra comprar água. Tinha um cliente reclamando pras duas
mocinhas do Caixa que tinha sido muito mal atendido pela Sulamita (nome
fictício).
Segundo a conversa, o cliente chegou no balcão da farmácia pedindo um remédio à Sulamita, ela fez cara de Miranda Priestly e simplesmente o ignorou. Um rapaz, que é repositor da farmácia, teve que atendê-lo, tamanha a má vontade da Sulamita. A conversa rendeu.
- Nooooooooooooooó...
Segundo a conversa, o cliente chegou no balcão da farmácia pedindo um remédio à Sulamita, ela fez cara de Miranda Priestly e simplesmente o ignorou. Um rapaz, que é repositor da farmácia, teve que atendê-lo, tamanha a má vontade da Sulamita. A conversa rendeu.
- Nooooooooooooooó...
- Mentira?
- Juuuuuuuura?
- A Sulamita fez isso mesmo?
- Fez, minina.
A pobre da Sulamita tava com a reputação péssima, com o nome jogado na Medina.
Obviamente, fiquei curiosíssima pra saber quem é Sulamita, mas não tive coragem de perguntar, apesar de ser quase íntima das meninas dos caixas, já que todo dia passo lá pra comprar minha água. Me contive lindamente, porém saí me mordendo de curiosidade.
Agora, voltei lá pra comprar um anti-inflamatório, porque minha coluna está horrível (ainda reflexo da queda que levei no início do ano), e me lembrei da Sulamita.
Já entrei na farmácia pedindo:
- Chama a Sulamita pra mim, fazendo o favor. É que adoro ser atendida por ela.
Chamaram a tal Sulamita pra me atender. Ela deve ter pensado: "quem é essa loka, que eu nunca atendi e disse que adora ser atendida por mim?" Pensou, mas não se manifestou.
Bem, minha curiosidade foi satisfeita.
E ó: ela é um docinho. Injustiça o que falaram sobre ela.
- Juuuuuuuura?
- A Sulamita fez isso mesmo?
- Fez, minina.
A pobre da Sulamita tava com a reputação péssima, com o nome jogado na Medina.
Obviamente, fiquei curiosíssima pra saber quem é Sulamita, mas não tive coragem de perguntar, apesar de ser quase íntima das meninas dos caixas, já que todo dia passo lá pra comprar minha água. Me contive lindamente, porém saí me mordendo de curiosidade.
Agora, voltei lá pra comprar um anti-inflamatório, porque minha coluna está horrível (ainda reflexo da queda que levei no início do ano), e me lembrei da Sulamita.
Já entrei na farmácia pedindo:
- Chama a Sulamita pra mim, fazendo o favor. É que adoro ser atendida por ela.
Chamaram a tal Sulamita pra me atender. Ela deve ter pensado: "quem é essa loka, que eu nunca atendi e disse que adora ser atendida por mim?" Pensou, mas não se manifestou.
Bem, minha curiosidade foi satisfeita.
E ó: ela é um docinho. Injustiça o que falaram sobre ela.
É coach? Tô fora
Hoje, tava marcando uma porrada de médicos pra fazer o tal do "checapi". Eu morro de medo de médicos.
Sou exatamente igual ao meu pai. Ele não ia ao médico. Os médicos é que tinham que ir na nossa casa consultá-lo.
- Oi, dr. Rogério, tudo bem? Que bom que o senhor veio. O Worinho tá com pressão altíssima esses dias e, como o senhor sabe, nem Deus pra levá-lo à consulta com o senhor. Ele literalmente foge dos médicos - explicou, minha mãe, certa vez, para o médico do meu pai que fez a gentileza de ir na nossa casa consultá-lo, sem cobrar um centavo a mais por isso.
Sou exatamente igual ao meu pai. Ele não ia ao médico. Os médicos é que tinham que ir na nossa casa consultá-lo.
