sábado, 8 de novembro de 2014

As mãos de minha mãe

As mãos já estavam frágeis, pequeninas, quase que sem força.

Eu insistia em agarrar aquelas mãos, segurá-las com toda firmeza que me era permitida, como se dissesse “não vou deixá-las ir, não quero deixá-las ir”. E as beijava, implorando para que elas não partissem.

Eram as mãos da minha mãe. Mãos que, apesar das marcas do tempo e da doença, conservaram sua delicadeza até o último instante.

As mãos da minha mãe eram também as mãos de uma artista, de uma pintora.

No apartamento em que vivemos por 30 anos, tintas, telas, cavaletes, pincéis davam tons e cores ao nosso dia a dia.

Minha mãe gostava de pintar rostos. Dizia que era um desafio pintá-los. Lembro-me, claramente, do rosto da dona Maria, de Montes Claros, reproduzido na tela. Uma pintura em preto e branco, tal qual uma foto antiga.

Mas o rosto que me acompanharia ao longo da vida é o de um preto velho. Um belíssimo preto velho nascido do talento das mãos de minha mãe (*).

Ela também adorava paisagens: um barco em meio a um mar raivoso era o meu favorito. 

Eu ficava horas parada na sua frente, observando as pinceladas que imprimiam fúria à imagem.

E havia uma igrejinha...a igrejinha onde ela conheceu meu pai. As mãos da minha mãe reproduziram, durante toda a vida, essa igrejinha.

Certa vez, me perguntaram por que ela pintava aquele quadro repetidas vezes. Foi, inclusive, o último quadro que ela pintou antes de partir.

Nunca perguntei isso pra ela.

Hoje, percebo que ela pintava aquela igrejinha, sem parar, como uma forma de espalhar – e manter viva - a sua história com o meu pai. Era como se reproduzisse vários exemplares de um romance e os distribuísse para que as pessoas conhecessem aquela história de amor que durou 58 anos.

[...]

Pousei a cabeça no colo da minha mãe. E ela afagou meus cabelos com suas mãos. O cérebro, tomado pela doença, já não tinha mais controle sobre suas mãos. Mas também não conseguia controlar o amor de mãe.   


(*) O quadro do preto velho estava com minha tia do coração, a Rosarinha, em Montes Claros. Este ano, cheguei na casa da minha irmã e ela me mostrou o quadro que minha tia nos havia enviado.Não o via desde a minha infância. Ela disse que era nosso por direito. Agradecerei à tia Rosarinha eternamente por esse carinho. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Nem tão maníaca assim

Quando alguém me pergunta:

- Qual o dia mais importante da sua vida?

Eu respondo, sem pensar:

- 04 de maio de 2013.

- Nascimento da sua filha?

- Não, minha filha já tem 15 anos. 04 de maio de 2013 foi o dia em que vi um beatle ao vivo. Foi o show do Paul, no Mineirão.

- E sua filha?

- A Ana sabe disso e já superou o trauma, não se preocupem. Ela também ama o Paul e me entende perfeitamente.

Vocês têm ideia do que significou, pra mim, ver um beatle? Mais: ver um beatle, o Paul, cantando “The Long And Winding Road”?

Definitivamente, nunca fui tão feliz quanto naquele momento.

Fico imaginando como seria ter visto o John ao vivo. Paul e Ana seriam naturalmente rebaixados e Paul teria que aprender a conviver com isso, assim como a Ana aprendeu. Aliás, não seria muito difícil pro Paul lidar com o fato, ele sabe quem é o beatle dono do meu coração: John.

John, pra mim, é o maior gênio que já passou pelo nosso planeta. O cara criou os Beatles e os Beatles criaram a música. Diz a lenda que havia música antes dos Beatles, mas eu não acredito, nunca ninguém me provou isso.

E Bach?

E Porter?

E Gershwin?

E Elvis?

Cês tão brincando que acham esses caras melhores que John, né? Parem.

George e Ringo também ocupam um espaço importante na minha vida. George dizia que os dois eram os beatles “classe econômica”. Eu pergunto: como alguém que compôs “While My Guitar Gently Weeps” pode ser classe econômica? Incluo fácil essa música no meu Top 10 de músicas mais lindas do mundo. Ou melhor, no meu Top 20. Mas ela é realmente LINDA.

Ringo...ah, Ringo podia não ser um gênio da música, mas o que seria dos Beatles sem a sua alegria, sem a sua ironia? Ringo sempre foi o beatle mais legal, sua simpatia contagia. A história da banda não seria a mesma sem sua interpretação antológica de “With a Little Help From My Friends”. Ainda quero ver Ringo ao vivo para jogar na cara de todo mundo: “Vi metade dos Beatles”.

Apesar dessa paixão toda, não me considero beatlemaníaca. Os beatlemaníacos sabem, por exemplo, que “Strawberry Fields Forever"  está no “White Album”, de 1970. Ops! Mas "Strawberry Fields Forever" está no “Mistery Magic Tour”, de 1967. Pois é. Ainda faço esse tipo de confusão: não sei qual música está em qual álbum e de qual ano é este álbum. Então, não posso dizer que sou beatlemaníaca. Tenho que estudar muito ainda para chegar a isso.

