A primeira grande porrada veio na infância.
O cara que eu idolatrava tinha sido assassinado, em frente ao edifício Dakota, em Nova York, por um...até hoje não sei como definir Mark Chapman.
Só via as pessoas, ao meu redor, repetindo: “o sonho, dessa vez, acabou”.
Na minha cabeça, não era exatamente o sonho que tinha acabado. O mundo inteiro tinha chegado ao fim. Eu tinha a certeza de que o dia seguinte não aconteceria.
Lennon era como Deus. Ele havia criado o que eu conhecia de melhor: os Beatles, o que significava, pra mim, o mundo. E como o mundo sobreviveria sem seu criador?
Naquela noite, dormi agarrada ao braço do meu pai, com medo do tal meteoro que, a mando do criador John Lennon, poria fim ao nosso mundo.
Onze anos mais tarde, a segunda porrada. Aliás, nem foi uma porrada. Foi uma facada bem no coração. Caí e pensei que não me levantaria nunca mais.
Três dias de cama. Só chorando, só chorando, só chorando.
Até que, ao final do terceiro dia, tal qual Jesus Cristo, ressuscitei. Mas só o corpo. Coração e mente estavam destroçados.
Era Freddie Mercury que havia se despedido da gente.
Ele sabia que partiria. Mas só nos avisou um dia antes. Pouco tempo demais para nos preparar para a separação. Pensando bem, tempo nenhum seria suficiente.
A Aids, naquela época, vitimava poucos, era algo distante de nós. Eu não conhecia ninguém que houvesse morrido de Aids, a não ser astros do cinema e, agora, da música. Pelo menos, era o que acreditávamos.
Além de John, Nova York me levou Tom Jobim, no mesmo 8 de dezembro. Minha filha se chama Ana Luísa em homenagem ao maestro. Daí vocês podem imaginar minha relação com ele.
As lágrimas jorravam.
- Minha filha, daqui a pouco, você não terá mais lágrimas – se preocupou meu pai.
Era incontrolável.
George Harrison se foi no início dos anos 2000. Não chorei. Não tive nenhuma reação. Fiquei em choque, inerte em frente à TV, ouvindo a notícia de que mais um beatle tinha partido.
Esta semana, foi a vez do Bowie. Novo choque.
Quando Lennon morreu, eu compreendi, ainda criança, que sonhos podem morrer antes mesmo de envelhecerem.
E esses sonhos, muitas vezes, representam o nosso mundo, a nossa vida. É preciso coragem - e um bom braço de pai para se agarrar – para se enfrentar o seu fim e seguir em frente.
Quando Freddie morreu, e eu já era uma jovem estudante universitária, entendi que pessoas próximas, que amamos mais do que goiabada com queijo e que fazem parte da nossa lista de pessoas que não podem morrer nunca, enfim, morrem.
Foi naquele momento que conheci o significado do luto, aquele sentimento que nos faz acordar, todos os dias, com uma angústia insuportável, e pensar: “tá faltando um pedaço de mim; tá faltando alguém por aqui”.
Descobri que, às vezes, dói até mesmo respirar num mundo de onde elas não fazem mais parte. Mas aprendi também que todo aquele clichê “com o tempo, a dor vira saudade” é, na verdade, a mais pura verdade.
Quando Tom morreu, e eu ainda era uma jovem estudante universitária, passei a temer pelo fim da música brasileira. Olhei pra trás e vi Elis, Vinicius, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Cartola, Noel, Chico, Edu Lobo, Gil, Caetano, Gal e uma infinidade de riquezas na nossa música. Olhei para o presente e vi apenas Chico, Edu Lobo, Gil, Caetano, Gal...e a nossa riqueza se tornando, cada vez mais, finita.
Quando George morreu, entendi que beatles continuariam morrendo, mesmo contra a minha vontade, mesmo sob o meu protesto. Beatles são morríveis. Que merda! E, ao contrário do que pensei sobre Freddie, na época da sua morte, beatles poderiam morrer, não vitimados por uma doença de astros, mas por um mal que atinge muitos, um mal que atinge o meu vizinho, a minha avó, a minha tia...Nossos ídolos, nossos beatles, são como todos nós, mortais. Só quando eu já era mãe, minha ficha caiu sobre isso.
Agora, Bowie.
Olho pra trás e me vejo, em plena adolescência, com olhos grudados na TV, descobrindo Blue Jean e me apaixonando perdidamente – paixão de uma vida, irreversível – por Absolute Beginners. Ou chorando durante sua homenagem, ao lado da Annie Lennox, a Freddie Mercury, quando cantaram, lindamente, Under Pressure para um Wembley lotado.
Bowie também já me fez dançar muito ao som de Rebel Rebel, Dancing in the street ou Let´s dance.
E quantas horas já passei, simplesmente fazendo nada, apenas absolutamente absorta em músicas como Heroes, This is not America, Starman? Mas também já torci o nariz para esquisitices, embora deliciosas, como China Girl.
Enfim, Bowie é uma parte da minha adolescência, da minha história. Com sua morte, estou digerindo o fato de que os anos estão passando e que os ídolos com que compartilhei momentos maravilhosos estão partindo. Bate, sim, um certo desespero. Quem ou o que irá preencher esse lugar? Ninguém e nada, além deles mesmos e das obras eternas que nos deixaram.