- Oi, dr. Rogério, tudo bem? Que bom que o senhor veio. O Worinho tá com pressão altíssima esses dias e, como o senhor sabe, nem Deus pra levá-lo à consulta com o senhor. Ele literalmente foge dos médicos - explicou, minha mãe, certa vez, para o médico do meu pai que fez a gentileza de ir na nossa casa consultá-lo, sem cobrar um centavo a mais por isso.
- Venho sempre que precisar, dona Laís. E onde está o Worinho?
- Bem, como eu disse, ele literalmente foge dos médicos. Então... ele fugiu, quando soube que o senhor viria.
Meu pai nos fez passar a maior vergonha esse dia. Só voltou pra casa, quando teve a certeza de que o médico não estava mais lá.
Eu nunca fez esse papelão de fugir de um médico com quem marquei na minha casa ou em qualquer outro lugar do mundo, mas, pra eu tomar coragem de me consultar, tenho que passar por, pelo menos, umas cinco sessões de terapia.
Assim, me preparo para enfrentar os leões. Ou mais ou menos...
- Nome?
- Romyna
- Tem muito tempo que você não aparece, hein?
ou
- Há quanto tempo você não faz esses exames? (vexame, na certa)
Continuando:
- Profissão?
- Jornalista.
- Trabalha onde mesmo?
- Sou assessora de Comunicação do SUS-MG
Pausa para o silêncio constrangedor.
Mas voltando às marcações de hoje, resolvi marcar também terapia. Não só para enfrentar a galera de branco, mas porque faço terapia há anos. Amo. Estou há três anos com a mesma profissional, mas acho que chegamos num ponto em que não conseguimos avançar mais. Daí minha decisão de mudar.
Procurei indicação. Me indicaram uma psicóloga MARAVILHOSA, PERFEITA.
Mandei WhatsApp, que é como ela atende os pacientes. Marcamos pra próxima semana. Perguntei o preço da sessão.
Ela não só me mandou o preço da primeira sessão, como uma série de informações de um programa que ela desenvolveu, que inclui 10 sessões. Detalhe: pagamento à vista ou de três vezes.
Investiguei mais. A mulher é coach... coach, gente! Logo eu, que fujo de coachs, tava perigando cair nas mãos de uma.
Coachs, pra mim, só os saudosos Telê e Cláudio Coutinho.
Os outros, pra mim, são apenas versões personificadas dos livros do Paulo Coelho e do Augusto Cury.
- Bem, como eu disse, ele literalmente foge dos médicos. Então... ele fugiu, quando soube que o senhor viria.
Meu pai nos fez passar a maior vergonha esse dia. Só voltou pra casa, quando teve a certeza de que o médico não estava mais lá.
Eu nunca fez esse papelão de fugir de um médico com quem marquei na minha casa ou em qualquer outro lugar do mundo, mas, pra eu tomar coragem de me consultar, tenho que passar por, pelo menos, umas cinco sessões de terapia.
Assim, me preparo para enfrentar os leões. Ou mais ou menos...
- Nome?
- Romyna
- Tem muito tempo que você não aparece, hein?
ou
- Há quanto tempo você não faz esses exames? (vexame, na certa)
Continuando:
- Profissão?
- Jornalista.
- Trabalha onde mesmo?
- Sou assessora de Comunicação do SUS-MG
Pausa para o silêncio constrangedor.
Mas voltando às marcações de hoje, resolvi marcar também terapia. Não só para enfrentar a galera de branco, mas porque faço terapia há anos. Amo. Estou há três anos com a mesma profissional, mas acho que chegamos num ponto em que não conseguimos avançar mais. Daí minha decisão de mudar.
Procurei indicação. Me indicaram uma psicóloga MARAVILHOSA, PERFEITA.
Mandei WhatsApp, que é como ela atende os pacientes. Marcamos pra próxima semana. Perguntei o preço da sessão.
Ela não só me mandou o preço da primeira sessão, como uma série de informações de um programa que ela desenvolveu, que inclui 10 sessões. Detalhe: pagamento à vista ou de três vezes.
