Aos sete anos de idade, meu pai já se dividia entre os
estudos e o trabalho. O dinheiro que meu avô ganhava como carpinteiro era
insuficiente para criar os nove filhos. Meu pai se lembrava da infância
miserável com dor, mas também com humor.
Dor porque a pobreza deixou marcas que o acompanharam por toda a vida. As principais feridas, que jamais cicatrizaram, foram a infância perdida e os estudos que não pode complementar, por ser obrigado a se dedicar exclusivamente ao trabalho.
Humor porque ele exagerava em algumas histórias:
- Eu tinha somente um par de sapatos quando criança. Durante um ano inteiro, eu
calçava somente o pé direito e, no outro pé, colocava curativos para justificar
o chinelo. No outro ano, eu usava o pé esquerdo. Assim, os sapatos duravam mais
para eu ir à escola.
Outras, ele contava meio que rindo meio que p... da vida:
- Eu tinha um galo e era alucinado por esse galo. Era meu
melhor amigo. Um dia cheguei em casa e não encontrei o galo no quintal. Mãe
tinha cozinhado o meu melhor amigo pra matar a fome dos meus irmãos.
Meu pai adorava animais. Era um encantador de animais.
Depois do galo, vieram os cachorros. Foram inúmeros ao longo da vida. A Lassie,
uma pastora alemã, que minha mãe tinha na adolescência, saía todos os dias de
manhã de casa e esperava meu pai na porta da casa dele. Ela o acompanhava até o
banco, onde ele trabalhava, na beira da Lagoa Paulino, centro de Sete Lagoas.
Mais tarde, precisamente no horário em que ele largava o trabalho, lá estava
ela o esperando na porta do banco. Foi assim por anos.
Dizem que os animais reconhecem as pessoas boas. Meu pai
foi, sem dúvida, a melhor pessoa que conheci.
Quando se casou com minha mãe, aos 25 anos de idade, ele
tinha uma condição de vida maravilhosa, que conquistou como gerente de um
grande banco da época. Dava à minha mãe e às minhas irmãs – sou a caçula e só
cheguei anos mais tarde -, tudo o que elas podiam sonhar. Na casa em Sete
Lagoas, havia um quarto só de brinquedos, que era o sonho de qualquer criança.
Roupas eram várias. As festas eram inesquecíveis , assim como as viagens.
Porém, em 1969, meus pais sofreram um grande golpe. Foram
avalistas de uma pessoa, que fugiu do compromisso, e eles perderam
absolutamente tudo que tinham: casa, carros e até o emprego, já que meu pai não
podia mais continuar como gerente de um banco que lhes tirou tudo.
Assim, vieram pra BH, recomeçar a vida.
Minha mãe, que nunca havia precisado trabalhar,
arregaçou as mangas, tirou sua carteira de artista plástica profissional e
passou a vender quadros para as famílias ricas de BH. O mesmo com as roupas.
Ela tinha um talento raro para a costura.
A vida já não era a mesma. E foi nessa fase tão difícil para
eles que eu cheguei. Minha mãe contava:
- Quando soube que estava grávida, entrei em pânico. Não
tínhamos condição de criar mais uma filha. Mas você chegou para nos devolver a
alegria.
Aos quatro anos de idade, eu já estava totalmente alfabetizada.
Pulei etapas do ensino infantil. E isso, para uma família pobre, tornou-se um
problema. Mal havia acabado de completar seis anos e já estava pronta para
entrar no antigo primeiro grau. As escolas públicas não me aceitavam, por conta
da idade.
Meu pai me matriculou no Santo Antônio. Já naquela época,
era a melhor escola do estado e uma das melhores do país. Porém, o motivo da
escolha foi outro: a mensalidade era a mais baixa da cidade. Ele disse:
- Vou fazer um
sacrifício pra não te deixar sem estudar. Mas, no ano que vem, você vai pra escola
pública.
Terminado o ano, meu pai foi pedir minha transferência. A
diretora, dona Leda, o chamou para conversar:
- Ela foi aprovada, no exame de seleção, em segundo lugar
geral. Ganhou todos os prêmios de redação, exceto um, porque a professora pediu
a ela para não participar do concurso para dar chance aos outros alunos. As
notas são altíssimas. O senhor quer mesmo por em risco o futuro da sua filha?
Ele chegou em casa, sem conseguir conter o orgulho e também
o desespero por assumir um investimento tão pesado para ele:
- Decidi que você vai ficar no Santo Antônio.
E foi lá que fiquei a minha vida inteira.
Era em momentos assim que eu percebia exatamente que tipo de
ser humano era o meu pai.
Quando a moda dos patins explodiu no Brasil, meus colegas
desfilavam com os patins mais modernos pela escola. Eu não tinha patins
modernos. O que eu tinha eram patins antigos, de aço bastante arranhado e rodas
muito estreitas que foram da minha mãe. Ou seja, patins de 30 anos atrás. Eu os
levei para a escola e claro que fui motivo de riso. Minha intenção era não
contar nada em casa, pois, apesar da minha pouquíssima idade, eu entendia bem a
luta dos meus pais. Mas minha mãe conhecia todo o mundo ali e a dona Luzia,
servente do colégio, acabou contando pra ela. Fomos pra casa e, sem que eu
soubesse, ela ligou para o meu pai para falar sobre o acontecido. À noite, ele
chegou em casa com um par dos melhores patins que havia na época. Durante os
últimos três meses, ele havia juntado dinheiro para comprar um rádio de pilha,
o único luxo a que ele se permitia, já que seu rádio estava todo remendado. E foi com esse dinheiro que ele comprou os patins.
No outro dia, levei os patins novos para a escola. Mas levei
os antigos também e fiz todos os meus amigos andarem com eles para verem como
eram “super legais”. O que foi motivo para gozação, no dia anterior, se tornou
um sucesso.
Novamente, meu pai começou a juntar o dinheiro para o novo
rádio e, mais uma vez, não conseguiu. Dessa vez, por causa do namorado da minha
irmã – hoje, seu marido há exatos 28 anos.
O Fred fazia engenharia civil e precisava de uma calculadora
profissional para continuar no curso. Sem a calculadora, ele não podia seguir
em frente. Os pais dele passavam mais dificuldades que os meus e já haviam
decidido que ele deixaria a faculdade.
Numa tarde, meu pai ligou para ele e marcaram de se
encontrar em frente à república em que o Fred morava, no centro de BH.
Meu pai o entregou a calculadora, ainda melhor do que aquela
que exigiram.
O Fred abriu a caixa e sentou no meio-fio para chorar.
E foram várias as histórias assim. Algumas, ficamos sabendo
somente depois que meu pai morreu, pois as pessoas paravam minha mãe nas ruas
de Sete Lagoas, onde voltaram a viver, para lhe agradecer pelo que ele tinha feito por elas.
Uma semana antes de morrer, no hospital, meu pai me disse:
- Não vou deixar nada para vocês.
Ele se referia aos bens materiais.
Até hoje, ainda me pergunto se ele não entendeu que nenhum
bem material, por mais valioso que fosse, jamais seria mais importante que o
exemplo, os valores e o amor que ele nos dedicou.