Maníaca, maníaca mesmo, sou só pelo Queen. Mas essa é uma outra história que vocês já devem conhecer bem.

sábado, 30 de agosto de 2014

Freddie for a life

Eu me lembro exatamente da primeira vez em que uma música do Queen me chamou a atenção.
E isso não é pouca coisa, não.
O fato de um simples fato me marcar tanto significa que esse fato causou uma revolução na minha vida.
Eu tinha 11 anos de idade e estava na casa da minha vizinha, a Liliane. O irmão dela mais velho, o Nando, ouvia Somebody to Love, na rádio. Fiquei entusiasmada. Quis saber que banda era aquela.
Eu sempre tive uma relação muito estreita com a música. Aos cinco anos, no meu mini pianinho, que ganhei do Papai Noel, no Natal, já tentava tirar Wave e Águas de Março, só de ouvido. Ok, nunca consegui.
Aos sete, já tentava cantar igual a Elis. Ok, nunca consegui também.
Na mesma idade, sonhava em ser a menininha do poetinha na Arca de Noé ou a gata de Saltimbancos.
E o disco Revolver, dos Beatles, tocava dia e noite na radiola da minha casa, assim como Chico 1978.
Para o desespero da minha mãe, adorava cantar “ooooooo meeeeeeu amooooooor tem um jeeeeeeeeeeeeito manso que é só seu”. Ela dizia: “você não pode cantar isso, menina. é muito indecente para sua idade”. E eu continuava: “e de pousar as cóxas entre as minhas cóxas, quando ele se deita”. Coxas assim mesmo: cóxas, com esse “o” aberto, gritante. Eu não tinha ideia do que se tratava aquilo, mas continuava cantando. Minha mãe ria da minha inocência.
Mas foi o Queen que me fez perceber que papel a música teria – e ainda tem – na minha vida.
A minha paixão, paixão mesmo, amor de verdade, pela banda só nasceu em 1985, durante o primeiro Rock in Rio, dois anos após conhecer Somebody to Love.
No dia seguinte após a primeira apresentação, corri na loja e comprei Greatest Hits.
E a partir dele, vieram todos os outros discos do Queen e discos solos dos integrantes da banda.
Não parou por ai. A internet e o Google ainda não haviam sido criados e as revistas brasileiras especializadas eram poucas na época. Biografias praticamente inexistiam.
Portanto, eu quase nada sabia sobre o Freddie Mercury.
Era quase impossível descobrir quem eram suas principais influências, quem ele ouvia, o que ele lia.
Foi assim que resolvi mergulhar de cabeça na cultura britânica.
Eu queria ouvir o que o Freddie Mercury ouvia, eu queria ler o que ele lia, eu queria ver o que ele via. Para isso, tinha que conhecer tudo daquela ilha.
Comprava álbuns e mais álbuns de absolutamente todos os artistas britânicos da época.
Até mesmo de bandas que não tinham a mínima chance de influenciar o Freddie Mercury, como o Bananarama, um trio de garotas metidas a cantoras. Mas eu pensava: “tá tocando em alguma rádio inglesa, neste momento. então, ele tá ouvindo. vou ouvir também”.
Descobri de Bananarama a Pink Floyd, de Status Quo a Led Zeppelin. E vieram Duran Duran, Smiths e outras paixões que conservo ainda hoje.
Na literatura, fui apresentada a Lord Henry Wotton, um dos mais fascinantes personagens da literatura mundial. Tão fascinante que me fez ler O Retrato de Dorian Gray por sete vezes.
No cinema, Kenneth Branagh e suas adaptações shakeasperianas mereciam toda a minha atenção.
Isso sem falar em Absolute Beginners, sucesso do cinema inglês dos anos de 1980, com a desastrosa Patsy Kensit, que a imprensa da época tentou nos empurrar como a nova Madonna.
Porém, Freddie seguia como a minha grande, absoluta e insuperável paixão.
Como adolescente, eu poderia tê-lo adotado como meu namorado. Mas eu não quis.
Não porque ele fosse gay. Isso não era problema.
Se eu resolvesse, nos meus sonhos, que ele seria meu namorado e que largaria todos os homens do mundo por mim, assim o seria.
Afinal, os sonhos eram meus.
Eu queria mais: queria uma relação que demonstrasse que éramos próximos desde o momento em que nasci.
E também que tínhamos uma relação diária.
A relação tinha que ser duradoura, eterna.
Ah, ele tinha que me proteger. Assim, nos meus sonhos, Freddie Mercury era meu irmão.
O namorado era, claro, o melhor e mais lindo amigo dele: o Roger Taylor, baterista da banda.
E foi assim durante anos. Até que em 24 de novembro de 1991...
Ainda hoje, penso como seria ligar a rádio ou acessar a internet e me deparar com o mais novo lançamento do Queen.
Ou ainda como seria incrível um show da banda no Mineirão.
Meu coração, certamente, pararia.
É o que resta a fãs e a nós, irmãs de artistas, quando eles se vão: lamentar e chorar por tudo aquilo que deixou de ser criado.
Há um poeminha de um outro ídolo, meu poetinha Vinicius de Moraes, a que recorro para traduzir a falta que Freddie me faz. É o “Ausência”, que termina com os versos: “e todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada”.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sobre mães e filhos detentos

Por Romyna Lanza

Maria Ilda S. G., moradora de Ribeirão das Neves, casada, mãe de dois filhos, passa seus dias percorrendo os corredores do Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, e da Defensoria Pública do Estado de Minas.

É essa a rotina que vive há dois anos.

Luiz (*), de 23 anos, está preso por tráfico de drogas.

Ela já não possui mais uma família feliz, tranquila, estruturada. A dor de ver Luiz preso abalou também o marido Cláudio e Carlos, o filho mais velho.

- Nem de longe somos felizes como antes. Nossa vida gira em torno do Luiz.

Durante sete anos trabalhando na área criminal do Tribunal de Justiça, pude acompanhar, de perto, o sofrimento das famílias que cumprem as penas juntamente com seus filhos e filhas.

