Por Vovó Della Hassan, minha avó muçulmana
Estava eu ainda na minha
caminha, abrindo meus belos olhinhos, numa bela sexta-feira de manhã ensolarada
no Deserto, quando ouço o carteiro de calça azul e camisa amarela gritar na
minha porta:
“Ô Vovooooooooooó, a Romyna, sua neta de Minas, lá no Brasil,
mandou um trem pra senhora”.
Mais do que depressa, acabei de abrir meus belos
olhinhos e pulei da minha caminha.
Saí correndo para ver que trem era esse que minha querida e
amada neta mineira tinha me enviado. Lá estava o carteiro de calça azul e
camisa amarela me aguardando para entregar a encomenda. Meu coração saltitava feito uma rã dentro do peito, tamanha a
expectativa.
Pensei: “Deve ser um pedaço de goiabada cascão com queijo minas
que ela mandou por Sedex 10”.
Quando me aproximei do carteiro com calça
azul e camisa amarela, fiquei surpresa. Minha boca secou, meu coração pulou
mais que rã dentro do peito, minha pressão subiu, minhas pernas bambearam,
minha cabeça girou (não, não, não, não foi que nem a Linda Blair em “O
Exorcista”, não, gente...o que quis dizer é que fiquei tonta), enfim, fiquei
estupefata com o tamanho da “beocidade” da minha neta. Gente, ocês acreditam
que ela teve o trabalho de me mandar, pelos Correios, uma carta? Uma carta,
gente. Ainda não contaram pra ela que existe e-mail, Facebook, Insta, Tuíto e uatizápi.
Pobrezinha. Bem, abri a carta e lá estava escrito:
“Veia, pronquecê vai nas
suas férias? Vem pra cá, sô”.
Mais do que imediatamente,
peguei o dicionário Mineirês-Brasileirês-Desertês e traduzi:
“Velha, para onde você
vai nas suas férias? Venha para cá, sô” (sô é o fim de qualquer frase em
Minas Gerais: “Cuidado, sô”, “Oi, sô”, “Tudo bem, sô” “etc sô”).
Atenção para dica da
vovó: se você tiver um dicionário de Mineirês, melhor tê-lo às mãos para
continuar a ler este texto.
Para não deixar a
pobre da minha neta muito triste, ajeitei minhas burquinhas nas minhas
sacolinhas de plástico do Carrefour, peguei o primeiro avião em direção ao aeroporto de
Confins, em Minas Gerais. Chegando a Confins, peguei um táxi rumo a BH. O
taxista perguntou:
- Veia, proinóstáínu, sô?
Falei:
- Só um instantinho, que
vou pegar o dicionário, pois não falo a sua língua.
Depois de 30 segundos,
descobri o que ele disse: “Para aonde nós estamos indo, sô”?
Respondi ao taxista:
- Pode me levar para o
bairro Cruzeiro, em BH, sô.
- Ok, sô.
O “ok, sô”, eu entendi.
Hihihi!
Chegamos à casa da minha
neta. Ela me esperava ansiosa no portão.
- Vó, ói qui bão sô que
cê tá qui. Óiprocêvê, vó, né di hoji qui to pelejânu pra falá pra senhora vim
passá uns dias em Minas. Mas os Correios tavam em greve, vó. Num pude
mandá carta antes. Deusde setempassado que tô tentano falá com a senhora.
Nessa hora, pensei: “e o uatizápi, beócia, não chegou a essa roça, ainda?”
- Sapassado, mamãe
Dellinha chegou nimim e falô: “fia, a greve dos Correios cabô. Pómandá carta
pra mamãe.”
Não sabia o que mais me
horrorizava: aquela língua de ET ou a descoberta de que minha herdeira mineira
e minha herdeira paulistana desconheciam e-mail.
Entrei na casa da minha
neta e ela foi me mostrando cada aposento. Tudo muuuuuito arrumadinho. Minha
neta me mostrou cada cantinho.
- Veia, prestenção: a
senhora pópô suas burcas naquela cazôpô quifica trádapórta, seus chinelim pópô
badacâma, sua iscodidêntch encimadapía _ cuidaaaaado pra ela num caí dêndapia,
hein?_ e os vidiperfume encimadomóvi.
- Aaaaaaaahhnnnnn?
Antes que eu pudesse
pegar meu dicionário pra traduzir tudo aquilo, minha neta me puxou pelo braço e
me levou para tomar um café tipicamente mineiro.
