Por Romyna Lanza
O povo elege seu representante para a Presidência pela maioria dos votos. A classe dominante não aceita o resultado e, junto com a mídia, inicia uma campanha agressiva para derrubar o novo governo. Acusações de que o Brasil estaria aliado a países socialistas da América Latina são apenas algumas das armas adotadas pela grande imprensa para manipular a opinião pública. Petrobras em foco. Explode um dos maiores escândalo de corrupção do país. Nasce o discurso “o governo defende ladrões e vagabundos”, referindo-se aos trabalhadores que, enfim, conquistaram um salário mínimo digno. Pedidos de impeachment e ameaças de golpes militares são desencadeados.
Não, esse texto não é sobre o governo Dilma Rousseff. É sobre Getúlio Vargas.
10 de novembro de 1937: em cadeia nacional de rádio, o presidente Vargas anunciou a implantação do Estado Novo.
Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Vargas se apresentava, ali, como o homem que protegeria o Brasil da ameaça comunista que aterrorizava o mundo. A postura de Vargas tranquilizou grande parte da população brasileira, que se acomodou sob as asas do grande protetor.
Contudo, entre as políticas de resistência ao comunismo, estava a censura à imprensa. A Constituição de 1937, outorgada por Vargas, previa, em seu artigo 15, “a censura prévia da imprensa, do teatro, do cinematógrafo, da radiodifusão, facultando à autoridade competente proibir a circulação, a difusão ou a representação; [...] é assegurado a todo cidadão o direito de fazer inserir gratuitamente nos jornais que o informarem ou injuriarem, resposta, defesa ou retificação; é proibido o anonimato; a responsabilidade se tornará efetiva por pena de prisão contra o diretor responsável e pena pecuniária aplicada à empresa”.
As consequências da censura seriam sentidas, anos mais tarde, pelo próprio Vargas.
Doze anos após, em 1949, o jornalista Samuel Weiner, dos Diários Associados, foi designado para fazer uma reportagem especial sobre a produção do trigo no Rio Grande do Sul. Os caminhos dos pampas gaúchos o levaram até a fazenda em que o já ex-presidente Getúlio Vargas se refugiava desde a queda do Estado Novo, em 1945.
A entrevista causou grande repercussão. Vargas anunciava que voltaria ao poder “nos braços do povo”, referindo-se às eleições presidenciais que disputaria no ano seguinte.
A promessa se cumpriu e Vargas foi reconduzido, pelos braços do povo, à Presidência, em 03 de outubro de 1950.
Aqui, começa a história do Última Hora, jornal comandado por Samuel Weiner, da guerra da mídia contra Vargas e de um dos maiores golpes contra um presidente do nosso país.
O Última Hora tomou as bancas do Rio de Janeiro em junho de 1951. A novidade não estava apenas no nascimento do jornal, mas também na diagramação moderna, nas manchetes fortes e chamativas, nas fotografias que ocupavam amplamente as páginas, nas cores que imprimiam personalidade ao veículo, na linguagem simples e direta e, principalmente, no apoio ao governo Vargas.
O projeto do Última Hora surgiu no primeiro encontro de Vargas com Wainer, que acabaram se tornando amigos pessoais.
Vargas pressentia que enfrentaria uma imprensa furiosa, que se uniu, ainda durante a campanha, contra sua eleição. O ódio, inicialmente, era resultado da censura sofrida com a Constituição de 1937. Assim, precisaria de um jornal que enfrentasse a grande mídia e o apoiasse. Essa era a função do Última Hora.
No início do seu mandato, o presidente enfrentava a “conspiração do silêncio midiático”, predominante nos principais veículos de informação do país, entre eles, Diários Associados, Correio da Manhã, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil.
Entretanto, o silêncio deu lugar a uma barulhenta campanha contra Vargas. Agora, além da censura ainda não digerida, a mídia era também movida pelos interesses da classe dominante que a financiava, inconsolável com a vitória do presidente eleito democraticamente com 48% dos votos.