As idas ao Fórum, em busca da concessão de uma liberdade provisória, de um habeas corpus ou de uma sentença absolutória, são semanais. Às vezes, diárias.

Um dos casos mais dolorosos que acompanhei foi de uma “senhorinha”, uma “mãezinha” – foi assim que eu e meus colegas carinhosamente a apelidamos – que, durante um ano e oito meses, ia ao Fórum. De início, as idas eram diárias...Às vezes, duas ou três no mesmo dia.

Depois de muito explicarmos a situação, a impossibilidade das coisas se resolverem com a rapidez que seu coração desejava, ela passou a ir um dia sim, outro não. E nunca menos que isso.

- Eu queria saber como que está a situação do meu filho?

Explicávamos. Uma, duas, três...vezes. Mas sempre era insuficiente.

Ela insistia:

- Mas como que está mesmo o processo dele?

Compreendemos que, no fundo, a resposta que ela queria ouvir era: “seu filho será solto”.

Infelizmente, ela nunca obteve essa resposta de nós. Além do processo que corria na nossa Vara, havia vários outros, em diversas outras Secretarias.

Nem todas essas complicações eram capazes de, sequer, arranhar sua esperança.

A saga da “mãezinha” se repetia pelas outras Varas, em que seu filho tinha processos.

A falta de compreensão de como se dá o procedimento criminal na Justiça, muitas vezes, torna tudo ainda mais doloroso.

O esforço dos advogados, dos defensores públicos e dos servidores do Tribunal em explicar, passo a passo, o que acontece desde o momento da prisão é insuficiente para minimizar a aflição de pais e mães.

A urgência que exigem é baseada no amor, não na racionalidade de um processo judicial.

Maria Ilda se recorda da primeira vez em que Luiz foi preso:

- Ele foi preso por porte ilegal de arma. Ele me ligou da Delegacia contando o que tinha acontecido. Fiquei sem chão. Foram quatro dias no presídio. Quatro dias intermináveis.

Maria Ilda não se alimentava naqueles quatro dias, não dormia, apenas chorava pelo filho preso. O maior sofrimento era pensar no que ele poderia estar passando.

- Ele tem problema de saúde.

Os presídios oferecem assistência médica aos presos que necessitam. Nem isso conforta Maria Ilda.

- Ninguém cuida dele como eu. Sou mãe. Eu é que sei do que ele precisa.

A mãe de Luiz carrega consigo os últimos exames feitos pelo filho. “Ele tem problema de plaquetas baixas”, explica.

Pergunto exatamente o que significa, mas ela não sabe dizer, ao certo. Apenas sofre. Sabe da necessidade do filho passar por um diagnóstico adequado que detecte um problema que pode ser ainda maior.

Maria Ilda não tem mais uma profissão – deixou o emprego em um grande hospital da capital mineira – para se dedicar, tão somente, à busca pela liberdade do filho caçula.

- Eu passo meus dias indo ao Fórum, do Fórum para Defensoria, volto para o Fórum...

Essa é a rotina da mãe do Luiz. Essa é a rotina de milhares de mães de detentos que passam a ter como única meta na vida ter seus filhos de volta em casa.

- E no presídio, a senhora vai muito? Pergunto.

- Não. No presídio, não vou mais.

- Por quê?

- É uma dor insuportável ver tudo aquilo. São centenas de rapazes sem nada para fazer, sem nenhuma esperança de sair dali e reconstruir suas vidas. Fico só imaginando o que se passa naquelas cabeças o dia inteiro. É só ódio, só desejo de se vingar do inferno por que estão passando.

E reflete, em meio à tristeza e indignação:

- Se eles tivessem uma ocupação...se pudessem ter um trabalho pra chegar aqui fora e dizer “olha, eu sei fazer isso; pode me dar o emprego que eu consigo fazer direito; eu aprendi durante o tempo em que fiquei preso”. Mas nem isso eles têm. Como alguém consegue se recuperar dessa forma?

Maria Ilda não vê o filho há quatro meses.

- É o Carlos que vai lá vê-lo. Ele sabe o quanto é difícil pra mim tudo isso.

Em relação a Carlos, os papéis, muitas vezes, se invertem. Maria Ilda se torna filha, cuidada e amparada pelo filho mais velho que toma a frente de situações que ela não suporta mais enfrentar.

Maria Ilda, agora, é exclusivamente mãe do Luiz.


(*) Nome fictício a pedido de Maria Ilda.

sábado, 16 de agosto de 2014

Cuidado com os nomes duplos...e com as homenagens...

Cinco anos antes de engravidar, li uma entrevista com o Tom Jobim, em que ele dizia que seu sonho era ter uma filha chamada Ana Luíza. Mas ele já tinha uma Ana em casa, a Lontra Jobim, sua mulher. Por isso, sua filha nasceu Maria Luíza.

Quando li aquilo, pensei:

- Por isso, não, Maestro. Minha filha se chamará Ana Luísa  (assim, com "s", diferente da Luíza do Tom).

Ana Luísa, um nome duplo, o nome mais lindo do mundo.

Houve uma época em que era moda colocar nomes duplos nos filhos. E nem todos nascidos naquele período obscuro tiveram a sorte de ter um nome tão lindo como a minha Ana Luísa.

Meus avôs paternos, Zinha e Mingo, tiveram nove filhos: João Augusto (ok), Augusto Celso (só minha mãe chamava meu tio assim: Augusto Celso, nome de galã de novela mexicana), Terezinha Benedita, Sebastiana Helena, alguns de que não me lembro e Domingos Geraldo, meu pai. Ele tinha verdadeiro PAVOR de ser chamado assim. Sempre ironizava:

- Como alguém chamado Domingos Geraldo pode ter sucesso na vida?

