sábado, 25 de abril de 2015

Tínhamos que deixá-la partir

Impotente.

Foi assim que me senti durante os dois meses em que acompanhei a minha mãe no estágio final da sua doença, um câncer no pulmão.

Ouvir do médico “vocês não podem fazer mais nada por ela” foi uma das experiências mais dolorosas por que passei.

E esse “nada” significa NADA mesmo.

Acompanhar um doente no estágio terminal irreversível não é o mesmo que, por exemplo, lidar com uma vítima atingida por uma bala.

Diante de alguém baleado, existe a reação.

Chama-se uma ambulância.

Pede-se ao médico para que, pelo amor de Deus, salve a vida daquele paciente.

Tem-se a esperança de que um cirurgia resolva a situação.

Enfim, tem-se esperança.

Faz-se qualquer coisa por aquela vida.

Com um doente em estágio terminal irreversível, não é possível fazer nada pelo paciente, além de lhe propiciar uma morte digna.

E, para isso, há que se tomar decisões difíceis que, normalmente, não se tomaria no caso de uma doença grave, porém não terminal, por exemplo.

Mais do que isso: é preciso deixar de lado todo o egoísmo de querer prolongar a vida de quem se ama a qualquer custo e deixar a pessoa partir, seguindo o curso natural da vida...e da morte.

- Nossa mãe teve uma hemorragia – me falou minha irmã Patsy.

Como médica, era para ela que os médicos passavam a real situação do estado da nossa mãe. Ela era capaz de compreender melhor, do que qualquer um de nós, o que se passava.

- O procedimento normal seria uma endoscopia para saber a origem da hemorragia, mas mãe está muito fraca, a endoscopia pode feri-la.

Àquela altura, minha mãe pesava menos de 40kg. Parecia um biscuit de porcelana, que poderia se quebrar em mil pedacinhos, se ousássemos um movimento um pouco brusco, ou melhor, uma intervenção um pouco mais agressiva naquele corpo já tomado pela doença.

Não valia a pena fazê-la sofrer mais.

Ela não aguentaria. Nós, muito menos.

A hemorragia foi estancada.

Com base na experiência profissional de anos, a junta médica concluiu que a hemorragia fora causada pelo Decadron, o remédio que diminuía o inchaço no cérebro, tomado também pelo câncer.

Nova decisão a tomar.

O Decadron proporcionava um pouco, um pouquinho mais de consciência à minha mãe, ajudando a prolongar sua vida.

Em compensação, provocava hemorragias.­­­

Optamos por cessar o Decadron.

Decisões como não fazer um exame ou não ministrar um remédio pode parecer simples.

Quantas vezes, ao longo das nossas vidas, não nos vemos diante dessas opções?

Não vou tomar uma dipirona para dor de cabeça porque o medicamento me dá sono. Não vou fazer o exame de sangue porque tenho medo de agulhas. E está tudo ok.

Porém, numa situação extrema, tudo toma uma dimensão diferenciada.

Suspender um remédio pode significar não retardar a morte.

Desde 2006, o Conselho Federal de Medicina, através da Resolução 1805, recomenda aos médicos que não tentem prolongar a vida do doente em estágio terminal irreversível com intervenções ou procedimentos inúteis, com os quais, já se sabe de antemão, não se obterá a cura.

À minha mãe, nos seus últimos dois meses de situação irreversível, dedicamos amor e cuidados para amenizar suas dores, seus sofrimentos.

Montamos uma estrutura de hospital dentro da casa da minha irmã.

Duas enfermeiras a acompanhavam dia e noite.

As quatro filhas se revezavam também dia e noite.

Cremes, pomadas, óleos para evitar feridas pelo corpo, pijamas novinhos e confortáveis, cabeleireiro em casa, para cuidar dos cabelos que ela sempre fez questão de manter impecáveis, fisioterapia, terapia ocupacional (nos dias em que ela estava um pouco mais consciente), aparelho para melhorar sua respiração e amor, muito amor.

Tudo que podíamos fazer, fizemos.

Mas nós quatro, as filhas, tínhamos consciência, uma consciência dolorida, que ela deveria partir.

Ela partiu.

Pra mim, foi um alívio vê-la livre daquele sofrimento. A morte da minha mãe, que deveria me trazer dor, me trouxe alívio.

Naquele momento, me lembrei da cunhada de uma amiga, que havia perdido, há dois anos, o filho de 15 anos também para o câncer:

- Quando ele morreu, tirei violentamente todos os aparelhos que estavam amarrados a ele. Eu queria vê-lo LIVRE – ela me contou.

Com minha mãe, foram três anos de luta contra um câncer no pulmão e dois meses de muita impotência, muita angústia, de muita reflexão sobre a vida e a morte.