A disputa pela Presidência, num Brasil democrático, que deveria ter se encerrado em 03 de outubro de 1950, quando a maioria do povo brasileiro escolheu Vargas, estava longe de terminar.
O golpe havia se iniciado antes mesmo do resultado eleitoral: “O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”, defendeu o jornalista Carlos Lacerda, udenista histórico, durante a campanha presidencial, no jornal Tribuna da Imprensa.
Com o discurso pré-eleitoral de Carlos Lacerda, nasceu a mais agressiva campanha midiática contra um governo já vista no país...até então.
Algumas armas usadas pela mídia se baseavam em denúncias tais como:
- Vargas, o “pai dos pobres”, o presidente que possibilitou a criação da CLT, estaria traindo os compromissos firmados com a classe trabalhadora.
- O presidente estaria planejando fechar o Pacto ABC – Argentina, Brasil e Chile. Naquela época, a Argentina era governada por Juan Domingos Perón, acusado pelos EUA de implementar uma república sindicalista em seu país. O simples diálogo com Perón significava o risco da invasão comunista no país.
“O petróleo é nosso”
Mas o golpe maior, Vargas sofreria ao contrariar os interesses EUA de explorar, sozinhos, o petróleo brasileiro, criando a Petrobras.
Em 1953, o governo brasileiro iniciou a campanha pela nacionalização total do petróleo com a criação da estatal. O Estado monopolizaria a perfuração e o refino do petróleo. A distribuição ficaria a cargo das empresas privadas. Desta forma, Vargas oferecia duros obstáculos aos planos dos EUA.
Com manchetes como “Vargas convoca o povo para a campanha de libertação” e “Governo e povo derrotam os monopólios”, o Última Hora destacou a preocupação e o foco do governo no desenvolvimento do país e no povo brasileiro. Mais do que isso: indicou que Getúlio estava disposto a enfrentar a guerra contra o monopólio internacional do petróleo.
Com a Petrobras e a política nacionalista em pauta, a sociedade se dividiu. De um lado, populares apoiavam Vargas. Do outro, mídia, elite, empresariado, militares e EUA se recusavam a perder os privilégios de exploração dos trabalhadores e da riqueza do Brasil.
A maior surpresa, no entanto, partiu da UDN, o mais forte partido oposicionista da época, quando alguns dos seus partidários declararam apoio às medidas de Vargas.
Com isso, a crise se aprofundou, enfurecendo, ainda mais, Carlos Lacerda, também da UDN.
Insatisfeito não só com o sucesso do Última Hora, como também com o apoio que ele oferecia a Vargas, principalmente, no caso da Petrobras, Carlos Lacerda acusou Samuel Wainer de se beneficiar de um empréstimo do Banco do Brasil para montar o jornal.
O que, na época, era uma operação de rotina entre o BB e as grandes empresas de comunicação se transformou num dos maiores escândalos de corrupção já vistos no Brasil, tudo cuidadosamente orquestrado pela imprensa oposicionista.
Uma CPI foi instaurada no Congresso para investigar o caso, em 1953. Nada de ilícito no empréstimo do BB a Wainer foi encontrado.
Naquele mesmo ano, João Goulart, um dos líderes políticos do PTB – partido do presidente -, foi nomeado ministro do Trabalho.
A inflação acabara de atingir índices alarmantes: 12% em 1951/1952. Para recompensar as perdas salariais dos trabalhadores, Vargas decidiu aumentar o piso salarial.
No ano da nomeação de Goulart, a inflação chegou a 20%. Goulart e Vargas dobraram o salário mínimo, enfrentando, mais uma vez, os reais inimigos dos trabalhadores brasileiros. A medida aqueceu a economia interna, porém irritou as multinacionais e os militares.
Para cada medida voltada para a população, uma reação da oposição.
Surgiu, então, o “Manifesto dos Coronéis”, que acusava Vargas de enfraquecer o Exército, ao desvalorizar os militares, concedendo aos trabalhadores piso salarial equivalente ao que recebiam. O presidente, que em 1937 protegeu o Brasil da ameaça vermelha, agora, era tachado de comunista.