Gostava de ser chamado pelos apelidos Worinho ou Ló. Todos os irmãos tinham apelidos para evitar o constrangimento na hora de se apresentarem: Zu, Bisu, Eza, Dinha, Gutinho, Bela, Nana...

No velório do meu pai, os irmãos se reuniram e nos recomendaram:

- Quando anunciarem no Programa do Guará (famoso programa de rádio de Sete Lagoas) a morte do Ló, por favor, evitem o Augusto Celso, o Terezinha Benedita...ponham só os apelidos mesmo.

Já meus avós maternos batizaram seus filhos como Luiz Alberto (ok), José Geraldo (ok também), Lêda Marli e Laiz Maria, minha mãe.

Quando se casou, minha mãe tratou de cortar o Maria do nome e passou a grafar o Laiz como Laís.

Laís se casou com Worinho e tiveram seis filhos:

Laís Cláudia: Laís por causa da minha mãe. Cláudia, não tenho ideia do porquê. Laís Cláudia se casou com Élcio Geraldo.

Minha outra irmã se chama Patsy Luciana: Patsy era o nome da personagem de um livro, que minha mãe leu durante a gravidez, uma garotinha que perdeu os pais durante a Segunda Grande Guerra. Luciana, não tenho ideia do porquê.

Alana Andréa: minha mãe, cinéfila, quis homenagear seu ídolo Alan Ladd e deu à minha irmã o mesmo nome da filha do galã hollywoodiano. Andréa, não tenho ideia do porquê.

Romyna Lara. Romyna também em homenagem um dos maiores atores de Hollywood: Tyrone Power, pai de Romina Power. O Lara, eu sei por quê. Lara vem da novela "Irmãos Coragem", em que Glória Menezes fazia o papel de uma mulher, com dupla personalidade, Lara e Diana. E também por causa do "Tema de Lara", trilha do filme Dr. Jivago.

Meus outros dois irmãos morreram logo após nascerem. Visitei o túmulo da Patrícia 20 anos após seu nascimento e morte. Lá estava na lápide: Patrícia das Graças.

- Mãe, que nome é esse? Por que você fez isso com a pobrezinha?

- Foi promessa pra Nossa Senhora das Graças.

- Mas você nem nunca foi devota de Nossa Senhora das Graças. Tadinha da Patrícia. Essa menina sofreu muito na sua curta passagem por aqui.

Meu irmão caçula, o único menino da família, se chamaria Marlon. O motivo já devem imaginar: homenagem ao Marlon Brando.

Eu me revoltei.

- Mãe, nenhuma criança na face da terra merece ter o nome de Marlon.

- Tá bom. Vou colocar o nome dele de Christian. É como você se chamaria se fosse um menino.

Comecei a pensar que tive sorte em me chamar Romyna Lara. Christian é um nome sofrível. Não sei de onde ela tirou isso.

Christian nasceu prematuramente, aos sete meses. O coraçãozinho não resistiu.

Vocês acham que parou por aí?

Não.

Nasceu o Gregory, meu primo, nome escolhido pela minha mãe, por causa do Gregory Peck. Depois, sua irmã Grace...adivinhem o motivo. Pelo menos, se safaram dos nomes duplos.

As homenagens continuaram:

A primeira neta: Stéfanni, por causa da princesa de Mônaco. Escolha de mamis.

E veio a segunda neta, a irmã da Stéfanni. Na maternidade, minha irmã me pediu:

- Escolha um nome parecido com Stéfanni para sua afilhada.

E eu:

- Dáffny, do Scooby Doo.

Minha afilhada nunca me perdoou.

Bem, os nomes esquisitos da família pararam por aí...por enquanto.

domingo, 10 de agosto de 2014

Meu pai, meu exemplo de vida

Aos sete anos de idade, meu pai já se dividia entre os estudos e o trabalho. O dinheiro que meu avô ganhava como carpinteiro era insuficiente para criar os nove filhos. Meu pai se lembrava da infância miserável com dor, mas também com humor.

Dor porque a pobreza deixou marcas que o acompanharam por toda a vida. As principais feridas, que jamais cicatrizaram, foram a infância perdida e os estudos que não pode complementar, por ser obrigado a se dedicar exclusivamente ao trabalho.

Humor porque ele exagerava em algumas histórias:

- Eu tinha somente um par de sapatos quando criança. Durante um ano inteiro, eu calçava somente o pé direito e, no outro pé, colocava curativos para justificar o chinelo. No outro ano, eu usava o pé esquerdo. Assim, os sapatos duravam mais para eu ir à escola.

Outras, ele contava meio que rindo meio que p... da vida:

- Eu tinha um galo e era alucinado por esse galo. Era meu melhor amigo. Um dia cheguei em casa e não encontrei o galo no quintal. Mãe tinha cozinhado o meu melhor amigo pra matar a fome dos meus irmãos.

Meu pai adorava animais. Era um encantador de animais. Depois do galo, vieram os cachorros. Foram inúmeros ao longo da vida. A Lassie, uma pastora alemã, que minha mãe tinha na adolescência, saía todos os dias de manhã de casa e esperava meu pai na porta da casa dele. Ela o acompanhava até o banco, onde ele trabalhava, na beira da Lagoa Paulino, centro de Sete Lagoas. Mais tarde, precisamente no horário em que ele largava o trabalho, lá estava ela o esperando na porta do banco. Foi assim por anos.

