quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Dirce, sinônimo de felicidade

- Quem quiser ser feliz tem que se chamar Dirce. Dirce é sinônimo de felicidade. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo.
E completava, entre risos:
- Mas feliz, feliz mesmo é o caju, que já nasceu com o caroço no c…
Assim era minha avó Dirce: a felicidade personificada.
Foram várias e várias as cirurgias no coração. Nenhuma delas foi suficiente para por fim àquela felicidade.
Lembro-me do dia 05 de janeiro de 2000. Os médicos reuniram toda a família e anunciaram:
- O caso é grave. Infelizmente, não tem mais jeito.
Passamos a noite em claro, aos prantos.
Eis que no outro dia, logo cedo, vó Dirce estava pelos corredores do hospital visitando os doentes dos quartos vizinhos ao seu, com aquela cara de que nada havia acontecido.
Vó Dirce tinha um tesouro, uma das fontes da sua alegria inesgotável: um guarda-roupas cheio de presentes.
Ela ganhava um salário mínimo por mês e parte desse dinheiro ia para presentes, presentes vários, que ela comprava ao longo do ano para distribuir no Natal.
Todo dia 25 de dezembro era a mesma coisa: um, dois, quatro presentes para cada filho, neto ou bisneto, para os outros parentes, para os parentes dos parentes, para os vizinhos, amigos, amigos dos amigos, médicos, varredores de rua, lixeiros, carteiro e até para os donos das lojas onde ela comprava os presentes.
Se 25 de dezembro é a data do nascimento de Jesus, eu não sei. Mas, com certeza, sempre foi o dia do renascimento da vó Dirce.
No seu último aniversário, justamente, o de 90 anos, perguntei pra ela:
- Vó, o que o Flavinho deixou a senhora comer?
Flavinho Leão era o seu cardiologista, grande amigo da nossa família e o homem mais lindo que minha avó já conheceu, segundo ela mesma.
- Dr. Flávio falou que eu posso comer torradas.
- Ok, vou buscar torradas com um patezinho pra senhora.
- Mymina – era assim que ela me chamava -, ele falou que eu posso comer torresmo também. E beber um choppinho. Não faz mal nenhum.
- Tá bom. Tenho certeza que ele disse isso.
Flavinho sempre teve a seguinte filosofia: “não atrapalhem a felicidade da dona Dirce”.
No dia 02 de fevereiro de 2005, minha avó partiu, aos 90 anos.
Estive com ela poucas horas antes. Estava super lúcida e…feliz.
- Posso tomar licor de jenipapo?  Perguntou à minha irmã Patsy, que é médica.
- Vó, é bom evitar o licor hoje, né? (ela não tinha passado bem durante o dia)

- Olha, vocês têm que marca uma consulta com o Dr. Flávio pra mim. Adoro quando aquele homem lindo ouve meu coração.
Eu e minha irmã rimos e nos despedimos da nossa avó, pela última vez.
Quando minha mãe perguntou se eu teria alguma ideia sobre o que escrever na lápide da minha avó, não tive dúvidas em escolher os versos do Gonzaguinha:
“E, de repente, diz presente
Sorri e beija a nossa fronte
E abraça e arrebenta a gente
É bom dizer viver, valeu”.