Logo pela manhã, saindo (atrasadíssima) para o trabalho, conheci seu
Antônio, um senhorzinho simpático, com seus mais de 70 anos, taxista aqui da
região onde moro. Assim que o carro arrancou, ele entoou "Sonho meu",
com uma voz grave, afinada, agradável de se ouvir. Deixei que ele terminasse a
música e pedi para que ele cantasse mais. Estava curiosa para conhecer um pouco
mais daquele senhor, que me pareceu tão apaixonado pela música quanto eu. Ele,
então, passou a cantar uma valsa, que eu desconheço. Linda. De extremo bom
gosto. Anotei o trecho que ele cantarolou, mas perdi o papel com a anotação
(acho mais tarde). Ele me contou que é seresteiro e um apaixonado por samba,
tango e valsa. Mas das músicas que tocam hoje nas rádios, ele não gosta
"de jeito nenhum". Por isso, muitas vezes, troca o rádio pela própria
voz.
No final da tarde, mais uma vez atrasada, agora para um compromisso particular, peguei outro táxi para voltar pra casa. Questionei ao motorista por que ele havia optado pelo caminho mais longe e complicado. Ele me disse que não teve outra opção, porque uma loja na rua Paraná, Centro, tinha pegado fogo e estava atrapalhando o trânsito da avenida que pedi a ele para seguir para chegar logo ao meu destino. Puxei mais informações e ele conseguiu me convencer da veracidade da história. De repente, ele disparou a falar dos incêndios mais famosos do Brasil, incluindo o do Edifício Joelma, em São Paulo. Pensei: "pronto, estou diante de um aficionado por incêndios". Errei. Ele é um obcecado não só por incêndios, mas por tragédias em geral, filmes policiais, McGyver e tudo mais que se possa imaginar. Está sempre preparado para enfrentar situações de risco. Ele me contou que mora no 14º andar de um edifício na Savassi. Mas que só comprou o apartamento depois que comprou uma corda. E explicou: "se o prédio pegar fogo, eu desço pela corda". Perguntei, espantadíssima: "mas como?" E ele emendou: "desde os seis anos de idade, subo em árvores para pegar passarinhos para vender. vivi disso durante muito tempo. já subi em árvores com mais de 50 metros. descer um prédio de 14 andares é mole pra mim. desço com uma mão só, deslizando". E emendou: "imagina se uma maníaco entra no meu prédio e coloca fogo logo na minha porta! eu não tenho por onde escapar. então, desço pela corda". De uma paranoia, logo pulou para outra: "olha aqui no meu peito: é um gps. ladrão não vê, porque tá escondido". Pensei: "nem tanto, um gps desse tamanho por debaixo da blusa é totalmente visível". De repente, ele virou pra trás e apontou para o porta-malas: "ali ó, ali no porta-malas, eu tenho um celular escondido. se eu for sequestrado, mando mensagem pra polícia de lá e ela me salva". Eu já nem sabia mais o que dizer. Ele já ia emendando outra história, quando decidi descer, bem antes de chegar ao meu destino. Cheguei a achá-lo paranóico. Mas, agora, pensando bem, pode não ser paranóia, apenas mais uma pessoa amedrontada com a violência contra essa classe tão indefesa quanto a dos taxistas.
No final da tarde, mais uma vez atrasada, agora para um compromisso particular, peguei outro táxi para voltar pra casa. Questionei ao motorista por que ele havia optado pelo caminho mais longe e complicado. Ele me disse que não teve outra opção, porque uma loja na rua Paraná, Centro, tinha pegado fogo e estava atrapalhando o trânsito da avenida que pedi a ele para seguir para chegar logo ao meu destino. Puxei mais informações e ele conseguiu me convencer da veracidade da história. De repente, ele disparou a falar dos incêndios mais famosos do Brasil, incluindo o do Edifício Joelma, em São Paulo. Pensei: "pronto, estou diante de um aficionado por incêndios". Errei. Ele é um obcecado não só por incêndios, mas por tragédias em geral, filmes policiais, McGyver e tudo mais que se possa imaginar. Está sempre preparado para enfrentar situações de risco. Ele me contou que mora no 14º andar de um edifício na Savassi. Mas que só comprou o apartamento depois que comprou uma corda. E explicou: "se o prédio pegar fogo, eu desço pela corda". Perguntei, espantadíssima: "mas como?" E ele emendou: "desde os seis anos de idade, subo em árvores para pegar passarinhos para vender. vivi disso durante muito tempo. já subi em árvores com mais de 50 metros. descer um prédio de 14 andares é mole pra mim. desço com uma mão só, deslizando". E emendou: "imagina se uma maníaco entra no meu prédio e coloca fogo logo na minha porta! eu não tenho por onde escapar. então, desço pela corda". De uma paranoia, logo pulou para outra: "olha aqui no meu peito: é um gps. ladrão não vê, porque tá escondido". Pensei: "nem tanto, um gps desse tamanho por debaixo da blusa é totalmente visível". De repente, ele virou pra trás e apontou para o porta-malas: "ali ó, ali no porta-malas, eu tenho um celular escondido. se eu for sequestrado, mando mensagem pra polícia de lá e ela me salva". Eu já nem sabia mais o que dizer. Ele já ia emendando outra história, quando decidi descer, bem antes de chegar ao meu destino. Cheguei a achá-lo paranóico. Mas, agora, pensando bem, pode não ser paranóia, apenas mais uma pessoa amedrontada com a violência contra essa classe tão indefesa quanto a dos taxistas.