sábado, 25 de março de 2017

Mãe sem fórmula

Por Romyna Lanza

Fui parar no ultrassom da minha ginecologista por conta de uma cólica que me fazia contorcer de dor. O motivo? Gravidez. A notícia caiu como um meteoro no meu mundo. Uma criança, àquela altura da minha vida, era tudo o que eu menos queria e precisava.

Estava recém-formada, queria ir embora pro Rio, fazer meu mestrado, doutorado e seguir minha carreira de jornalista lá. Como me mudar pra terra do Tom e do Vinicius carregando um bebê na bagagem? Quem cuidaria dele, enquanto eu estudava e trabalhava? E o meu samba? Como ir pro samba com um bebê? E se ele odiasse samba? E se odiasse o Salgueiro? Nossa!

Mas a criança estava a caminho, e eu teria que ser mãe. Eu e mãe, definitivamente, duas coisas que não combinavam. Soava esquisito aquilo. Duas palavras que não se davam. Não sabia como lidar com a situação.

Eu nem ao menos brincava de boneca quando criança. Não sabia trocar fraldas, dar mamadeiras, colocar roupinhas nas bonecas... imagina num bebê! Quando criança, eu sabia escrever. E cresci assim... apaixonada pelas letras. Era o que queria fazer: escrever, ser jornalista.

E naquele dia da cólica e do ultrassom, começou a pressão para que eu fosse a melhor mãe do mundo, porque era assim que minha mãe se apresentava ao mundo: a melhor mãe do mundo.

- Prazer, meu nome é Laís Valladares, com dois "eles". Sou mãe de quatro filhas: uma dentista, uma médica, uma engenheira e uma jornalista. Eu e meu marido lutamos muito para criar e formar todas quatro, mas conseguimos. Sou muito feliz em ser mãe.

Sim, minha mãe, artista plástica e costureira maravilhosas, que lutou ao lado do meu pai, durante uma vida, para formar as quatro filhas, numa época em que apenas 6% da população do país se graduava, era feliz por ser mãe. Se parasse alguém do seu lado, num consultório médico, na fila do supermercado ou no ponto do ônibus, ela, conversada do jeito que era, puxava logo assunto e se apresentava como a mãe mais feliz do mundo.

Mas ela não era uma mãe fácil, pelo menos, pra mim. Era uma super mãe. Por muitas vezes, queria se meter demais, excessivamente, na minha vida. Principalmente, por eu ser a caçula da família. Queria escolher desde a minha roupa até meu namorado. E eu, por prezar demais minha individualidade e privacidade, partia para o conflito. Não admitia de forma alguma essas intromissões.

Sou Valadares, com um "ele" só, mas nem por isso menos atrevida. Valadares é a família da minha avó materna, a Dirce Valadares, família na sua maioria de mulheres, e de mulheres fortes, geniosas, independentes, bem-sucedidas. Minha mãe tinha muito orgulho da nossa família, exatamente, pela força e independência das suas mulheres. Por isso, ela fazia questão de se apresentar como uma Valladares com dois "eles". Eu nunca soube se a quantidade de "eles" influencia nossa vida em alguma coisa.

Meu pai já era o contrário. Não se metia na minha vida, me dava liberdade total de escolhas. Daí termos sido tão companheiros. Ele era meu melhor amigo, meu maior apoio nos momentos mais difíceis. Era com ele que eu conversava sobre política, sobre futebol, música, profissão, enfim, sobre tudo. Quem me conhece sabe que ele foi a pessoa mais importante do meu mundo.

Ele saía de casa cedo, por volta das 5h30 da manhã e só voltava às 8h da noite. Mal nos víamos. Só mesmo aos finais de semana. Mas o pouco tempo juntos era o suficiente para tornarem nossos laços fortes o suficiente para serem eternos.

E assim eu tento ser pra Ana Luísa, meu bebê, minha criança que nasceu há 18 anos: a mãe que meu pai foi.

Há cerca de duas semanas, ela me desafiou:

- Amore, vou te fazer uma perguntas.

- Ok - não tinha ideia do que viria.

- Qual o meu cantor favorito?

- Oi?

- Mamis!!!! Qual o meu cantor favorito?

- Gente!!!

- Qual o cantor favorito da Lady Gaga?

