Paulo Sérgio Alencar, 49 anos, passou uma adolescência perturbada por dúvidas. Ao mesmo tempo em que curtia os relacionamentos e o sexo com mulheres, sentia um prazer ainda maior em estar na companhia dos amigos. Chegou a viver uma paixão por um deles, que, à época, negou, por medo e insegurança. Só chegou a assumir esse sentimento anos mais tarde, quando o primeiro amor já estava distante, e não passava de uma doce lembrança.
Anos depois, Paulo casou-se. E foi justamente nesse período que enfrentou os maiores conflitos em relação à sua verdadeira orientação sexual. Até que, um dia, pagou literalmente pra ver. Queria saber o que um homem significaria na sua vida. Foi nos classificados de um jornal que Paulo chegou ao homem com quem teria sua primeira experiência homossexual. E não foi nada daquilo que ele esperava.
Mas os conflitos internos só aumentaram. Apesar disso, Paulo decidiu retomar a vida com a esposa.
Veio a filha Laurinha, que nasceu com Distrofia Miotônica de Steinert, que degenera os músculos, causando sua fraqueza.
Com a atenção do casal totalmente voltada para Laurinha e com as dúvidas de Paulo cada vez mais frequentes, o casamento desabou.
Até que um dia, num ponto de ônibus, Paulo conheceu Rodrigo. Após 16 anos de casamento, ele decidiu assumir sua homossexualidade e recomeçar sua vida com Rodrigo. Os dois assumiram a guarda da Laurinha.
Na semana em que a Comissão da Câmara dos Deputados aprova como definição de família apenas a união entre homem e mulher, Paulo manda seu recado: "minha família existe, e é linda".
(Romyna Lanza)
Foto: Arquivo Pessoal
Paulo, Laurinha e Rodrigo
"Venho de uma família de classe média. Sempre tive um bom relacionamento com meus pais e meus quatro irmãos. Perdi meu pai aos quinzes anos de idade. Ele sempre foi um pai presente, mas não muito dado a demonstrações de afeto. Minha mãe era exatamente o oposto, sempre superprotetora. Ela só se sentia bem se estivesse com seus filhos debaixo de suas "asas". Com meu irmão mais velho, era aquele tipo de relacionamento protocolar, sem nenhuma ligação afetiva mais forte. Ele morreu aos 36 anos de idade, vitimado por um câncer de garganta. Adquirido talvez, pelo excesso de bebida e cigarro. Aliás, o álcool sempre esteve presente na minha vida, inicialmente com meu pai e, depois, com meu irmão.
A adolescência
Os meus relacionamentos durante a adolescência foram somente com mulheres. Namoros sem importância, passageiros, sem grandes ligações afetivas. Pessoas com quem, ao dormir, poderia estar perdidamente apaixonado e, ao acordar, não tinha mais nenhuma importância. Mas eu até gostava de tudo aquilo. Nunca tive nenhum problema em dar e sentir prazer ao fazer sexo com mulheres. Pelo contrário, acho até que minha performance era satisfatória para elas. Tanto que, nenhuma das mulheres com quem me relacionei levantou qualquer suspeita quanto à minha sexualidade. Na minha cabeça, até então, eu seria bissexual.
Porém, hoje, sei que minha primeira paixão foi por um amigo na adolescência, chamado Carlos. Trabalhávamos em um banco. Passávamos uma boa parte do dia juntos e, mesmo assim, ainda procurávamos uma maneira de nos encontrarmos pra conversar, sair à tarde ou à noite. Com tudo isso, nenhum dos dois se deu conta de que existia muito mais que uma simples amizade. Quando tive que mudar de cidade, sofri com sua ausência e nunca mais tive notícias dele.
Eu vim a saber realmente que sentia desejos homossexuais quando já havia passado dos 20 anos. Porém, hoje, relembrando a minha ligação com alguns amigos de adolescência, vejo que, na verdade, se tratava de algo mais do que uma simples amizade. Mas, tudo isso, ficava no plano emocional, sem nenhum contato físico. No entanto, eu não tinha consciência disso. O que sentia era prazer em estar na companhia deles. Quando, por algum motivo, ficava distante, sentia saudades. Mas nunca, em nenhum momento, me imaginei fazendo sexo com nenhum deles. O desejo sexual por homens veio bem mais tarde, após o casamento.