O cara que eu idolatrava tinha sido assassinado, em frente ao edifício Dakota, em Nova York, por um...até hoje não sei como definir Mark Chapman.
Só via as pessoas, ao meu redor, repetindo: “o sonho, dessa vez, acabou”.
Na minha cabeça, não era exatamente o sonho que tinha acabado. O mundo inteiro tinha chegado ao fim. Eu tinha a certeza de que o dia seguinte não aconteceria.
Lennon era como Deus. Ele havia criado o que eu conhecia de melhor: os Beatles, o que significava, pra mim, o mundo. E como o mundo sobreviveria sem seu criador?
Naquela noite, dormi agarrada ao braço do meu pai, com medo do tal meteoro que, a mando do criador John Lennon, poria fim ao nosso mundo.
Onze anos mais tarde, a segunda porrada. Aliás, nem foi uma porrada. Foi uma facada bem no coração. Caí e pensei que não me levantaria nunca mais.
Três dias de cama. Só chorando, só chorando, só chorando.
Até que, ao final do terceiro dia, tal qual Jesus Cristo, ressuscitei. Mas só o corpo. Coração e mente estavam destroçados.
Era Freddie Mercury que havia se despedido da gente.
Ele sabia que partiria. Mas só nos avisou um dia antes. Pouco tempo demais para nos preparar para a separação. Pensando bem, tempo nenhum seria suficiente.
A Aids, naquela época, vitimava poucos, era algo distante de nós. Eu não conhecia ninguém que houvesse morrido de Aids, a não ser astros do cinema e, agora, da música. Pelo menos, era o que acreditávamos.
Além de John, Nova York me levou Tom Jobim, no mesmo 8 de dezembro. Minha filha se chama Ana Luísa em homenagem ao maestro. Daí vocês podem imaginar minha relação com ele.
As lágrimas jorravam.
- Minha filha, daqui a pouco, você não terá mais lágrimas – se preocupou meu pai.
Era incontrolável.
George Harrison se foi no início dos anos 2000. Não chorei. Não tive nenhuma reação. Fiquei em choque, inerte em frente à TV, ouvindo a notícia de que mais um beatle tinha partido.
Esta semana, foi a vez do Bowie. Novo choque.
Quando Lennon morreu, eu compreendi, ainda criança, que sonhos podem morrer antes mesmo de envelhecerem.
E esses sonhos, muitas vezes, representam o nosso mundo, a nossa vida. É preciso coragem - e um bom braço de pai para se agarrar – para se enfrentar o seu fim e seguir em frente.
Quando Freddie morreu, e eu já era uma jovem estudante universitária, entendi que pessoas próximas, que amamos mais do que goiabada com queijo e que fazem parte da nossa lista de pessoas que não podem morrer nunca, enfim, morrem.
Foi naquele momento que conheci o significado do luto, aquele sentimento que nos faz acordar, todos os dias, com uma angústia insuportável, e pensar: “tá faltando um pedaço de mim; tá faltando alguém por aqui”.
Descobri que, às vezes, dói até mesmo respirar num mundo de onde elas não fazem mais parte. Mas aprendi também que todo aquele clichê “com o tempo, a dor vira saudade” é, na verdade, a mais pura verdade.
Quando Tom morreu, e eu ainda era uma jovem estudante universitária, passei a temer pelo fim da música brasileira. Olhei pra trás e vi Elis, Vinicius, Nara Leão, Ronaldo Bôscoli, Cartola, Noel, Chico, Edu Lobo, Gil, Caetano, Gal e uma infinidade de riquezas na nossa música. Olhei para o presente e vi apenas Chico, Edu Lobo, Gil, Caetano, Gal...e a nossa riqueza se tornando, cada vez mais, finita.
Quando George morreu, entendi que beatles continuariam morrendo, mesmo contra a minha vontade, mesmo sob o meu protesto. Beatles são morríveis. Que merda! E, ao contrário do que pensei sobre Freddie, na época da sua morte, beatles poderiam morrer, não vitimados por uma doença de astros, mas por um mal que atinge muitos, um mal que atinge o meu vizinho, a minha avó, a minha tia...Nossos ídolos, nossos beatles, são como todos nós, mortais. Só quando eu já era mãe, minha ficha caiu sobre isso.
Agora, Bowie.
Olho pra trás e me vejo, em plena adolescência, com olhos grudados na TV, descobrindo Blue Jean e me apaixonando perdidamente – paixão de uma vida, irreversível – por Absolute Beginners. Ou chorando durante sua homenagem, ao lado da Annie Lennox, a Freddie Mercury, quando cantaram, lindamente, Under Pressure para um Wembley lotado.
Bowie também já me fez dançar muito ao som de Rebel Rebel, Dancing in the street ou Let´s dance.
E quantas horas já passei, simplesmente fazendo nada, apenas absolutamente absorta em músicas como Heroes, This is not America, Starman? Mas também já torci o nariz para esquisitices, embora deliciosas, como China Girl.
Enfim, Bowie é uma parte da minha adolescência, da minha história. Com sua morte, estou digerindo o fato de que os anos estão passando e que os ídolos com que compartilhei momentos maravilhosos estão partindo. Bate, sim, um certo desespero. Quem ou o que irá preencher esse lugar? Ninguém e nada, além deles mesmos e das obras eternas que nos deixaram.
Romyna Lanza