Dizem que os animais reconhecem as pessoas boas. Meu pai foi, sem dúvida, a melhor pessoa que conheci.

Quando se casou com minha mãe, aos 25 anos de idade, ele tinha uma condição de vida maravilhosa, que conquistou como gerente de um grande banco da época. Dava à minha mãe e às minhas irmãs – sou a caçula e só cheguei anos mais tarde -, tudo o que elas podiam sonhar. Na casa em Sete Lagoas, havia um quarto só de brinquedos, que era o sonho de qualquer criança. Roupas eram várias. As festas eram inesquecíveis , assim como as viagens.

Porém, em 1969, meus pais sofreram um grande golpe. Foram avalistas de uma pessoa, que fugiu do compromisso, e eles perderam absolutamente tudo que tinham: casa, carros e até o emprego, já que meu pai não podia mais continuar como gerente de um banco que lhes tirou tudo.

Assim, vieram pra BH, recomeçar a vida.

Minha mãe, que nunca havia precisado trabalhar, arregaçou as mangas, tirou sua carteira de artista plástica profissional e passou a vender quadros para as famílias ricas de BH. O mesmo com as roupas. Ela tinha um talento raro para a costura.

A vida já não era a mesma. E foi nessa fase tão difícil para eles que eu cheguei. Minha mãe contava:

- Quando soube que estava grávida, entrei em pânico. Não tínhamos condição de criar mais uma filha. Mas você chegou para nos devolver a alegria.

Aos quatro anos de idade, eu já estava totalmente alfabetizada. Pulei etapas do ensino infantil. E isso, para uma família pobre, tornou-se um problema. Mal havia acabado de completar seis anos e já estava pronta para entrar no antigo primeiro grau. As escolas públicas não me aceitavam, por conta da idade.

Meu pai me matriculou no Santo Antônio. Já naquela época, era a melhor escola do estado e uma das melhores do país. Porém, o motivo da escolha foi outro: a mensalidade era a mais baixa da cidade. Ele disse:

 - Vou fazer um sacrifício pra não te deixar sem estudar.  Mas, no ano que vem, você vai pra escola pública.

Terminado o ano, meu pai foi pedir minha transferência. A diretora, dona Leda, o chamou para conversar:

- Ela foi aprovada, no exame de seleção, em segundo lugar geral. Ganhou todos os prêmios de redação, exceto um, porque a professora pediu a ela para não participar do concurso para dar chance aos outros alunos. As notas são altíssimas. O senhor quer mesmo por em risco o futuro da sua filha?

Ele chegou em casa, sem conseguir conter o orgulho e também o desespero por assumir um investimento tão pesado para ele:

- Decidi que você vai ficar no Santo Antônio.

E foi lá que fiquei a minha vida inteira.

Era em momentos assim que eu percebia exatamente que tipo de ser humano era o meu pai.

Quando a moda dos patins explodiu no Brasil, meus colegas desfilavam com os patins mais modernos pela escola. Eu não tinha patins modernos. O que eu tinha eram patins antigos, de aço bastante arranhado e rodas muito estreitas que foram da minha mãe. Ou seja, patins de 30 anos atrás. Eu os levei para a escola e claro que fui motivo de riso. Minha intenção era não contar nada em casa, pois, apesar da minha pouquíssima idade, eu entendia bem a luta dos meus pais. Mas minha mãe conhecia todo o mundo ali e a dona Luzia, servente do colégio, acabou contando pra ela. Fomos pra casa e, sem que eu soubesse, ela ligou para o meu pai para falar sobre o acontecido. À noite, ele chegou em casa com um par dos melhores patins que havia na época. Durante os últimos três meses, ele havia juntado dinheiro para comprar um rádio de pilha, o único luxo a que ele se permitia, já que seu rádio estava todo remendado. E foi com esse dinheiro que ele comprou os patins.

No outro dia, levei os patins novos para a escola. Mas levei os antigos também e fiz todos os meus amigos andarem com eles para verem como eram “super legais”. O que foi motivo para gozação, no dia anterior, se tornou um sucesso.

Novamente, meu pai começou a juntar o dinheiro para o novo rádio e, mais uma vez, não conseguiu. Dessa vez, por causa do namorado da minha irmã – hoje, seu marido há exatos 28 anos.

O Fred fazia engenharia civil e precisava de uma calculadora profissional para continuar no curso. Sem a calculadora, ele não podia seguir em frente. Os pais dele passavam mais dificuldades que os meus e já haviam decidido que ele deixaria a faculdade.

Numa tarde, meu pai ligou para ele e marcaram de se encontrar em frente à república em que o Fred morava, no centro de BH.

Meu pai o entregou a calculadora, ainda melhor do que aquela que exigiram.

O Fred abriu a caixa e sentou no meio-fio para chorar.

E foram várias as histórias assim. Algumas, ficamos sabendo somente depois que meu pai morreu, pois as pessoas paravam minha mãe nas ruas de Sete Lagoas, onde voltaram a viver, para lhe agradecer pelo que ele tinha feito por elas.

Uma semana antes de morrer, no hospital, meu pai me disse:

- Não vou deixar nada para vocês.

Ele se referia aos bens materiais.

Até hoje, ainda me pergunto se ele não entendeu que nenhum bem material, por mais valioso que fosse, jamais seria mais importante que o exemplo, os valores e o amor que ele nos dedicou.



quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Que parto!

Domingo, 6h da manhã, primeira contração.

- Acho que a Ana Luísa nasce hoje.

Cerca de uma hora depois, nova contração.