Ainda como reação à valorização do salário mínimo, a oposição pediu o impeachment do presidente. Porém, ele tinha a maioria no Congresso. E o mais importante: não havia nada que justificasse, legalmente, seu afastamento. Assim, permaneceu no cargo, por mais dois meses, quando se suicidaria.
Como se não bastasse toda a crise, Carlos Lacerda sofreu um atentado na rua Toneleiros, Zona Sul do Rio, no dia 05 de agosto de 1954. O jornalista sobreviveu, porém seu guarda-costas, o major aviador Rubens Florentino Vaz, foi atingido mortalmente.
O assassinato foi logo atribuído a Vargas: “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas”, bradou Lacerda um dia após o atentado.
Na época, foi constatado o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, no crime.
Imediatamente, foram deflagrados novos protestos pedindo a cabeça de Vargas. Desta vez, em manifesto da Aeronáutica e, logo após, também da Marinha.
Exército, Marinha, Aeronáutica, mídia e empresários contra Vargas. E o povo que o elegera ao seu lado.
Para evitar a guerra civil, Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na história em 24 de agosto de 1954.
Na medida em que as rádios anunciavam a morte de Vargas, a população reagia.
As ruas foram tomadas pela comoção popular.
Parte do povo invadiu veículos de comunicação em protesto contra os golpistas que levaram o presidente à morte.
Nos 60 anos do suicídio de Vargas, Janio de Freitas, repórter que cobriu a morte do presidente, relembrou, na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o papel da mídia na tragédia: “Getúlio ficou indefeso, objeto de um ódio coletivo que se propagava sem limites: monolíticos, a imprensa, a incipiente TV e o rádio, mais do que se aliarem à irracionalidade, foram seus porta-vozes sem considerar as previsíveis consequências para o Estado de Direito". (veja artigo aqui)
Em 2015, a história insiste em se repetir.
Assim como aconteceu com Vargas, no seu segundo mandato, a classe dominante se recusou/ se recusa a aceitar o resultado das eleições de 26 de outubro de 2014, quando Dilma Rousseff foi eleita presidente com 54 milhões de votos.
Os veículos de comunicação iniciaram uma campanha para derrubar a presidente eleita pelo povo, num Brasil democrático, já na campanha presidencial. O episódio mais marcante ficou por conta da revista de maior circulação do Brasil, que transformou em panfleto partidário oposicionista sua capa, apenas um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais. A capa trazia denúncias inócuas, até hoje não comprovadas, contra a presidente, baseadas apenas em especulações, contrariando toda lógica e ética jornalísticas.
As medidas voltadas para a população miserável e de baixa renda são tachadas de “políticas para sustentar vagabundos”, ignorando todos os avanços que programas sociais como o Bolsa Família proporcionaram ao país. Dê-se a isso o nome de “IGNORÂNCIA” e “DESINFORMAÇÃO”.
Qualquer diálogo com países de cunho socialista, como Cuba, torna-se motivo para se instaurar o temor da ameaça comunista. A isso, não posso dar outro nome que não seja “IGNORÂNCIA”...novamente ela.
A Petrobras é apedrejada e desqualificada pela oposição, fortalecida pela grande mídia, numa tentativa de desvalorizá-la e ceder aos interesses do capital estrangeiro. Em 27 de fevereiro deste ano, o senador José Serra (PSDB) concedeu entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, quando assumiu a intenção da oposição em entregar a estatal: “A Petrobras deveria ser dividida em empresas autônomas e uma holding. Aí, em cada caso, ou você vende, ou você abre o capital. [...] Eu estou estudando esse assunto todo. Até para poder fazer, no Senado, daqui um mês mais ou menos, uma proposta a respeito dos rumos da Petrobras. Vou apresentar como contribuição para o debate”.
Por fim, em 2015, tal qual aconteceu com Vargas, em seu segundo mandato, o desejo de impeachment de uma minoria tenta se impor. A exemplo de Vargas, o PT, partido da presidente Dilma Rousseff, possui o apoio da maioria da população. E uma eventual queda pode, sim, significar a eclosão de uma guerra civil.