terça-feira, 21 de julho de 2015

Corra que Isabel Trovão vem aí...


Um casarão abandonado.
Pelo chão, apenas a poeira escura, vinda da atividade siderúrgica que impulsionava a cidade.
Nenhuma cama, nenhuma mesa, nenhuma roupa, nada que indicasse vida ali.
Só a poeira escura...
Pela porta entreaberta, eu via a casa que abrigou Isabel Trovão por alguns meses.
Um lugar abandonado...sem vida...empoeirado...escuro...
- Isabel Trovão vem aí...ela vai te pegar.
Era assim que os adultos de Sete Lagoas nos ameaçavam, quando teimávamos em não obedecê-los.
Minhas férias, na casa da minha avó, eram assombradas pela figura de Isabel Trovão.
E agora eu estava ali, a um passo de conhecer o lugar onde a estranha figura vivia...ou se escondia.
Haveria algo mais que o vazio naquela casa?
Um passo...
- Isabel Trovão vem aí.
...o passo seguinte...
-Ela vai te pegar.
...mais outro passo...
- Isabel Trovão vai te pegar.
E assim, entre a curiosidade, que me fazia avançar, e o medo, que me paralisava, eu invadi o casarão. Eu, uma menina de oito anos, curiosa e morta de medo.
Um casarão vazio, abandonado, sem sinal de vida...empoeirado.
- O que você quer aqui, menina?
Eu me virei. Era ela. Isabel Trovão. Ela acabara de chegar. Ela, a dona da casa. Eu, a invasora.
- Olha, por favor, não faça nada comigo. Deixa eu voltar pra casa da minha avó – implorei.
- E por que eu faria algo com você? – ela indagou, já se aproximando.
- Porque você é louca.
- Quem lhe disse?
- Todos dizem.
- Todos quem?
- Os adultos.
- Ah, os adultos...
- O que tem os adultos?
- Eles dizem coisas demais.
- Você não é louca?
- Me diga você. Acha que sou louca?
- Acho que sim – respondi, meio atrevida. - Você anda sozinha pelas ruas.
- E desde quando solidão é loucura?
- Onde está sua família? – perguntei.
- Não me lembro.
- Como não se lembra?
- Há histórias que devemos esquecer.
- E seu filho?
- Que filho?
- O que morreu, quando nasceu. É por isso que dizem que você enlouqueceu.
- Contam isso sobre mim? – Riu Isabel.
- Você não teve um filho?
- Talvez.
- Como talvez?
- É essa a história em que você acredita? Ela te faz me compreender? Então, não vou tirá-la de você.
- Mas eu quero saber a verdade – insisti.
- E por quê?
- Porque você não me jogou pedra até agora, nem me colocou num saco. Você é mesmo quem dizem que é?
- Eu não faço maldade com ninguém – disse, docemente, Isabel Trovão.
- Dizem que você joga pedra nas crianças. Várias pessoas já viram.
- São elas que me apedrejam primeiro. Eu apenas me defendo.
- E o saco nas costas?
- É onde carrego tudo que tenho na vida.
- Mas por que fala sozinha pelas ruas?
- Não tenho ninguém com quem conversar. Então, converso com Deus.
- E por que não desmente todas as histórias que contam sobre você? Por que deixam te chamar de louca?
- É assim que vivo...De histórias que criam sobre mim. O filho morto...a loucura...são histórias que me preenchem, que me fazem ser alguém. A minha história, a minha história mesmo, a verdadeira...não me torna alguém.
Eu entrei naquele casarão, tomada pelo medo e a curiosidade. Isso é verdade.
Mas o encontro entre mim e Isabel Trovão nunca aconteceu. Hoje, lamento esse não encontro.
Isabel Trovão se tornou uma personagem lendária de Sete Lagoas.
Sua história são muitas. Os não encontros e os desencontros jamais nos deixarão saber quem foi Isabel.
Isabel.
Apenas Isabel.