-A Ana Luísa nasce hoje.

Liguei para a casa da minha médica. A mãe dela, uma das mães mais mães que conheci na vida, atendeu:

- Oi, dona Ana! Sou eu, a Romyna. Desculpe ligar tão cedo, mas preciso falar com a Silvana com urgência.

- Ela está dormindo. Chegou de uma festa agora há pouco, não vou chamá-la.

- Dona Ana, estou tendo contrações. Minha filha vai nascer. Chama a Silvana, pelo amor de Deus.

- Tem certeza? Não vou acordar minha filha à toa.

- Tenho certeza. Tô indo pro hospital.

- E se você estiver enganada? 

- Dona Ana, por favor, diga à Silvana para me encontrar no hospital.

- Faça o seguinte: vá para o hospital, confirme e ligue de lá.

- Dona Ana, eu vou para o hospital e, se a Silvana não estiver lá, vou direto para sua casa ter a Ana Luísa aí. Que tal?

- Ok, você me convenceu. Vou falar com a Silvana para te encontrar lá.

Segui para o hospital com o Tito, pai da Ana Luísa. Meus pais estavam na porta nos esperando. A Silvana já tinha ligado para sua equipe, que estava à minha espera. Fiz todos os procedimentos e fui para o quarto esperar pela hora do parto. As contrações eram leves e bem espaçadas. Pensei:

- Contração é isso? Não entendo por que algumas mulheres fazem tanto drama.

Alguns minutos depois, soube o porquê. Veio a primeira grande contração. Eu não entendia como algo podia doer tanto. Entrei em pânico. Minha mãe, que estava ao meu lado e havia me ensinado uma tal “respiração cachorrinho”, que nunca a deixou sentir dor durante os partos, tentou me ajudar:

- Faça a respiração cachorrinho. Você vai ver como melhora de imediato.

Comecei pelo cachorrinho filhote de chihuahua...e nada.

Cachorrinho chihuahua adulto....e nada.  Cachorrinho yorkshire, cachorrinho maltês, cachorrinho poodle, cachorrinho basset...

Apelei para raças maiores. Latia como um pastor alemão, rosnava como um rottweiler, babava igual a um pitbull e nada disso amedrontava a dor.

Passou. Ufa!

Veio a próxima.

- Filha, lembre-se do cachorrinho.

E eu, já aos berros:

- Mãããããeeeeeee, cachorrinho, de novo, NÃÃÃÃÃO. Estou começando a odiar TODOS OS CACHORRINHOS DO MUNDO. ODEEEEEEEEEEEEIO CACHORRINHOS, TIREM OS CACHORRINHOS DE PERTO DE MIM.

- Tá bom, Romyna. Esqueça os cachorrinhos. Respire devagar e com calma.

Passou. A médica chegou. E eu, feliz:

- Bora pra sala de parto?

- Ainda não. Tenho que te examinar.

Após o exame:

- A Ana Luisa vai nascer por volta das 6h da tarde.

- Não, não vai.

- Por que não?

- Porque ainda são 9h da manhã e eu não vou suportar mais nove horas de dor.

- Claro que vai. Você aguenta.

Nisso, outra contração. Berrei igual a uma louca.

Passou.

Falei com a médica:

- Olha aqui ó: estou descendo da cama, estou indo em direção à porta. EU VOU FUGIR, OK?

Quando já estava na porta, ela disse:

- Fugir pra onde? A dor vai te acompanhar aonde você for.

Pensei bem, dei meia-volta e me deitei novamente.

Mais uma contração. Me lembrei do super sábio conselho da vó Dirce:

- Quando você estiver sentindo dor, diga que não vai suportar, que vai morrer e que precisa da anestesia de imediato. Aí, é só esperar pelo anestesista.

Comecei a gritar:

- ESTOU MORREEEEEEEEEEEENDO, QUERO UM ANESTESISTA, ESTOU MORREEEEEEEEEEEENDO.

E a médica:

- Você não está morrendo. Só vai ter uma filha. Anestesia, só alguns poucos minutos antes do parto.

- Mas minha a vó Dirce me garantiu que vocês chamariam o anestesista se eu ameaçasse morrer de dor.

- Só se for no hospital onde ela teve os filhos dela.

- MÃÃÃÃÃÃE, liga pra vó Dirce e pergunta em que hospital você nasceu. Quero ir pra lá.

- Minha filha, nasci em casa, com parteira. Não tinha anestesia.

Novo intervalo na dor.

Minha irmã Patsy, que tinha acabado de chegar, falou:

- Pense que a Ana Luísa estará no seu colo daqui a algumas horas. Isso vai te fortalecer.

Nova dor.

- Ana Luísa estará comigo daqui a algumas horas... Ana Luísa estará comigo daqui a algumas horas... Ana Luísa estará comigo daqui a algumas horas...Ana Luísa estará comigo daqui... SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! Eu QUERO um anestesista.

E assim foi ao longo do dia.

Faltando 15 minutos para as 6h, fui para a sala de parto. Logo após, entrou na sala um médico que, até então, eu não conhecia. Ele se apresentou:

- Como vai? Sou o dr. Frederico, anestesista.

- Queeeeeeeeeeeem?

- Dr. Frederico, anestesista.

- Jura? O senhor veio me salvar?

- Acho que sim.

Ele me explicou todo o procedimento e, finalmente, aplicou a anestesia. Fui ao paraíso. Peguei nas mãos do dr. Frederico, olhei no fundo dos seus olhos e disse:

- O senhor é a pessoa mais bondosa que já conheci em toda a minha vida. Lutarei pela sua canonização depois que o senhor morrer.

