Era um casal com idade já bem avançada, bem velhinhos mesmo.
Não era normal ver no Fórum pessoas naquela idade, ainda mais na área criminal,
tão pesada, tão cheia de conflitos e de dor. A senhora chorava muito. Estava
aos soluços. O senhor tentava acalmá-la em vão.
- Em que posso ajudá-los? - perguntei.
- Viemos saber se a sentença do João Carlos (nome fictício)
saiu - disse-me o senhor, que estava um pouco mais calmo... só um pouco... Suas
mãos tremiam. Sua voz também.
- O que vocês são dele? - perguntei por pura curiosidade, já
que eles tinham direito de ver o processo, caso não estivesse correndo em
segredo de justiça.
- Somos pais dele.
Foi aí que entendi todo o sofrimento e angústia por que
estavam passando.
A sentença tinha acabado de sair. Vinte
e três anos era a pena que João Carlos havia pegado por tráfico de drogas.
Nesse momento, quem teve vontade de chorar fui eu.
Como dar a notícia àqueles pais? Calculei que eles teriam
perto de 80 anos. A pena era de 23. Se as instâncias superiores confirmassem a
sentença, eles não veriam o filho em liberdade novamente. Era a primeira
passagem do filho pela polícia. Era a primeira vez que os pais lidavam com
aquela situação.
Mas isso não interessa muito às famílias.
Não importa se é a primeira ou a 20ª pena de um filho. A passagem
de um filho por um presídio é sempre carregada de preocupação e dor.
"Será que ele amanhece vivo amanhã?"
Era isso o que eu mais ouvia das mães dos apenados na minha
passagem pelo Tribunal de Justiça e nas minhas visitas aos presídios e à Defensoria
Pública do Estado.
A vida dessas famílias se volta quase que exclusivamente
para salvar esses filhos. Digo "salvar", porque a luta, a partir do
momento em que seus filhos são presos, passa a ser a sobrevivência deles.
Tirá-los
vivos e sãos dos presídios brasileiros é algo quase que impossível. Ah, a
sobrevivência da família também. Muitas mães ou pais perdem o emprego, porque
não conseguem conciliar as idas à Defensoria e ao Fórum com o trabalho. E a
renda da família cai consideravelmente.
Numa semana em que cerca de 90 presos foram chacinados nos
presídios brasileiros, é preciso ver além das paredes desses presídios, é
preciso ver muito além dos corpos e de cada uma dessas 90 vidas perdidas. Foram
centenas de vidas e de histórias destruídas. Histórias que jamais conheceremos,
dores que nunca sentiremos e nem sequer imaginaremos.
A cada declaração desastrosa seja de autoridades, seja de
anônimos nas redes sociais, lamento pela falta de empatia e de humanitarismo.
Ninguém vai pra rua sabendo roubar. Aprende-se por
necessidade. Roubar gera riscos, inclusive de morte. Aliás, ninguém escolhe viver na rua, se tiver casa. Ou escolhe? Ninguém entra no tráfico, correndo
risco diário de morte, por ser a forma mais fácil de ganhar a vida. Correr
risco diário de morte jamais será a forma mais fácil de ganhar a vida. Há que
se ouvir cada uma dessas pessoas para entender por que se tornaram o que se
tornaram.