Investiguei mais. A mulher é coach... coach, gente! Logo eu, que fujo de coachs, tava perigando cair nas mãos de uma.
Coachs, pra mim, só os saudosos Telê e Cláudio Coutinho.
Os outros, pra mim, são apenas versões personificadas dos livros do Paulo Coelho e do Augusto Cury.
Fugindo léguas
Em
maio do ano passado, tivemos um evento importante na firma. Meu cabelo
estava HORROROSO, e eu coloquei na cabeça que ia cortá-lo bem cedo,
antes do evento, pra ir um pouco apresentável. O problema é que minha
cabeleireira de confiança tinha se mudado pra Contagem, e
definitivamente não ia dar tempo de ir até lá.
Decidi, então, entrar no primeiro salão que eu visse pela frente. E não, não tive tempo de pesquisar ou marcar um salão, pois a decisão foi na noite do dia anterior.
Assim, no dia do evento, bem cedo, entrei no primeiro salão que vi pela frente, a uns quatro quarteirões da minha casa. Fui recepcionada com um...
- Ooooooooiiii!!!
Pra minha infelicidade, uma ex-cabeleireira minha estava trabalhando lá e foi me receber. E ela só era/é ex, porque ela é péssima. Mas pensei: vou pedir a ela pra tirar exatamente um dedo, corte reto. Assim, ela tira os quatro dedos que preciso, corte reto... ok. Não tem como dar errado.
Deu errado. Meu cabelo foi parar no meio da orelha.
Ele me mostrou o resultado e ainda teve coragem de dizer:
- Não ficou lindo?
Pausa pra contar uma historinha da Ana Luísa:
Aniversário da Ana de dois anos. Prepararam uma festinha surpresa pra ela na escolinha. Fizeram painel que ia de um canto a outro da parede para esperá-la. Eu levei o bolo, docinhos e refri. Detalhe: ela odiava a escolinha, odiava os coleguinhas, odiava as professores. Enfim, ela ficou puta com a surpresa. A professora perguntou sobre o painel:
- Não ficou lindo?
E Aninha, emburrada, fazendo bico, com os bracinhos cruzados:
- Tá tudo horrível, quero ir embora.
Voltando ao meu cabelo, quando vi o resultado, eu fiquei pura Ana Luísa por dentro. Só conseguia pensar: tá tudo horrível, quero sumir daqui.
Só agora, um ano e três meses depois, meu cabelo voltou ao tamanho que ele era.
Bem... hoje, chegando em casa, quem pula na minha frente com um "oooooiiiii"? Isso, ela mesma.
- Linda, que bom que te encontrei!
- Não acho - pensei.
Ela ainda pegou no meu cabelo e disse:
- Nossa, como ele tá grande e lindo, hein?
- Amanhã, cai - pensei.
Eu não conseguia falar nada, não respondia nada, tava pura Ana Luísa por dentro e por fora.
- Eu tô num salão exatamente ao lado da sua casa - contou a assassina de cabelos.
- Que alegria! - consegui responder, mas ainda com cara de Ana Luísa.
- Aparece lá.
- Com certeza.
Perguntei a ela o endereço do novo salão umas três vezes pra me certificar de que nunca, jamais, em momento algum da minha vida, nem sob desespero, eu piso lá.
Decidi, então, entrar no primeiro salão que eu visse pela frente. E não, não tive tempo de pesquisar ou marcar um salão, pois a decisão foi na noite do dia anterior.
Assim, no dia do evento, bem cedo, entrei no primeiro salão que vi pela frente, a uns quatro quarteirões da minha casa. Fui recepcionada com um...
- Ooooooooiiii!!!
Pra minha infelicidade, uma ex-cabeleireira minha estava trabalhando lá e foi me receber. E ela só era/é ex, porque ela é péssima. Mas pensei: vou pedir a ela pra tirar exatamente um dedo, corte reto. Assim, ela tira os quatro dedos que preciso, corte reto... ok. Não tem como dar errado.
