Amanhã, vou ver um beatle. Pela segunda vez, na vida, vou ver um beatle. Isso não é pouca coisa, não. Isso é coisa pra caralho. É um beatle, um sonho de infância.
Quando eu era criança, eu tinha o sonho de ver os Beatles, assim, os quatro juntos, John, Paul, George e Ringo cantando "Here, there and everywhere" pra mim. E era sonho mesmo. Sonho daqueles inatingíveis.
Beatles... eu era criança...anos 1970... o mundo ainda não era globalizado como hoje. Tudo era difícil pacas.
Realmente, jamais vi os Beatles. Jamais vi os Beatles cantando "Here, there anda everywhere" ou qualquer outra música pra mim. O Mark Chapman tornou meu sonho no mundo não globalizado ainda mais difícil.
O canalha do Mark Chapman matou meu sonho. Se tem um cara que nunca vou perdoar nessa vida é o canalha do Mark Chapman. O cara passou como um meteoro acabando com o meu mundo.
E teve o canalha do câncer do George Harrison. Também não o perdoo.
Mas voltando ao amanhã... Amanhã, vou ver um beatle... um sonho... o Paul McCartney...e vou vê-lo ao lado da minha filha... um sonho do caralho.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
domingo, 15 de outubro de 2017
Maria Líbia
Ela chegou absolutamente tímida na nossa turma. Não me lembro se aquela era a primeira vez que dava aula numa universidade, mas, pela postura retraída, acredito que sim.
Ela se sentou na mesa, com aquele jeito "nem aí pro mundo de ser", com as mãos cruzadas, e ficou absolutamente muda, olhando pra gente, sem saber o que dizer ou fazer.
Eu e o Alberto Santiago estávamos bem de frente pra ela e percebemos a situação.
Puxamos assunto.
- Oi! Você é a professora de radiojornalismo, né?
- Sim - respondeu monossilábica. Ela estava estática naquela mesa. Mal se movia.
- Como é seu nome?
- Maria Líbia.
E outros colegas, também percebendo a professora acuada, mas com uma aura bacana pra caramba - a Líbia não enganava ninguém, era puro anjo em forma de gente -, começaram a puxar papo.
E, assim, fomos nos tornando íntimos daquela professora que logo se tornou referência em rádio e TV pra toda a turma, pra todo o Prédio 13 da PUC. E, pra muitos, inclusive, pra mim, referência pra vida.
Último período. Líbia se tornara rápido, pela competência, profissionalismo, dedicação, coordenadora do curso de jornalismo.
- Líbia, nossa turma quer falar com você. Dá pra ir na nossa sala?
- O que vocês querem?
- Ah, tem um professor que não dá pra engolir. Como a PUC coloca um cara daqueles pra nos dar aula?
- É o terceiro professor que vocês vão tirar no último período do curso. Assim, vocês me matam do coração. Vou lá depois do intervalo.
E chega a Líbia na sala.
- Qual é o professor dessa vez?
- Você.
- Eu? O que tá acontecendo, gente? Que pegadinha é essa? Nem tô entendendo mais nada.
- A gente quer te convidar pra paraninfa da nossa turma.
E o choro veio fácil. De todo mundo, inclusive. A primeira turma da PUC de jornalismo para que ela deu aula também foi a primeira da qual ela foi paraninfa. Deu pra entender, gente?
Líbia se tornou uma grande amiga minha. Eu dizia que ela era minha madrinha no jornalismo. Era a ela que eu recorria pra me aconselhar antes de dar meus pequenos ou grandes passos na carreira. E até na vida.
Este ano, a Líbia nos deixou, em março, mês da mulher. Como mulher única, exemplo de vida, de luta, como referência para inúmeras de nós, filhas do prédio 13 da PUC, não poderia ser diferente.
Da Líbia, ficarão sempre as boas lembranças; as palavras certas; a simplicidade com que levava a vida, apesar da grandiosidade do ser humano que era.
E que sorte eu tive de termos nossos caminhos cruzados!
E que falta ela tá fazendo!
Ela se sentou na mesa, com aquele jeito "nem aí pro mundo de ser", com as mãos cruzadas, e ficou absolutamente muda, olhando pra gente, sem saber o que dizer ou fazer.
Eu e o Alberto Santiago estávamos bem de frente pra ela e percebemos a situação.
