Por Romyna Lanza
Fui parar no ultrassom da minha ginecologista por conta de uma cólica que me fazia contorcer de dor. O motivo? Gravidez. A notícia caiu como um meteoro no meu mundo. Uma criança, àquela altura da minha vida, era tudo o que eu menos queria e precisava.
Estava recém-formada, queria ir embora pro Rio, fazer meu mestrado, doutorado e seguir minha carreira de jornalista lá. Como me mudar pra terra do Tom e do Vinicius carregando um bebê na bagagem? Quem cuidaria dele, enquanto eu estudava e trabalhava? E o meu samba? Como ir pro samba com um bebê? E se ele odiasse samba? E se odiasse o Salgueiro? Nossa!
Fui parar no ultrassom da minha ginecologista por conta de uma cólica que me fazia contorcer de dor. O motivo? Gravidez. A notícia caiu como um meteoro no meu mundo. Uma criança, àquela altura da minha vida, era tudo o que eu menos queria e precisava.
Estava recém-formada, queria ir embora pro Rio, fazer meu mestrado, doutorado e seguir minha carreira de jornalista lá. Como me mudar pra terra do Tom e do Vinicius carregando um bebê na bagagem? Quem cuidaria dele, enquanto eu estudava e trabalhava? E o meu samba? Como ir pro samba com um bebê? E se ele odiasse samba? E se odiasse o Salgueiro? Nossa!
Mas a criança estava a caminho, e eu teria que ser mãe. Eu e
mãe, definitivamente, duas coisas que não combinavam. Soava esquisito aquilo.
Duas palavras que não se davam. Não sabia como lidar com a situação.
Eu nem ao menos
brincava de boneca quando criança. Não sabia trocar fraldas, dar mamadeiras,
colocar roupinhas nas bonecas... imagina num bebê! Quando criança, eu sabia
escrever. E cresci assim... apaixonada pelas letras. Era o que queria fazer:
escrever, ser jornalista.
E naquele dia da cólica e do ultrassom, começou a pressão
para que eu fosse a melhor mãe do mundo, porque era assim que minha mãe se
apresentava ao mundo: a melhor mãe do mundo.
- Prazer, meu nome é Laís Valladares, com dois
"eles". Sou mãe de quatro filhas: uma dentista, uma médica, uma
engenheira e uma jornalista. Eu e meu marido lutamos muito para criar e formar
todas quatro, mas conseguimos. Sou muito
feliz em ser mãe.
Sim, minha mãe, artista plástica e costureira maravilhosas,
que lutou ao lado do meu pai, durante uma vida, para formar as quatro filhas, numa época
em que apenas 6% da população do país se graduava, era feliz por ser mãe. Se
parasse alguém do seu lado, num consultório médico, na fila do supermercado ou
no ponto do ônibus, ela, conversada do jeito que era, puxava logo assunto e se
apresentava como a mãe mais feliz do mundo.
Mas ela não era uma mãe fácil, pelo menos, pra mim. Era uma super mãe. Por muitas vezes, queria se meter demais,
excessivamente, na minha vida. Principalmente, por eu ser a caçula da família. Queria
escolher desde a minha roupa até meu namorado. E eu, por prezar demais minha
individualidade e privacidade, partia para o conflito. Não admitia de forma
alguma essas intromissões.
Sou Valadares, com um "ele" só, mas nem por isso
menos atrevida. Valadares é a família da minha avó materna, a Dirce Valadares, família na sua
maioria de mulheres, e de mulheres fortes, geniosas, independentes,
bem-sucedidas. Minha mãe tinha muito orgulho da nossa família, exatamente, pela
força e independência das suas mulheres. Por isso, ela fazia questão de se
apresentar como uma Valladares com dois "eles". Eu nunca soube se a quantidade de "eles" influencia nossa vida em alguma coisa.
Meu pai já era o contrário. Não se metia na minha vida, me
dava liberdade total de escolhas. Daí termos sido tão companheiros. Ele era meu
melhor amigo, meu maior apoio nos momentos mais difíceis. Era com
ele que eu conversava sobre política, sobre futebol, música, profissão, enfim,
sobre tudo. Quem me conhece sabe que ele foi a pessoa mais importante do
meu mundo.
Ele saía de casa cedo, por volta das 5h30 da manhã e só
voltava às 8h da noite. Mal nos víamos. Só mesmo aos finais de semana. Mas o
pouco tempo juntos era o suficiente para tornarem nossos laços fortes o suficiente
para serem eternos.
E assim eu tento ser pra Ana Luísa, meu bebê, minha criança
que nasceu há 18 anos: a mãe que meu pai foi.
Há cerca de duas semanas, ela me desafiou:
- Amore, vou te fazer uma perguntas.
- Ok - não tinha ideia do que viria.
- Qual o meu cantor favorito?
- Oi?
- Mamis!!!! Qual o meu cantor favorito?
- Gente!!!
- Qual o cantor favorito da Lady Gaga?
- Ah, tá. É o David Bowie. Vocês são gêmeas nisso.
- Isso, mamis. E qual minha cantora favorita?
- Lady Gaga, amore.
- Muito bem, mamis. E meu escritor favorito?
- Fácil. Dostoiévski.
E foram mais de 20 perguntas assim. Acho que acertei uns 80%.
Na verdade, ela queria saber se presto atenção nela, nas coisas dela. Chorei
nesse dia, apesar da brincadeira ter sido divertida, porque sou aquele tipo de
mãe:
- Filha, cê já almoçou?
- Não.
- Não vai almoçar?
- Não.
- Ok, então.
Deveria ir pra cozinha fazer a comida e levar na boca? Às
vezes, penso que sim. Outras, penso que não.
Enfim, tento ser a melhor mãe que posso, assim como minha
mãe foi a melhor mãe que ela podia ser.
Não há regras, não há fórmulas.