- Vão comé um cadín de
trem, agora, né, sô? A senhora tá com fome, veia?
- Eu tô. E você, não vai
comer nada?
- Não, brigadão. Tô com
dôdestombago deusde ânsdionti. Mas óiaquí, tem um tanditrem pra senhora comê à
vontadi. Tem pão-di-quêju, tem lidileite, tem goiabácomquêju, tem até pincomé
no café. A senhora qué um cadim pra experimentá?
- O quê?
- Cêquié?
- O quê?
- Tô perguntano se a
senhora quié um cadim de pincomé pra experimentá?
Só entendi o
“experimentá”.
- Vou aceitar, sim.
Grata.
Minha neta me trouxe duas
garrafas com um líquido esbranquiçado e outro amarelado e me perguntou:
- A senhora prefere tomar
Atitude ou Providência?
- Querida, estou de
férias. Não é hora pra isso. O que quero tomar mesmo é aquela outra coisa que
me ofereceu há instantes. Traz lá pra vovó, vai.
- Toma Providência,
então, vó.
E foi despejando o
líquido amarelado numa miniatura de copo que estava à minha frente.
Pensei: “Que água
esquisita é essa que ela pôs no copinho?” E virei logo o líquido goela abaixo
para desvendar o mistério.
Por Allah! Que queimação!
O inferno inteirinho estava dentro daquele copo anão. Nunca vi nada tão quente
na minha vida. Desta vez, minha cabeça não só tonteou, mas tenho certeza de que
girou que nem a da Linda Blair, em “O Exorcista”. Fiquei birutinha. Mas o trem
é bão. Mandei mais quatro depois daquele. Isso, só no café da tarde, né sô?
Depois daquela
experiência única que se repetiria várias vezes durante minhas férias em Minas
e ao longo da minha vida (levei caixas e mais caixas de Providências e Atitudes
para o Deserto), fomos passear pela capital mineira.
Quando estávamos nos
preparando pra sair, minha neta implicou com minha burca:
- Vó, óisó, tiissdaí. Tá
quente aqui.
- Tiro nada, menina. Essa
burca foi criada pelo Romero Britto.
- Ô dó. Cadiquê Romero Britto ia criá uma burca pra senhora? Mas boralá pro pondiôns.
- Para aonde nós estamos
indo?
- Prasavass. É proncovô
levá a senhora.
- Ahn?
- Bora, veia.
Segui minha neta, mesmo
sem saber para aonde aquela desvairada me levaria.
Chegamos a um belo bairro
de Belo Horizonte, a tal Savass, que, na verdade, chama-se Savassi, o coração
da cidade. Esse foi só um dos muitos passeios que fiz durante minhas férias em
Minas.
Também visitamos as
cidades históricas e as montanhas mineiras. Cada codilôco.
[...]
- Voooooooooooó-óóóóó, tá
quainahora. A senhora vai perdê seuvinhão de vorta pro Deserto.
Gritou minha neta, me
apressando para irmos pro aeroporto.
- Eu tenho um negocin pra
dá de lembrancinha pra senhora. Ispia só qui belezura, vó!
- Oh, que lindeza! É um
bonequinho!
- Não, vó! É um
Santantonho.
- É um o quê?
- Um Santantonho, um
santo casamentêro.
- E isso serve pra quê,
menina? Eu sou muçulmana. Não acredito em santos.
- Óprôcevê, vó. Isso é um
santo católico, que serve pra mode desencalhar as moçoilas encalhadas, vó.
- Mas eu não sou
encalhada, apesar de ser moça.
- Uai, vó. Cê é moça
ainda? Cumopodi?
- Pode.
- Num podi.
- Pode.
- Vooooooó...
- Neta, melhor encerrar a
discussão, vou perder meu voo. Dá cá um abraço na vovó. Promete que irá passar
suas férias no Deserto com a vovó?
- Confórfô, ôvô.
- O quê?
- Confórfô, ôvô.
- Aaaaaaaahn?
- Confórfô, ôvô.
- Ah, deixa pra lá. Estou te esperando, viu?
Me despedi da minha neta,
com os olhos cheios d'água, e entrei no táxi, com minhas sacolinhas do
Carrefour, onde sempre levo minhas burquinhas.. Eis que o taxista me perguntou:
- Veia, proinóstáínu, sô?
- Ah, essa aí, eu conheço. Pra Confins, rapaz...pra Confins...