Puxamos assunto.
- Oi! Você é a professora de radiojornalismo, né?
- Sim - respondeu monossilábica. Ela estava estática naquela mesa. Mal se movia.
- Como é seu nome?
- Maria Líbia.
E outros colegas, também percebendo a professora acuada, mas com uma aura bacana pra caramba - a Líbia não enganava ninguém, era puro anjo em forma de gente -, começaram a puxar papo.
E, assim, fomos nos tornando íntimos daquela professora que logo se tornou referência em rádio e TV pra toda a turma, pra todo o Prédio 13 da PUC. E, pra muitos, inclusive, pra mim, referência pra vida.
Último período. Líbia se tornara rápido, pela competência, profissionalismo, dedicação, coordenadora do curso de jornalismo.
- Líbia, nossa turma quer falar com você. Dá pra ir na nossa sala?
- O que vocês querem?
- Ah, tem um professor que não dá pra engolir. Como a PUC coloca um cara daqueles pra nos dar aula?
- É o terceiro professor que vocês vão tirar no último período do curso. Assim, vocês me matam do coração. Vou lá depois do intervalo.
E chega a Líbia na sala.
- Qual é o professor dessa vez?
- Você.
- Eu? O que tá acontecendo, gente? Que pegadinha é essa? Nem tô entendendo mais nada.
- A gente quer te convidar pra paraninfa da nossa turma.
E o choro veio fácil. De todo mundo, inclusive. A primeira turma da PUC de jornalismo para que ela deu aula também foi a primeira da qual ela foi paraninfa. Deu pra entender, gente?
Líbia se tornou uma grande amiga minha. Eu dizia que ela era minha madrinha no jornalismo. Era a ela que eu recorria pra me aconselhar antes de dar meus pequenos ou grandes passos na carreira. E até na vida.
Este ano, a Líbia nos deixou, em março, mês da mulher. Como mulher única, exemplo de vida, de luta, como referência para inúmeras de nós, filhas do prédio 13 da PUC, não poderia ser diferente.
Da Líbia, ficarão sempre as boas lembranças; as palavras certas; a simplicidade com que levava a vida, apesar da grandiosidade do ser humano que era.
E que sorte eu tive de termos nossos caminhos cruzados!
E que falta ela tá fazendo!
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Filé em cinco atos
Ato 1
Mal pisei na cidade por onde moraria na próxima década, Filé, semifilhote de basset, chegou lá em casa com casinha e duas vasilhinha, uma pra ração e outra pra água, praticamente junto comigo.
- Casinha... vasilhinhas... huuuummm... - estranhou meu pai
Nem precisava ser uma mãe Dinah pra fazer a previsão:
- Isso só pode ser presente de grego.
Breno, meu amigo, que estava me doando o presente de gre..., quer dizer, o Filé, jurou que não. Filé era um doce, segundo ele.
Filé era um cachorro bravo pra cacete. E já se apresentou assim logo que chegou. Só eu e meu pai dávamos conta dele. Minha mãe e a Ana, ainda um bebê, só se aproximavam com muita cautela.
Os vizinhos tinham medo dele. Conheciam a fama de mau. E a fama circulava pelo bairro.
Ato 2
Três horas da manhã. Ele e a Luma, a pastora belga, aprontaram uma latição sem fim lá no fundo do nosso quintal. Um quintal imenso, maior que uns tantão de Jorge Aragão juntos.
Liguei pra polícia.
- Moça, não vou entrar aí de jeito nenhum - me falou o PM.
- Por que não?
- Tá louca?
- Não vai me dizer que cê tá com medo?
- Óbvio que tô.
- Mas PM não tem que cuidar da segurança da gente, prender ladrão etc.?
- Não tô falando de ladrão, não, moça. Tô falando daquele cachorrinho ali. Ele é bravo pra cacete. Não entro mesmo.
- Ah, porra. Me dá sua arma aí, que eu mesma vou lá.
- Ah, não dou arma não. Tá louca?