A minha adolescência foi uma fase muito difícil, fiquei extremamente assustado, em pânico por conta de todos os sentimentos que estavam em mim. Até mesmo porque eu associava a homossexualidade à ideia de que ser gay estava ligada à vontade de se vestir como mulher, ser afeminado, essas coisas todas que formam o estereótipo do gay. Foi nessa época que procurei ajuda médica. Fiz psicoterapia por quase um ano. E essa foi a melhor atitude que poderia ter tomado. Consegui superar o meu medo e a aceitar o meu desejo como uma coisa absolutamente normal. Vale dizer que, até então, jamais tive contato sexual com nenhum homem. O que só viria a acontecer muito mais tarde, após alguns anos de casado.
O casamento
Com minha esposa (que não gostaria de citar o nome para preservá-la), foi tudo muito intenso. Apesar de estudarmos na mesma universidade, no mesmo horário, nunca tínhamos prestado atenção um no outro. Até que, um certo dia, na tentativa de me curar de uma daquelas paixões repentinas – foi por uma mulher, e o nosso namoro havia acabado recentemente – fui para um carnaval fora de época na cidade de São Luis, no Maranhão. Eu a conheci na praia. Foi tudo muito rápido. Trocamos telefone, combinamos de nos encontrar em Teresina, quando chegássemos, e, já na semana seguinte, estávamos transando feito loucos. O namoro durou cerca de um ano e meio e nos casamos, com direito a todas as pompas que um casamento "de gosto" pode ter.
Sempre foi muito bom. Tínhamos uma vida a dois bastante divertida e movimentada. Saíamos praticamente todos os dias, viajávamos bastante. Durante esse período, o desejo homossexual ficou como "adormecido". Parado ali, como se houvesse sido arquivado. No entanto, ele não havia sumido por completo.
A primeira experiência homossexual
Então, eis que ele surge com força total. Só que, aquilo não me causava sofrimento. Apenas uma vontade de "levar a cabo" aquilo que tomava conta dos meus pensamentos. E a oportunidade surgiu, após oito anos de casado, sem nunca haver traído minha esposa.
Em uma viagem a serviço, a cidade de Fortaleza, tomei uma decisão: vou experimentar e ver o que acontece.
Comprei um jornal e fui direto no caderno de “Classificados”, na seção de acompanhantes, e liguei para vários rapazes que ofereciam seus "serviços".
Combinei com que me pareceu mais simpático e que recebia na sua própria casa. Tudo aconteceu de forma natural. Ele foi gentil, conversamos algum tempo, expliquei quais eram minhas intenções e tudo fluiu naturalmente. Porém, não aconteceu nada que me fizesse pensar "é isso que eu quero pra minha vida". Voltei para Teresina, e a vida com minha esposa continuou normalmente.
A chegada da Laurinha
Um dos motivos pelo qual esse desejo ficou adormecido foi a nossa vontade de ter filhos. Passaram-se cerca de seis anos e nada de gravidez. Foi então que tomamos a decisão de partir para a investigação do motivo pelo qual a tão sonhada gravidez não vinha. Foram meses e meses realizando exames para se chegar à conclusão de que não havia problemas físicos em nenhum dos dois. Segundo os médicos, a causa da minha esposa não conseguir engravidar seria a ansiedade.
Entramos em uma outra etapa: tentar a gravidez artificial. Lá se foram três tentativas de inseminação artificial e cinco de fertilização "in vitro". Todas resultaram em sofridos fracassos, acrescidos de uma profunda crise financeira, devido ao alto custo dos procedimentos em que, até o carro da família foi sacrificado.
Sentamos, conversamos e chegamos à conclusão de que não havia mais nada a fazer, a não ser esperar ou tentar uma adoção. Mas, menos de seis meses depois, ela descobriu que estava grávida. Felicidade completa.
Agora, teríamos nosso filho e nosso casamento seria "até que a morte nos separe".
Ao final de oito meses de gestação, nasceu a Laurinha, após uma gravidez cheia de riscos de aborto. A felicidade bateu na nossa porta. Mas o destino, mais uma vez, nos preparou uma surpresa: Laurinha veio ao mundo com uma disfunção genética que, no primeiro momento, a impedia de respirar e realizar qualquer movimento.
Após avaliação médica, veio o diagnóstico: Distrofia Miotônica de Steinert, com prognósticos terríveis. não deveríamos ter nenhuma esperança. Foi durante o período que se seguiu ao nascimento da nossa filha, que ficamos mais unidos do que nunca. Cada um buscando o outro pra se amparar e tentar juntar forças para superar o que poderia vir pela frente.