O pior: dois meses de espera.

Eu acordava e dormia esperando pelo inevitável dia em que minha mãe morreria, sabendo que nem eu nem ninguém poderiam mudar aquele destino.

E eu esperava...assim...impotente.

PS 1. Minha mãe só perdeu a batalha para o câncer porque foi vítima de negligência médica, no início da doença, o que impossibilitou a cura. Nos três anos que a acompanhei nas quimioterapias, conheci muitas, muitas histórias de vitórias.

PS 2. Felizmente, minha família teve condições financeiras para oferecer à minha mãe, alguns "luxos" como pijamas novos, cabeleireiro, cama de hospital em casa, enfermeiras. A maioria não tem. Tudo isso é facilmente compensado com cuidados, companhia, carinhos, amor e decisões conscientes. 


domingo, 12 de abril de 2015

Sobre perdas, luto, saudade...amor

Não me lembro da primeira vez em que tive medo de perder o meu pai. Só me lembro que esse era o meu medo mais frequente e mais antigo.

Ninguém se prepara para perder a pessoa que se ama. Mais do que isso: ninguém se prepara para perder a pessoa que mais se ama na vida. E meu pai era essa pessoa pra mim.

Ele morreu às 2h da tarde do dia 23 de março de 2006.

Era eu que estava com ele na manhã daquele dia.

Estava lúcido. Conversou o tempo todo sobre todos os assuntos.

Recebeu a visita do melhor amigo, o Afonso. Esboçou um sorriso, durante a conversa. Um esforço para se apresentar feliz e agradecer a amizade de uma vida.

Mas ele não estava feliz. Estava aflito. Sabia que a hora de partir se aproximava.

Insistiu para que eu ligasse para minha irmã, a Patsy, médica, para que ela fosse logo para o hospital.

Liguei por diversas vezes. Uma ligação atrás da outra. A aflição do meu pai era também a minha.

Sabíamos que seu tempo era curto.

A Patsy chegou. Eu saí. Insistência dele.

A Patsy, a filha médica, era quem lhe daria segurança na hora da despedida.

Eu era a caçula que ele sempre tentou poupar dos momentos de dor.

E assim foi: de mãos dadas com a Patsy, meu pai se despediu da vida. E longe de mim, para, mais uma vez, me proteger.

Do lado de fora do hospital, eu chorava como se soubesse o que tinha acabado de acontecer.

Subi novamente para o quarto, com a certeza de que não encontraria mais meu pai com vida.

Fui recebida, na porta do elevador, pelo meu cunhado, o Fred: “acabou”, ele disse.

Minhas lágrimas secaram instantaneamente.

Fui em direção à minha irmã, que estava na sala dos médicos, no chão, derrubada pela dor.

Minhas lágrimas ainda estavam secas.

E foi assim que cheguei ao velório do meu pai: com as lágrimas secas.

E foi assim durante toda a noite até que, pela manhã, sentada ao lado do caixão, junto com meu tio Gutinho, perguntei:

- Domingo, é final do Campeonato Mineiro, Cruzeiro x Ipatinga. Quem vai me fazer companhia na hora do jogo?

E chorei... 

E a dor chegou...

Dilacerante. Cortante. Eu não estava pronta para enfrentar tudo aquilo. Ninguém nunca está pronto para tanta dor. Uma dor inacreditável. 

Eu tremia, tremia de dor, de revolta, de tristeza. 

A respiração era curta, pesada, difícil.

A dor me acompanhou dia após dia. Semana após semana. 

Estava anestesiada. Não sentia nem o meu corpo. Eu era só tristeza. 

Absolutamente nada conseguia me arrancar um sorriso, um suspiro de vida. Eu tinha morrido junto com meu pai.

Nunca pensei que algo assim pudesse existir. Algo extremo, uma dor extrema.

Era nele que eu pensava durante todo o tempo. E era com ele que eu sonhava todas as noites – até hoje, sonho.

Minha vida se resumia a pensar no meu pai, no homem que, durante a minha infância, me fazia dormir; que me levava Nescau, na cama, todas as manhãs, mesmo quando eu já era adolescente; o homem que me ensinava o dever de casa e me xingava quando eu perdia algum material escolar; que me enchia de brinquedos de meninos, já que seu único filho, o Christian, faleceu ainda bebê; o cara que era meu companheiro de futebol, de política, de filmes...enfim, meu melhor amigo, meu mais fiel parceiro de vida.

Dois meses após a morte do meu pai, consegui me distrair em uma leitura – não lembro qual, agora – e me assustei ao perceber que, por alguns minutos – ou talvez segundos –, meu pai tinha se distanciado dos meus pensamentos. Pensei: - pode ser possível ter minha vida de volta

Mas isso ainda estava longe de acontecer.