Nisso, os cachorros já estavam razoavelmente calmos, e a louca aqui foi no fundo do quintal ver o que tinha. Se tinha ladrão, já tinha fugido. E Filé fez o mesmo. Só que fugiu pro lado da PM, que enlouqueceu. Seis policiais. Foi cada um pro lado, fugindo da pestinha. Como meu pai estava por perto, ele não avançou em nenhum, mas correu de um lado pro outro, passando por debaixo da perna de todos. Meu pai, claro, só gargalhava, não se lembrava de mandar a pestinha entrar. Eu tive que dar um berro pro meu pai voltar ao normal e botar moral na situação.
Ato 3
Meu pai faleceu. Filé chorou junto comigo, enquanto eu passava o terno com que ele seria enterrado.
Ato 4
Eu e minha mãe resolvemos mudar de casa.
- Como vamos levar Filé? Ele não deixa ninguém encostar nele - perguntei pra minha mãe.
- Dá Rivotril pra ele - respondeu minha mãe.
Achei a ideia maravilhosa.
Dei quatro gotas. O cachorro adormeceu e o levamos pra casa nova. BRIN CA DEI RI NHA. O cachorro enlouqueceu e saiu pulando todas as janelas da casa. Tive que deixar o Filé pra trás. No outro dia, com o coração na mão, fui lá ver como ele estava. Quando parei o carro na porta de casa, e ele me viu, correu, pulou a janela do carro e começou a lamber meu rosto, algo que ele não fazia desde filhote. Fomos, enfim, pra nova casa.
Ato 5
Filé estava cada vez mais bravo. Resolvi doá-lo. Minha mãe estava idosa e minha filha tinha só sete anos. Deixei um anúncio no petshop, deixando bem claro o quanto ele era bravo. O mestre de obras de uma construção me ligou, dizendo que precisava de um cão bem, mas bem bravo pra vigiar a obra.
Eu disse: - ENCONTROU.
Ele e mais três pedreiros foram buscar Filé.
GAR GA LHA RAM quando viram aquela coisinha pequenininha.
CHO RA RAM quando tentaram pegar Filé.
20 minutos de tentativa para laçá-lo.
Lá se foi Filé. Meu coração ficou na mão. O companheirinho do meu pai tava indo embora. Era necessário.
No outro dia, 7h30 da manhã, campainha toca.
- Vim devolver o Filé. Ele não deixou um pedreiro sequer entrar na obra.
- Moço, não aceito devolução não.
Enfim, Filé ficou com um dos pedreiros. O cara tinha jeitão do meu pai. Eles se entenderam. Via os dois passeando pela Lagoa Paulino, a principal de Sete Lagoas, de vez em quando. Era uma festa, quando ele me via. Tava feliz.
Mal pisei na cidade por onde moraria na próxima década, Filé, semifilhote de basset, chegou lá em casa com casinha e duas vasilhinha, uma pra ração e outra pra água, praticamente junto comigo.
- Casinha... vasilhinhas... huuuummm... - estranhou meu pai
Nem precisava ser uma mãe Dinah pra fazer a previsão:
- Isso só pode ser presente de grego.
Breno, meu amigo, que estava me doando o presente de gre..., quer dizer, o Filé, jurou que não. Filé era um doce, segundo ele.
Filé era um cachorro bravo pra cacete. E já se apresentou assim logo que chegou. Só eu e meu pai dávamos conta dele. Minha mãe e a Ana, ainda um bebê, só se aproximavam com muita cautela.
Os vizinhos tinham medo dele. Conheciam a fama de mau. E a fama circulava pelo bairro.
Ato 2
Três horas da manhã. Ele e a Luma, a pastora belga, aprontaram uma latição sem fim lá no fundo do nosso quintal. Um quintal imenso, maior que uns tantão de Jorge Aragão juntos.
Liguei pra polícia.
- Moça, não vou entrar aí de jeito nenhum - me falou o PM.
- Por que não?
- Tá louca?
- Não vai me dizer que cê tá com medo?
- Óbvio que tô.
- Mas PM não tem que cuidar da segurança da gente, prender ladrão etc.?
- Não tô falando de ladrão, não, moça. Tô falando daquele cachorrinho ali. Ele é bravo pra cacete. Não entro mesmo.
- Ah, porra. Me dá sua arma aí, que eu mesma vou lá.
- Ah, não dou arma não. Tá louca?