Deu errado. Meu cabelo foi parar no meio da orelha.
Ele me mostrou o resultado e ainda teve coragem de dizer:
- Não ficou lindo?
Pausa pra contar uma historinha da Ana Luísa:
Aniversário da Ana de dois anos. Prepararam uma festinha surpresa pra ela na escolinha. Fizeram painel que ia de um canto a outro da parede para esperá-la. Eu levei o bolo, docinhos e refri. Detalhe: ela odiava a escolinha, odiava os coleguinhas, odiava as professores. Enfim, ela ficou puta com a surpresa. A professora perguntou sobre o painel:
- Não ficou lindo?
E Aninha, emburrada, fazendo bico, com os bracinhos cruzados:
- Tá tudo horrível, quero ir embora.
Voltando ao meu cabelo, quando vi o resultado, eu fiquei pura Ana Luísa por dentro. Só conseguia pensar: tá tudo horrível, quero sumir daqui.
Só agora, um ano e três meses depois, meu cabelo voltou ao tamanho que ele era.
Bem... hoje, chegando em casa, quem pula na minha frente com um "oooooiiiii"? Isso, ela mesma.
- Linda, que bom que te encontrei!
- Não acho - pensei.
Ela ainda pegou no meu cabelo e disse:
- Nossa, como ele tá grande e lindo, hein?
- Amanhã, cai - pensei.
Eu não conseguia falar nada, não respondia nada, tava pura Ana Luísa por dentro e por fora.
- Eu tô num salão exatamente ao lado da sua casa - contou a assassina de cabelos.
- Que alegria! - consegui responder, mas ainda com cara de Ana Luísa.
- Aparece lá.
- Com certeza.
Perguntei a ela o endereço do novo salão umas três vezes pra me certificar de que nunca, jamais, em momento algum da minha vida, nem sob desespero, eu piso lá.
Bom de marketing
Há algum tempo, os vendedores de bala voltaram a "invadir" os ônibus de BH. Reflexo do desemprego do país. Todos extremamente bem educados, fazem questão de explicar por que estão ali, naquele espaço, "atrapalhando o descanso" dos usuários, segundo suas próprias palavras. Alguns, inclusive, pedem desculpas, como se fosse necessário pedir desculpas por trabalhar. E isso corta meu coração. As pessoas entendem e geralmente compram para ajudá-los. Agora, acabou de entrar um rapaz, estudante de música e artes cênicas. Mexeu com um, brincou com outro, garantiu que a batatinha de banana é assada no fogão à lenha...mas o que mais me chamou a atenção foi seu argumento para vender bala de menta: "boa pra garganta e ótima pra respiração". Rapaz bom de marketing. Conseguiu vender bastante os produtos.
Sem rumo
Fui no BHResolve, Centrão de BH, claro, para resolver uns trem.
Saí de frente pra Estação Move Espírito Santo. Vi o ônibus da firma, que não para nessa Estação, passando. Aí, não sei por qual motivo, ao invés de voltar duas estações (uma colada na outra) pra pegar o ônibus, o que eu fiz? Inovei, já que minha criatividade sempre grita. Fui pegá-lo na Cristiano Machado. Não conheço direito essa rota, pois raramente pego esse ônibus.
Aí andei, andei, andei... Andei mais que Forrest Gump.
Quando já não aguentava mais andar, exausta, louca de sede e já tendo alucinações, resolvi perguntar:
- Môsss, onquié o próss pon do 66?
Ela me olhou assustada, mas explicou:
- É só passá por aquele viadutali, travessá o túni, andá mais uns dois quilôm, que cê chega na próss Estação.
Foi nessa hora, que resolvi tomar vergonha na cara e voltar pra Estação Move São Paulo. Cheguei só a alma, sem sinal de vida, mas cheguei.