Esperança era o que não nos faltava. Tínhamos certeza de que sairíamos com nossa filha viva. E o foi o que aconteceu. Após 75 dias do nascimento, tempo em que Laurinha ficou internada em uma UTI, nós conseguimos levá-la para casa.
A nossa responsabilidade só aumentou visto que ela iria para casa respirando através de uma traqueostomia e alimentando-se através de uma sonda gástrica. Até ela completar um ano de vida, nossa dedicação era em tempo integral. Ela tinha que ser mantida sob vigilância 24 horas por dia.
Durante o dia, Laurinha ficava com a sua mãe e, à noite, nos revezávamos em dois turnos. Era preciso uma vigilância ininterrupta, já que era necessário aspirá-la constantemente pela traqueia, para que ela não sufocasse. Após um ano, ela passou a respirar normalmente. No entanto, até o dia de hoje ela continua se alimentando por sonda e ainda não consegue andar.
Em relação ao casamento, as coisas não eram e nem poderiam ser como antes. Nosso casamento foi deixado um pouco de lado, e a vida sexual ficou bastante abalada. Estávamos exaustos físico e emocionalmente. Já não tínhamos mais liberdade nem tempo para sair, passear. Acho que essa foi a grande mudança. Também não sentíamos falta disso naquele momento. Nosso foco era nossa filha.
Rodrigo
Conhecer o Rodrigo foi uma sequência de acasos. Nunca saí à procura de ninguém, nunca entrei em salas de bate papo na internet para conhecer alguém. Meu encontro com o Rodrigo se deu da maneira mais improvável.
Saindo para resolver problemas bancários relacionados ao meu serviço, atividade que fazia - e faço ainda – rotineiramente. O destino me preparou mais uma surpresa. Como sou metódico, sempre faço o mesmo percurso. Nesse dia, resolvi seguir por outro caminho. Estava andando de cabeça baixa, quando, de repente, levanto a cabeça percebo aquele rapaz me olhando fixamente. Continuei caminhando e olhando para trás algumas vezes. E ele sempre me olhando.
Retornei do banco pelo mesmo percurso na esperança de encontrá-lo novamente. Não o vi mais. Me bateu uma certa melancolia, pensando se ainda iria encontrá-lo novamente. Nesse mesmo dia, eu havia ido trabalhar de ônibus, e, como estava um pouco "pra baixo", resolvi sair mais cedo para almoçar em casa. Estando na parada de ônibus, ouvi uma voz me perguntar se havia passado algum ônibus da Vila Bandeirante. Quando levantei a cabeça, percebi que era o Rodrigo. Para minha surpresa, ele me disse que estava dentro de um ônibus e me viu ali naquele ponto. Imediatamente, pediu parada e voltou correndo para falar comigo. Ficamos várias horas conversando ali mesmo. Trocamos telefone e passamos o final de semana nos falando várias vezes.
Esse acontecimento foi um divisor de águas na minha vida. A partir dali, minha vida tomou uma direção totalmente diferente daquela que eu havia planejado. Intimamente, algo me dizia que eu queria passar com ele o resto da minha vida. Isso aconteceu no dia 11 de março de 2011, às 11h30 da manhã de uma sexta-feira.
Eu percebi que estava apaixonado pelo Rodrigo, a partir do momento em que vi que seria capaz de mudar tudo aquilo que planejei para minha vida e que, principalmente, estava preparado para correr todos os riscos.
Dito assim, dessa forma, pode parecer que tenha sido fácil, mas não foi de maneira alguma. Foram momentos de muita apreensão, medo, incertezas e, principalmente, medo da infelicidade que poderia causar a outras pessoas.
Nesse momento, decidi que seria necessário, mais uma vez, recorrer a minha antiga psicoterapeuta. Era necessário um suporte e um apoio para entender e aceitar aquele turbilhão de emoções que eu estava vivendo.
O fim do casamento
O Rodrigo nunca me cobrou nenhuma atitude em relação à separação. Mas eu sabia que ele também estava sofrendo com a situação. Na minha cabeça, eu já havia tomado a decisão de me separar.
Primeiro, porque já não gostava mais da minha esposa e, segundo, não suportava mais viver mentindo, me escondendo, como se houvesse cometendo um crime muito grave. Além de tudo isso, nós dois não éramos mais nem sombra do que fomos. Não conseguíamos mais conversar, não existia mais prazer na companhia um do outro.