- Ok, vou aguardar ansiosamente.

Ana Luísa nasceu às 18h15. Linda, linda com cara de pãozinho francês.

Ela não pode passar a noite comigo. Teve que ficar na estufa. Meu quarto era ao lado do berçário. Sempre que ouvia um bebê chorando, falava com o Tito:

- Vai lá. É a nossa filha.

- Como você sabe?

- Tenho certeza. Vai lá.

Ele voltou me tranquilizando:

- Não era ela. A Ana Luísa está dormindo.

Outro choro:

- Tito...

- A Ana Luísa está bem olhada, não se preocupe.

- E se estiverem sequestrando nossa filha? Vai lá.

Ele foi, voltou e me acalmou:

- A Ana Luísa não foi sequestrada. Continua dormindo.

Novo choro.

- Tá bom, já sei...vou lá, disse o Tito.

[...]

- A Ana Luísa está ótima. Vê se tenta dormir, agora. Você deve estar exausta.

Segui o conselho do Tito e tentei pegar no sono. Ficava ouvindo os ruídos do corredor, vozes, choros distantes dos bebês. Em determinado momento, ouvi os berros da grávida do quarto ao lado:

- EU VOU FUGIR, NÃO AGUEEEEEEEEEEEEENTO MAIS ESSA DOR.

Pensei:

- Colega, não adianta fugir. A dor irá te acompanhar aonde você for.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pai herói

- Era uma vez Pepe Legal e Babalu…

- Agora, conta uma do Manda Chuva e do Batatinha.

- Manda Chuva e Batatinha? Ok. Vamos lá…

- Você sabe contar histórias do Zé Colmeia e Catatau?

- Sei. Quer ouvir?

- Quero.

Eram assim minhas noites com meu pai. Ele inventava e reinventava histórias até eu pegar no sono e adormecer. O trabalho o obrigava a ficar fora de casa por tempo demais. E esses eram os momentos que ele reservava para mim. Eu os aguardava ansiosamente, a cada hora do dia.

Nem sempre era fácil me fazer dormir. Por muitas vezes, meu pai era vencido pelo cansaço e pegava no sono bem antes de mim. E era nessas horas, horas de silêncio e escuridão, que o medo me tomava pelas mãos e me levava para um mundo que eu temia conhecer: o mundo sem meu pai. Mais do que ter medo de monstros e fantasmas, eu tinha medo de um mundo sem meu pai. 

Foi em 23 de março de 2006, que conheci o mundo sem meu pai. Um mundo vazio, triste, sem fantasias, sem heróis, sem o meu herói.


Férias em Minas



Por Vovó Della Hassan, minha avó muçulmana

Estava eu ainda na minha caminha, abrindo meus belos olhinhos, numa bela sexta-feira de manhã ensolarada no Deserto, quando ouço o carteiro de calça azul e camisa amarela gritar na minha porta: 

“Ô Vovooooooooooó, a Romyna, sua neta de Minas, lá no Brasil, mandou um trem pra senhora”. 

Mais do que depressa, acabei de abrir meus belos olhinhos e pulei da minha caminha. 

Saí correndo para ver que trem era esse que minha querida e amada neta mineira tinha me enviado. Lá estava o carteiro de calça azul e camisa amarela me aguardando para entregar a encomenda. Meu coração saltitava feito uma rã dentro do peito, tamanha a expectativa. 

Pensei: “Deve ser um pedaço de goiabada cascão com queijo minas que ela mandou por Sedex 10”. 

Quando me aproximei do carteiro com calça azul e camisa amarela, fiquei surpresa. Minha boca secou, meu coração pulou mais que rã dentro do peito, minha pressão subiu, minhas pernas bambearam, minha cabeça girou (não, não, não, não foi que nem a Linda Blair em “O Exorcista”, não, gente...o que quis dizer é que fiquei tonta), enfim, fiquei estupefata com o tamanho da “beocidade” da minha neta. Gente, ocês acreditam que ela teve o trabalho de me mandar, pelos Correios, uma carta? Uma carta, gente. Ainda não contaram pra ela que existe e-mail, Facebook, Insta, Tuíto e uatizápi. Pobrezinha. Bem, abri a carta e lá estava escrito:

“Veia, pronquecê vai nas suas férias? Vem pra cá, sô”.

Mais do que imediatamente, peguei o dicionário Mineirês-Brasileirês-Desertês e traduzi:

“Velha, para onde você vai nas suas férias? Venha para cá, sô” (sô é o fim de qualquer frase em Minas Gerais: “Cuidado, sô”, “Oi, sô”, “Tudo bem, sô” “etc sô”).

Atenção para dica da vovó: se você tiver um dicionário de Mineirês, melhor tê-lo às mãos para continuar a ler este texto.

 Para não deixar a pobre da minha neta muito triste, ajeitei minhas burquinhas nas minhas sacolinhas de plástico do Carrefour, peguei o primeiro avião em direção ao aeroporto de Confins, em Minas Gerais. Chegando a Confins, peguei um táxi rumo a BH. O taxista perguntou:

- Veia, proinóstáínu, sô?

Falei:

- Só um instantinho, que vou pegar o dicionário, pois não falo a sua língua.

Depois de 30 segundos, descobri o que ele disse: “Para aonde nós estamos indo, sô”?

Respondi ao taxista:

- Pode me levar para o bairro Cruzeiro, em BH, sô.

- Ok, sô.

O “ok, sô”, eu entendi. Hihihi!

Chegamos à casa da minha neta. Ela me esperava ansiosa no portão.