Saí de frente pra Estação Move Espírito Santo. Vi o ônibus da firma, que não para nessa Estação, passando. Aí, não sei por qual motivo, ao invés de voltar duas estações (uma colada na outra) pra pegar o ônibus, o que eu fiz? Inovei, já que minha criatividade sempre grita. Fui pegá-lo na Cristiano Machado. Não conheço direito essa rota, pois raramente pego esse ônibus.
Aí andei, andei, andei... Andei mais que Forrest Gump.
Quando já não aguentava mais andar, exausta, louca de sede e já tendo alucinações, resolvi perguntar:
- Môsss, onquié o próss pon do 66?
Ela me olhou assustada, mas explicou:
- É só passá por aquele viadutali, travessá o túni, andá mais uns dois quilôm, que cê chega na próss Estação.
Foi nessa hora, que resolvi tomar vergonha na cara e voltar pra Estação Move São Paulo. Cheguei só a alma, sem sinal de vida, mas cheguei.
Everton
Há uma semana, eu estava passando na porta do supermercado, perto da minha casa, e um garotinho (trem marrlindo do mundo) me pediu pra comprar uma "bandejinha de iogurte". Como eu estava sem minha bolsa na hora, sem dinheiro, sem cartão, sem nada, prometi a ele que, se o visse novamente, compraria o que ele estivesse precisando. Hoje, o reencontrei. Passei por ele uma vez, e nada. Passei a segunda, e nada. Ele ficou caladinho. Até que o provoquei:
- Semana passada, eu fiquei te devendo uma bandejinha de iogurte. Lembra?
Ele se lembrou.
- Do que você tá precisando hoje? - perguntei.
- Huuuummm... - ele pensou com os olhinhos levantados para o céu - Pode ser uma bandejinha de ovos - respondeu.
- E pra você? O que vai querer?
- Huuuuummmm.... - novamente pensou com os olhinhos levantados para o céu - Pode ser um leite.
- Leite? Tem certeza?
- Tenho. Pode ser um leite.
A resposta me deixou no chão. Qualquer criança da idade dele, pertencente ao meu mundo, responderia "chocolate", "balas" ou qualquer outra guloseima. Mas Everton (é esse o seu nome, e ele tem 10 anos, mas aparenta uns sete) me pediu leite. É do leite que a urgência da fome precisa. As necessidades da infância ficam pra depois, bem pra depois. No mundo do Everton, a responsabilidade da vida adulta chega rápido demais.
PS. Lógico que junto com os ovos e com o leite, inclui algumas coisinhas que criança adora 😋
- Semana passada, eu fiquei te devendo uma bandejinha de iogurte. Lembra?
Ele se lembrou.
- Do que você tá precisando hoje? - perguntei.
- Huuuummm... - ele pensou com os olhinhos levantados para o céu - Pode ser uma bandejinha de ovos - respondeu.
- E pra você? O que vai querer?
- Huuuuummmm.... - novamente pensou com os olhinhos levantados para o céu - Pode ser um leite.
- Leite? Tem certeza?
- Tenho. Pode ser um leite.
A resposta me deixou no chão. Qualquer criança da idade dele, pertencente ao meu mundo, responderia "chocolate", "balas" ou qualquer outra guloseima. Mas Everton (é esse o seu nome, e ele tem 10 anos, mas aparenta uns sete) me pediu leite. É do leite que a urgência da fome precisa. As necessidades da infância ficam pra depois, bem pra depois. No mundo do Everton, a responsabilidade da vida adulta chega rápido demais.
PS. Lógico que junto com os ovos e com o leite, inclui algumas coisinhas que criança adora 😋
E no ônibus...
Tô ouvindo conversa alheia no ônibus, enquanto o motorista nos sequestra. Tem um cara no celular com a namorada:
"Oi, linda!
Saudade.
Louco pra chegar o final de semana pra te ver (parece que ela mora no interior)
Muita saudade.
Mas daqui a dois dias dias, a gente vai se ver
Fica assim, não, linda.
Adorei a foto que você postou no Instagram ontem.
Ficou linda.
Quem é fulano?
Fulano que comentou "linda" na sua foto.
Não, não tô com ciúmes. Eu me garanto".