Nisso, os cachorros já estavam razoavelmente calmos, e a louca aqui foi no fundo do quintal ver o que tinha. Se tinha ladrão, já tinha fugido. E Filé fez o mesmo. Só que fugiu pro lado da PM, que enlouqueceu. Seis policiais. Foi cada um pro lado, fugindo da pestinha. Como meu pai estava por perto, ele não avançou em nenhum, mas correu de um lado pro outro, passando por debaixo da perna de todos. Meu pai, claro, só gargalhava, não se lembrava de mandar a pestinha entrar. Eu tive que dar um berro pro meu pai voltar ao normal e botar moral na situação.
Ato 3
Meu pai faleceu. Filé chorou junto comigo, enquanto eu passava o terno com que ele seria enterrado.
Ato 4
Eu e minha mãe resolvemos mudar de casa.
- Como vamos levar Filé? Ele não deixa ninguém encostar nele - perguntei pra minha mãe.
- Dá Rivotril pra ele - respondeu minha mãe.
Achei a ideia maravilhosa.
Dei quatro gotas. O cachorro adormeceu e o levamos pra casa nova. BRIN CA DEI RI NHA. O cachorro enlouqueceu e saiu pulando todas as janelas da casa. Tive que deixar o Filé pra trás. No outro dia, com o coração na mão, fui lá ver como ele estava. Quando parei o carro na porta de casa, e ele me viu, correu, pulou a janela do carro e começou a lamber meu rosto, algo que ele não fazia desde filhote. Fomos, enfim, pra nova casa.
Ato 5
Filé estava cada vez mais bravo. Resolvi doá-lo. Minha mãe estava idosa e minha filha tinha só sete anos. Deixei um anúncio no petshop, deixando bem claro o quanto ele era bravo. O mestre de obras de uma construção me ligou, dizendo que precisava de um cão bem, mas bem bravo pra vigiar a obra.
Eu disse: - ENCONTROU.
Ele e mais três pedreiros foram buscar Filé.
GAR GA LHA RAM quando viram aquela coisinha pequenininha.
CHO RA RAM quando tentaram pegar Filé.
20 minutos de tentativa para laçá-lo.
Lá se foi Filé. Meu coração ficou na mão. O companheirinho do meu pai tava indo embora. Era necessário.
No outro dia, 7h30 da manhã, campainha toca.
- Vim devolver o Filé. Ele não deixou um pedreiro sequer entrar na obra.
- Moço, não aceito devolução não.
Enfim, Filé ficou com um dos pedreiros. O cara tinha jeitão do meu pai. Eles se entenderam. Via os dois passeando pela Lagoa Paulino, a principal de Sete Lagoas, de vez em quando. Era uma festa, quando ele me via. Tava feliz.
sábado, 7 de outubro de 2017
Ritual Joca arroz integral
Fiz arroz integral com cenoura pra mim e pro Joca. Comemos. Mas não foi assim tão simples "comemos", e pronto. O Joca teve todo um ritual.
Como foi o seu primeiro arroz integral, lembrei que tinha comprado umas vasilhinhas pra deixar no pet shop durante as férias que ele passou em Caetanópolis, enquanto eu passei férias em Funilândia.
Peguei a vasilhinha de comida e coloquei o arroz pra ficar tudo bonitim. O bichim, depois de um tempo, em que a comida já estava fria, disparou a latir.
Pensei:
- Malagradicido. Num gostô.
Fui lá ver, mas num era isso. O focinho não cabia na vasilhinha. E o pessoal do pet shop de Caetanópolis me entregou o bichim sem nem me avisar:
- sua anta, comprô vasilhinha pequenininha demais da conta, sô!
Então, coloquei o arroz na vasilhinha velha messss. O bichim comeu tudim. Dorô. Quis mais. Botei mais.
Disparou a latir. Tava quente. Esfriei. Latiu mais. Tava frio demais. Esquentei. Latiu. Esfriei. Tava frio. Esquentei. Latiu, rosnou... Apelei. Deixei lá.
- Ô Joca, tenha paciência de esperar esfriar.
Ele ameaçou a virar a vasilhinha com a pata pro arroz cair no chão.
Ameacei contar até três: UM... DOIS... E ele sabe o que acontece quando chego no três. Falo o nome dele completo: JOÃO CARLOS VALADARES LANZA JÚNIOR. Ele odeia o nome completo.
Recuou, fez cara de santo e esperou a comida esfriar.