Eu estava fazendo infeliz uma pessoa que sempre foi uma boa companheira. Somado a tudo isso, imaginava como seria uma separação no nosso caso? Tínhamos uma filha especial, que precisava do pai e da mãe juntos.
Mas, ao mesmo tempo, sabia que, continuando as coisas como estavam, a tendência era o agravamento da relação..
E se na separação ela ficasse com a guarda da Laurinha? Não conseguia imaginar minha vida sem a minha filha. Afinal, desde que ela nasceu, sempre dormiu ao meu lado.
Enfim, a decisão já havia sido tomada. Era somente escolher o momento certo para anunciá-la. Eu e o Rodrigo nos víamos todos os dias. Falávamos quase toda hora ao celular. Era um sentimento que vinha crescendo a cada dia.
Minha esposa já vinha desconfiando de que algo estava acontecendo. Eu havia mudado, estava distante dela e tomara a decisão de não mais fazer sexo com ela. Ela, em uma conversa que tivemos sobre isso, me cobrou respostas às dúvidas que ela tinha.
Inicialmente, disse que não sentia mais vontade de transar com ela e que não voltaria a fazer somente para satisfazê-la, A partir de então, foram cerca de três a quatro meses em uma situação que estava deixando nossa casa em clima de guerra.
A revelação
Certo dia, à noite, ela chegou no quarto da nossa filha, já que eu dormia com a Laurinha e travamos o seguinte diálogo:
- Como é o nome DELA?
- Não é ELA, é ELE.
- O quê????
- Isso mesmo que você ouviu. Estou tendo um caso e, mais do que isso, estou apaixonado por um homem
A partir daí, seguiu-se cenas que pareciam esses folhetins que vimos todos os dias na televisão. Cenas de total loucura, com direito até uma tentativa de suicídio da parte dela. Fui direto ao inferno. Fui xingado: "viado", "bicha", "vive dando a bunda" e quantos mais disparates fosse possível.
Minha vida tornou-se um inferno, não somente a minha, mas a dela também, que não conseguia aceitar a situação. Até que um dia eu cheguei do trabalho e encontrei suas coisas arrumadas em várias malas. Foi a babá que me avisou que ela saiu de casa e que mandaria um irmão pegar as malas. Após a sua saída, começou a etapa de me execrar publicamente.
Com isso, não me restou outra alternativa a não ser assumir publicamente para todos os amigos e pessoas da minha família qual o real motivo da separação. E foi o que fiz.
Enfim, juntos
Eu e Rodrigo passamos a morar juntos.
Aparentemente, a reação das pessoas foi de aceitação. Mas confesso que foi muito difícil saber realmente o que as pessoas pensavam. As pessoas continuavam me tratando como se nada houvesse acontecido.
Desde então, o Rodrigo me acompanha em todos os compromissos sociais, festas, aniversários, confraternização do meu emprego. Inclusive, joga pelada com meus amigos de repartição, que gostam de futebol.
Minha família existe, e é linda
Hoje, minha família é composta de dois pais e uma filha. O Rodrigo assumiu o papel de segundo pai da Laurinha. Tem um carinho comovente por ela e posso afirmar, sem sobra de dúvidas, que ele foi um anjo que apareceu em nossas vidas
Quanto à campanha de difamação patrocinada pela ex-esposa, culminou com uma denúncia feita por mim, na delegacia especializada em homofobia. Após um longo processo, ela foi condenada a uma pena alternativa de um ano.
Tudo pelo que eu passei valeu a pena. Não me arrependo de nada do que fiz. Hoje, sou uma pessoa mais forte e mais feliz. Tenho o apoio dos meus amigos, da minha família, da família dele.
Continuo a ser a mesma pessoa querida e respeitada no meu trabalho. Estamos juntos e felizes.
Nunca acreditei nas promessas de amor eterno. Nesse ponto, vale o trecho do Vinícius: “que seja eterno enquanto dure”.
Para amigos meus, gays não assumidos, que me abordam para conversar e até mesmo pedir alguma opinião sobre como proceder, falo que qualquer mudança ou decisão deve vir de dentro de nós mesmos. Somente a própria pessoa saberá o momento de assumir ou não.
Mas, alerto que quando passamos a agir publicamente estamos contribuindo para acabar com o preconceito.
Quero dizer que do fundo do coração, o que vejo no nosso caso, são dois homens que se encontraram, passaram a se amar e não querem nada mais do que serem felizes".