"Oi, linda!
Saudade.
Louco pra chegar o final de semana pra te ver (parece que ela mora no interior)
Muita saudade.
Mas daqui a dois dias dias, a gente vai se ver
Fica assim, não, linda.
Adorei a foto que você postou no Instagram ontem.
Ficou linda.
Quem é fulano?
Fulano que comentou "linda" na sua foto.
Não, não tô com ciúmes. Eu me garanto".
De polenguinhos e camemberts
Ontem à noite, eu tava resolvendo uns lance lá no Rio e disparei a ligar e a mandar mensagem prumondigente. Uma dessas mensagens foi pra uma mulher que nunca vi na vida, não tenho ideia de quem seja, mas me indicaram o nome dela para resolver um dos lances. Foi a conta de mandar a mensagem e ela me ligar.
- Oi, Romyna! Aqui é Fulana. Tudo bem?
- Oi, Fulana, tudo ótimo. E você?
- Tudo bem também. Antes de mais nada, deixe-me dizer quem eu sou pra você ficar ciente. Eu moro em Londres há três anos, faço pós em Direito em Cambridge (falou com sotaque americano. sim, o sotaque foi americano, não inglês). Nesse curto período de tempo, todo mundo da minha família morreu. Eu não tenho mais nenhum parente vivo. Sou sozinha. Totalmente sozinha.
Aí já comecei a ficar com medo, pensando se ela não mandou matar a família inteira. Continuei ouvindo, mesmo porque era a única coisa que me restava a fazer, já que ela nem ao menos respirava entre uma frase e outra, sem me dar chance de falar qualquer coisa.
- Eu fico no Rio só por mais um mês. Estou louca pra voltar pra Londres. Aqui é tudo muito caro. Lá, eu compro Camembert, enquanto aqui sou obrigada a viver à base de Polenguinho. Como você suporta o Brasil?
- Ah, eu... (ao mesmo tempo, pensando: realmente, Rio sempre foi mais caro que Londres... aham...)
- Deixa eu terminar de falar. A língua que mais ouço lá fora é o português. Parece que tá todo mundo deixando isso aqui, né? Um Judiciário corrupto... Você tem acompanhado o Supremo?
- Eu...
- Aquele Gilmar Mendes é uma canalha.
- É verd...
- Você viu ontem? O Supremo absolveu a Gleisi por unanimidade. E de corrupção. Esse país é muito corrupto. Não dá pra confiar em ninguém. Eu sou muito, muito americanizada. Morei nos Estados Unidos por 40 anos. Sou extremamente correta, não tenho nome no SPC, nem no Serasa, não existe nada contra a minha pessoa, pois sou muito, muito americanizada.
- Ah, qu...
- Deixa eu terminar de falar. O que você faz da vida? Aposto que é servidora pública.
(nessa hora, pensei, ela deve ter descoberto que sou servidora pública pela minha voz, né?)
- Eu sou advogada, mas advogada com pós em Cambridge. Não sou advogada formada por qualquer universidade não. Onde você mora em Belzonte?
(eu, mentalmente, já que não conseguia me pronunciar: ODEIO QUE FALEM BELZONTE)
Tentei falar:
- Moro na...
- Eu morei em Belzonte por dois anos, na Timbiras. Você conhece?
- Sim. (consegui falar uma palavra inteira)
- Aqui, eu moro em Copacabana, num prédio onde vivem só desembargadores e juízes.
(E eu pensando: tudo servidor público)
- Sou uma pessoa muito fácil de lidar, sabe? Só não gosto de prostitutas, travestis e maconheiros.
(Eu, novamente, mentalmente: me encaixo nas três categorias - prostituta, travesti e maconheira, não vamos nos dar bem)
Enfim, depois de muita conversa sem sentido - foram exatos 18 minutos -, desliguei o celular e bloqueei a americanizada. Fiquei realmente com medo. Cheguei à conclusão de que ela mandou assassinar a família inteira. MESMO.
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