Enfim, comeu a segunda vasilhinha com o arroz. Alimentação saudável a partir de hoje pro idosinho cardíaco da casa.
Como foi o seu primeiro arroz integral, lembrei que tinha comprado umas vasilhinhas pra deixar no pet shop durante as férias que ele passou em Caetanópolis, enquanto eu passei férias em Funilândia.
Peguei a vasilhinha de comida e coloquei o arroz pra ficar tudo bonitim. O bichim, depois de um tempo, em que a comida já estava fria, disparou a latir.
Pensei:
- Malagradicido. Num gostô.
Fui lá ver, mas num era isso. O focinho não cabia na vasilhinha. E o pessoal do pet shop de Caetanópolis me entregou o bichim sem nem me avisar:
- sua anta, comprô vasilhinha pequenininha demais da conta, sô!
Então, coloquei o arroz na vasilhinha velha messss. O bichim comeu tudim. Dorô. Quis mais. Botei mais.
Disparou a latir. Tava quente. Esfriei. Latiu mais. Tava frio demais. Esquentei. Latiu. Esfriei. Tava frio. Esquentei. Latiu, rosnou... Apelei. Deixei lá.
- Ô Joca, tenha paciência de esperar esfriar.
Ele ameaçou a virar a vasilhinha com a pata pro arroz cair no chão.
Ameacei contar até três: UM... DOIS... E ele sabe o que acontece quando chego no três. Falo o nome dele completo: JOÃO CARLOS VALADARES LANZA JÚNIOR. Ele odeia o nome completo.
Recuou, fez cara de santo e esperou a comida esfriar.
Enfim, comeu a segunda vasilhinha com o arroz. Alimentação saudável a partir de hoje pro idosinho cardíaco da casa.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
A (in)evitável pergunta
Uma amiga está passando por uma situação delicada com a mãe. Ontem, pedi notícias e ela me disse que está aproveitando o tempo junto a ela para conversar coisas que nunca conversaram antes, para falar o que ela nunca falou para a mãe e perguntar algumas coisas sobre as quais nunca perguntou.
E aí eu me lembrei da relação com a minha mãe no estágio final da doença. Foi um momento de intenso carinho, de trocas de abraços, de pedidos de perdão, e também de perdoar, de querer resgatar todo o tempo perdido ao longo de uma vida, às vezes, desperdiçada com o nada. E foi aí que eu me fiz a inevitável pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
E me lembrei da relação com a minha filha e pensei que não posso deixar que a história se repita, que quando a Ana me pedir atenção, eu devo a ela toda a atenção. E quando eu lhe pedir atenção, da mesma forma, ela deveria me dar também. E pensei que eu devo conhecer melhor a minha filha, da mesma forma que ela deveria me conhecer também. E ainda o quanto eu perco tempo com coisas inúteis, enquanto eu deveria olhar mais para uma pessoa que eu amo tanto. E que eu deveria ter mais trocas intensas de carinhos, mais abraços, mais pedidos de perdão e também perdoar mais para nem eu, nem ela termos, um dia, que fazer a pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
E me lembrei da relação com o meu pai e de todos os momentos em que sentamos para vermos juntos os jogos do Flamengo... e que brigou comigo para não vermos os jogos do Flamengo, porque estava nervoso demais... de todos os momentos em que rimos e choramos sobre as histórias sobre sua vida, sobre a vida dos seus pais e dos seus irmãos, sobre as histórias dos bancos onde passou a vida trabalhando... de todos os momentos em que gargalhamos com as histórias das partidas de futebol que jogou com os amigos... e me lembrei das vezes em que ele me levou na escola...de todos os vestibulares que me levou pra fazer e dizia "filha, fica calma, se não passar, tá tudo ok"... e de todos os momentos em que me levou pra passear pela sua cidade, Sete Lagoas... e me levou e levou minha filha pra passear pela sua cidade, Sete Lagoas... e de todos os momentos em que assistiu comigo aos meus shows favoritos, Queen, Madonna e Duran Duran... e Tom Jobim e Edu Lobo... e Vinicius de Moraes... e toda as vezes em que brigamos por conta da política... e todas as vezes em que brigamos por causa do Zé Dirceu... e quando ele me chamava de subversiva... e quando ele não queria que eu fizesse jornalismo, com medo da ditadura voltar... e eu ser presa por ser subversiva demais, por ser revolucionária demais... e logo depois me deixou ser o que eu sempre quis ser... jornalista... e todas as vezes que... e quando ele me deixou... mas em relação a ele, eu nunca fiz a tal pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Eu e Lô
Acabei de almoçar com meu vizinho Lô Borges.