- Vó, ói qui bão sô que cê tá qui. Óiprocêvê, vó, né di hoji qui to pelejânu pra falá pra senhora vim passá uns dias em Minas. Mas os Correios tavam em greve, vó. Num pude mandá carta antes. Deusde setempassado que tô tentano falá com a senhora.

Nessa hora, pensei: “e o uatizápi, beócia, não chegou a essa roça, ainda?”

- Sapassado, mamãe Dellinha chegou nimim e falô: “fia, a greve dos Correios cabô. Pómandá carta pra mamãe.”

Não sabia o que mais me horrorizava: aquela língua de ET ou a descoberta de que minha herdeira mineira e minha herdeira paulistana desconheciam e-mail.

Entrei na casa da minha neta e ela foi me mostrando cada aposento. Tudo muuuuuito arrumadinho. Minha neta me mostrou cada cantinho.

- Veia, prestenção: a senhora pópô suas burcas naquela cazôpô quifica trádapórta, seus chinelim pópô badacâma, sua iscodidêntch encimadapía _ cuidaaaaado pra ela num caí dêndapia, hein?_ e os vidiperfume encimadomóvi.

- Aaaaaaaahhnnnnn?

Antes que eu pudesse pegar meu dicionário pra traduzir tudo aquilo, minha neta me puxou pelo braço e me levou para tomar um café tipicamente mineiro.

- Vão comé um cadín de trem, agora, né, sô? A senhora tá com fome, veia?

- Eu tô. E você, não vai comer nada?

- Não, brigadão. Tô com dôdestombago deusde ânsdionti. Mas óiaquí, tem um tanditrem pra senhora comê à vontadi. Tem pão-di-quêju, tem lidileite, tem goiabácomquêju, tem até pincomé no café. A senhora qué um cadim pra experimentá?

- O quê?

- Cêquié?

- O quê?

- Tô perguntano se a senhora quié um cadim de pincomé pra experimentá?

Só entendi o “experimentá”.

- Vou aceitar, sim. Grata.

Minha neta me trouxe duas garrafas com um líquido esbranquiçado e outro amarelado e me perguntou:

- A senhora prefere tomar Atitude ou Providência?

- Querida, estou de férias. Não é hora pra isso. O que quero tomar mesmo é aquela outra coisa que me ofereceu há instantes. Traz lá pra vovó, vai.

- Toma Providência, então, vó.

E foi despejando o líquido amarelado numa miniatura de copo que estava à minha frente.

Pensei: “Que água esquisita é essa que ela pôs no copinho?” E virei logo o líquido goela abaixo para desvendar o mistério.

Por Allah! Que queimação! O inferno inteirinho estava dentro daquele copo anão. Nunca vi nada tão quente na minha vida. Desta vez, minha cabeça não só tonteou, mas tenho certeza de que girou que nem a da Linda Blair, em “O Exorcista”. Fiquei birutinha. Mas o trem é bão. Mandei mais quatro depois daquele. Isso, só no café da tarde, né sô?

Depois daquela experiência única que se repetiria várias vezes durante minhas férias em Minas e ao longo da minha vida (levei caixas e mais caixas de Providências e Atitudes para o Deserto), fomos passear pela capital mineira.

Quando estávamos nos preparando pra sair, minha neta implicou com minha burca:

- Vó, óisó, tiissdaí. Tá quente aqui.

- Tiro nada, menina. Essa burca foi criada pelo Romero Britto.  

- Ô dó. Cadiquê Romero Britto ia criá uma burca pra senhora? Mas boralá pro pondiôns.

- Para aonde nós estamos indo?

- Prasavass. É proncovô levá a senhora.

- Ahn?

- Bora, veia.

Segui minha neta, mesmo sem saber para aonde aquela desvairada me levaria.

Chegamos a um belo bairro de Belo Horizonte, a tal Savass, que, na verdade, chama-se Savassi, o coração da cidade. Esse foi só um dos muitos passeios que fiz durante minhas férias em Minas.

Também visitamos as cidades históricas e as montanhas mineiras. Cada codilôco.

[...]


- Voooooooooooó-óóóóó, tá quainahora. A senhora vai perdê seuvinhão de vorta pro Deserto.

Gritou minha neta, me apressando para irmos pro aeroporto.

- Eu tenho um negocin pra dá de lembrancinha pra senhora. Ispia só qui belezura, vó!

- Oh, que lindeza! É um bonequinho!

- Não, vó! É um Santantonho.

- É um o quê?

- Um Santantonho, um santo casamentêro.

- E isso serve pra quê, menina? Eu sou muçulmana. Não acredito em santos.

- Óprôcevê, vó. Isso é um santo católico, que serve pra mode desencalhar as moçoilas encalhadas, vó.

- Mas eu não sou encalhada, apesar de ser moça.

- Uai, vó. Cê é moça ainda? Cumopodi?

- Pode.

- Num podi.

- Pode.

- Vooooooó...

- Neta, melhor encerrar a discussão, vou perder meu voo. Dá cá um abraço na vovó. Promete que irá passar suas férias no Deserto com a vovó?

- Confórfô, ôvô.

- O quê?

- Confórfô, ôvô.

- Aaaaaaaahn?

- Confórfô, ôvô.

- Ah, deixa pra lá. Estou te esperando, viu?

Me despedi da minha neta, com os olhos cheios d'água, e entrei no táxi, com minhas sacolinhas do Carrefour, onde sempre levo minhas burquinhas.. Eis que o taxista me perguntou:

- Veia, proinóstáínu, sô?

- Ah, essa aí, eu conheço. Pra Confins, rapaz...pra Confins...