02 de junho, cerca de 9h da noite

Eu estava sentada com a minha filha, a Ana Luísa, na mesinha em que ela costumava se sentar para fazer o dever de casa, lanchar etc.

A cadeira, onde eu estava, virou e eu fui de encontro ao chão. Essa é a única lembrança que tenho daquele momento.

Acordei no chão, com uma dor incalculável nos ombros.

Ao meu redor, a Ana, minha mãe, a Patsy, o Fred e alguns vizinhos. A única coisa que consegui entender, naquele momento, é que tinha acabado de ter uma convulsão.

Não entendia a dor nos ombros.

Me levaram para o hospital.

Meia-noite em ponto, primeira cirurgia. Anestesia geral.

Me disseram, depois que voltei da anestesia, que colocaram meu ombro direito no lugar.

Mas a dor não passava. E era no ombro esquerdo.

Uma noite chorando e gritando de tanta dor.

O médico só apareceu às 6h20 da manhã. Minha mãe anotou o horário, depois de procurá-lo, por todo o hospital, desesperada.

- Deixe-me examinar seu braço – disse ele.

E levantou meu braço esquerdo, na maior violência, sem nenhuma sensibilidade, apesar dos meus gritos.

- É por isso que você não melhora. Não me deixa examiná-la – reclamou o cavalo com CRM (como diz minha amiga Daniela Serra).

Nesse momento, ele deixou meu braço cair.

Nova convulsão.

Nova anestesia geral.

Nova cirurgia.

À noite, dois ortopedistas entraram no meu quarto para, pela primeira vez, me explicar o que tinha acontecido.

O remédio que tomei para depressão – na verdade, luto – causou as convulsões. E foram tão violentas que os músculos dos ombros comprimiram os ossos e romperam todos os ligamentos.

O caso era raro. Mais do que raro, GRAVÍSSIMO.

- Seus braços já começaram a necrosar. Isso não é caso para nós - falou um dos ortopedistas.

Na época, eu vivia em Sete Lagoas, a 60 km de Belo Horizonte.

Minha mãe e minha irmã procuraram pelo dr. Ronaldo Percopi, em BH, um dos maiores ortopedistas de Minas e do Brasil.

Foi ele e o dr. Bruno, seu assistente, que, uma semana depois, salvaram minha vida e meus braços numa cirurgia que durou sete horas e meia. O dia: 9 de junho de 2016, meu segundo aniversário.

Certa vez, alguns anos depois, uma psicóloga me disse:

- Seu pai era seu apoio, seus ombros.

E foi assim que entendi o que tinha acontecido.

Do luto, só saí dois anos depois.

Apenas dois anos depois, consegui retomar minha vida.

A perda da minha mãe foi totalmente diferente.

A doença matou meu pai em um mês.

Com a minha mãe, foram três anos de luta.

Vivi o luto durante esse período.

Pela gravidade do quadro, sabia que ela não teria muitas chances.

Nós dormíamos de mãos dadas, muitas vezes.

Ela tinha medo de morrer. E eu tinha medo de que ela morresse.

Em maio de 2013, a doença tomou a minha mãe. Teríamos apenas mais dois meses juntas.

E aquela dor dilacerante, da perda do meu pai, voltou.

A revolta também.

Eu não podia fazer absolutamente nada para salvar a vida da minha mãe. Nada.

Um dia, indo para o trabalho, li numa placa: “Deus tudo pode”.

E eu gritei com Deus: - Se você tudo pode, então, salve minha mãe.

A saudade que eu sentia dela era desesperadora. Eu tinha apenas dois meses para matar a saudade que já me consumia antes mesmo da minha mãe partir.

Assim, eu a abraçava, a beijava, ficava de mãos dadas, dizia que a amava, pedia perdão pelos meus erros e a perdoava também.

Era uma necessidade absoluta de não deixar nada pendente entre nós.

Ela se foi em 10 de julho de 2013.

No lugar da dor, me veio o alívio.

O sofrimento de três anos havia acabado.

A saudade se acalmou, mas só a princípio.

Hoje, novamente, é desesperadora.

Eu sinto uma falta danada dos meus pais. Não há tempo capaz de amenizar a saudade.

Voltando àquele 02 de junho de 2006, dia da minha convulsão, soube depois, pela minha mãe, que quem pediu socorro aos vizinhos foi a Ana Luísa, que tinha sete anos na época.

Enquanto eu estava desmaiada, no chão, ela segurava meu rosto e gritava:

- Mamãe, não morre, não.

Como disse Drummond, mães não deveriam morrer nunca. Pais também não.