Foi assim:
Cheguei no self-service, ao lado da minha casa, e Lô tava lá, sentadinho na mesa, sozinho, almoçando. Parei, em pé, na frente dele, com meu pratinho, na mó cara de pau, e me ofereci (porque sou, sim, oferecida):
- Oi, Lô, posso me sentar com você?
- Não.
- Por que não? O self-service tá lotado.
- Não tá não. Tem um monte de mesa vazia.
- Não tem não. Olhe bem ao redor.
- Tô olhando. Tirando a mesa aqui ao lado (apontou uma mesa com seis pessoas), todas as outras mesas estão vazias.
- Por enquanto. Daqui a dois minutos, isso aqui vai tá lotado. Conheço bem. Moro aqui há quatro anos. Precisamos aprender com os japoneses a aproveitar bem os espaços. Por que você vai ficar sozinho nessa mesa com mais três cadeiras vazias? Você é uma figura pública, respeitada, precisa dar o exemplo.
- Ok ok ok... senta aí.
- Obrigada, ídolo.
Sentei na frente dele.
Estávamos almoçando, quando o interrompi:
- Canta "Clube da esquina nº 2" pra mim.
- Não.
- Por quê?
- Porque estou almoçando.
- Você não sabe almoçar e cantar ao mesmo tempo?
- Não.
- Precisamos aprender com os japoneses a aproveitar nosso tempo melhor.
- Os japoneses almoçam absolutamente em silêncio para apreciar melhor a comida - ele disse.
- Isso é lenda. Eles almoçam cantando - respondi. Morei no Japão por dois anos. Inclusive, sei cantar "Clube da Esquina nº 2" em japonês. Quer ouvir?
- Não.
- E "O Trem Azul"?
- Também não.
Gente, logicamente, isso é fanfic. Na verdade, na verdade, eu apenas almocei no mesmo self-service do meu vizinho de rua Lô Borges. Eu na minha mesa, e ele, na mesa dele.
(História do dia 25 de agosto, que esqueci de postar aqui)
São Tadeuzinho
Da última vez em que fiquei na casa do meu primo-irmão Serginho, no RidiJanêro, eu quebrei o São Judinhas Tadeu, no quarto do filho dele, o Bê.
Ceis já devem saber o quanto eu sou desastrada, né? Lembram da garrafa d´água que eu derrubo todos os dias na minha mesa.
Mas é que o São Judinhas Tadeu é pequininim demais da conta, sô. Não vi. Mas voltando ao drama...
A Aninha vai ficar na casa do Sérgio na semana que vem e que eu achei, numa loja no Mercado Central, um São Tadeuzinho igualzim ao que eu quebrei, pra mandar pro Bê.
Uma loja cheinha de santos. Cheguei na loja, tinha santo pra tudo quanto é lado, só não tinha ninguém pra atender.
Eu e o Joney, meu amigo, pensamos até que era Deus que estava lá de atendente. Tentamos contato. Nada. Chegou um rapaz, enfim, pra me atender. Perguntei:
- Cê quié Deus?
O rapaz não entendeu nada.
Comprei o São Tadeuzinho.
Quero benzê-lo com água benta pra ficar igual ao outro. Inclusive, o atendente Deus apareceu com uma garrafinha de água, em determinado momento, e eu, toda enxerida, pedi:
- Me empresta essa água pra eu benzer o São Tadeuzinho?
Ele me olhou esquisito. Só. Entendi aquilo como um "não".
Mas o que eu quero saber doceis é seu eu posso levar o São Tadeuzinho pra benzer na Igreja Santantonho, perto da minha casa, ou se é só na Igreja São Tadeuzinho, que não tenho ideia de onde seja. Sou agnóstica, né, gente? Não tenho ideia de como funcionam esses paranauês católicos.
Se eu benzer São Tadeuzinho na Igreja Santantonho, Deus perdoa um bocado dos meus pecados ou me manda mais fundo pro inferno?
Grata!
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