- Ah, tá. É o David Bowie. Vocês são gêmeas nisso.

- Isso, mamis. E qual minha cantora favorita?

- Lady Gaga, amore.

- Muito bem, mamis. E meu escritor favorito?

- Fácil. Dostoiévski.

E foram mais de 20 perguntas assim. Acho que acertei uns 80%. Na verdade, ela queria saber se presto atenção nela, nas coisas dela. Chorei nesse dia, apesar da brincadeira ter sido divertida, porque sou aquele tipo de mãe:

- Filha, cê já almoçou?

- Não.

- Não vai almoçar?

- Não.

- Ok, então.

Deveria ir pra cozinha fazer a comida e levar na boca? Às vezes, penso que sim. Outras, penso que não.

Enfim, tento ser a melhor mãe que posso, assim como minha mãe foi a melhor mãe que ela podia ser.

Não há regras, não há fórmulas.



sábado, 18 de março de 2017

A história de Lucas e Joaquim - ou melhor não fazer julgamentos precipitados

Por Romyna Lanza

Era a primeira vez que Lucas (*), 16 anos, entrava numa sala de audiência. Ele estava há cerca de um mês num Centro de Internação Provisória (CEIP). Havia sido detido com droga. Muita droga. Crack, para ser mais exata. Apesar do passado limpo, dos bons antecedentes, sabia que a quantidade não ajudaria Lucas. A pena seria pesada. Lucas entrou naquela sala algemado, acompanhado pelos agentes do CEIP. O juiz pediu para que chamassem o pai, que estava no corredor do Fórum. Joaquim (*) entrou. Cara fechada, disse um "boa tarde" secamente para as pessoas que estavam na sala. Não olhou para o filho em momento algum, não o abraçou, não se emocionou em vê-lo algemado, não perguntou "como você está?", como geralmente os pais faziam, não soltou uma lágrima sequer. Um homem totalmente gelado, sem sentimento algum. Era essa a impressão que Joaquim nos passava. Sentou-se na outra ponta da mesa, bem distante do filho e ficou olhando pra frente, alheio a tudo que acontecia. Naquele dia, a escrevente havia faltado, e o juiz me pediu que eu o acompanhasse na audiência. Já tinha feita algumas nos meus cinco anos de Tribunal, e nunca, jamais tinha visto um pai como aquele. Comentei com o juiz: - Que homem é esse? E ele, com mais de 15 anos de experiência no Juizado da Infância e Adolescência, me respondeu: - Também estou espantado. Acompanhei o interrogatório inteiro do Lucas olhando para aquele homem, julgando-o. Sim, naquele momento, o réu, para mim, era Joaquim: "por isso que o filho está aqui. nunca teve amor do pai, atenção, carinho. sabe-se lá que tipo de violência física e psicológica esse rapaz deve ter sofrido em casa? não tinha outro destino possível a não ser o crime. um carente de pai esse garoto". Eis o meu veredito para Joaquim: um monstro que abandonou o filho a própria sorte. Ele, sim, deveria cumprir a pena no lugar do Lucas. Joaquim, ignorando meu veredito e o filho, continuou ali, imóvel, olhando para frente. Fim do interrogatório do Lucas. O juiz, antes de liberá-lo, ainda perguntou ao Joaquim se ele queria dizer alguma coisa para o filho. Ele respondeu negativamente com a cabeça, sempre olhando para frente. Lucas se levantou para ir embora, acompanhado dos agentes penitenciários. Quando passava pelo pai, Joaquim disse pro juiz: - doutor, espere. O juiz mandou os agentes esperarem: - eu quero, sim, abraçar meu filho. Ficamos surpresos. O juiz autorizou. Joaquim e Lucas se abraçaram. Choraram de soluçar. Foi o abraço mais longo e o choro mais sentido que já vi numa sala de audiência durante minha passagem pelo Tribunal. Depois que Lucas saiu, Joaquim nos contou sua história, toda sua luta diária, todo seu amor aos cinco filhos - Lucas é o caçula - e toda sua preocupação em relação ao destino do filho. E eu que tinha julgado Joaquim um monstro, agora, entendia que todo aquele silêncio e aquele olhar tão duro eram, na verdade, de dor. (*) Os nomes são fictícios