terça-feira, 27 de outubro de 2015

O meu muro branco...ou sobre depressão e a falta que o colo da minha mãe me faz

Vou contar a historinha que ouvi da jornalista e escritora mineira Leila Ferreira, durante uma palestra no Tribunal de Justiça.

Confesso que fui com má vontade àquela palestra. Disseram que seria algo como uma autoajuda. E eu tenho minhas várias restrições a essa ajuda que nunca me ajudou em nada.

Mas não foi autoajuda que eu vi e ouvi. Muito menos uma palestra. Foi um relato intenso, que alternava dor e alegria, a medida que as lembranças também se alternavam.

A historinha que eu quero contar para vocês é justamente um episódio da vida da Leila: a história do muro branco. E que ela me perdoe e me corrija, se eu cometer erros.

A Leila foi fazer um mestrado na Inglaterra. Não me lembro do ano, nem de quanto tempo ela permaneceu na terra dos Beatles.

Lá, caiu em depressão. Recebeu toda a ajuda para se tratar. E se recuperou. Estava pronta para voltar pra casa. Mas, quando se preparava para o retorno, fez um teste na BBC e...passou. Ficaria mais um tempo ali, realizando o sonho de jornalista. Porém, a mãe, que ainda não sabia da “novidade BBC”, escreveu-lhe uma carta, dizendo que a esperava no Brasil.

Resultado: entre o sonho da BBC e o amor da sua mãe, ficou com este último. Retornou.

A mãe da Leila vivia numa casa muito simples, no interior de Minas....paredes descascadas, bem maltratadas pelo tempo.

Para recepcionar a filha, pintou o muro da casa, e somente a parte da frente, de branco. Ela não tinha dinheiro para pintar o restante do muro. Foi a maneira que encontrou para iluminar a chegada da Leila, que havia passado por um período tão duro de depressão.

Fim da historinha da Leila.

O vexame que dei no auditório do Tribunal, ao ouvir aquilo, por favor, não queiram saber. Chorei como criança. O porquê, não contei a ninguém.

Por isso, quero lhes contar uma segunda história, que é sobre mim, minha mãe e o nosso muro branco.

Eu passei por uma depressão muito violenta, no ano de 2009.

Não me perguntem detalhes sobre aqueles meses, pois não me lembrarei deles, tamanha a dor e a inconsciência em que eu me encontrava.

Na depressão, eu só conseguia me perguntar “por que ainda estou viva?” Porque, na depressão, dói viver. Dói diariamente. É um fardo acordar e se levantar da cama. É um desafio ter que conviver com outras pessoas. É insuportável lidar com coisas banais como tomar um banho, pentear os cabelos ou se alimentar.

A intolerância da ignorância que não entende a doença torna tudo ainda mais difícil.

Nenhum exame de sangue acusa a depressão. Nenhum raio-x, nenhuma tomografia, nenhuma ressonância magnética, nada, enfim, indica “você está com depressão”. Depressão não é um problema físico, fácil de ser detectado. É um problema psicológico e emocional.

Assim, sua dor, aos olhos da ignorância, torna-se loucura ou até mesmo “piti”.

Qualquer pedido de socorro é visto como histeria.

Mas minha mãe não era uma ignorante. Ela sabia que eu, a sua filha, não era louca, “pitizenta” ou histérica. Eu estava deprimida.

Uma das poucas coisas que me lembro daquele período é que eu ficava, por horas, sentada no chão do meu banheiro. Eu só chorava.

Minha mãe ficava ao meu lado, sentada no mesmo chão frio. E dizia: “Rô, isso vai passsar...isso passa” e “eu te amo, minha filha”.

Quando eu me cansava daquele chão, ela, já mais velha, me apoiava até que eu conseguisse chegar à minha cama. E de lá só saía depois que eu adormecia.

Naquele ano de 2009, nós morávamos numa casa que, assim como a da Leila, tinha paredes descascadas, maltratadas pelo tempo. Não tínhamos dinheiro para a reforma. A perda do meu pai, tempos antes, nos deixou em dificuldades financeiras.

A reforma seria um luxo pra gente. Aquelas paredes me incomodavam. Não gostava daquela casa com paredes tão feias.

Um dia, em meio a uma crise, escrevi, numa das paredes do meu quarto, bem grande “quero morrer”.

Fui me recuperando aos poucos, bem aos poucos.

Em outubro do mesmo ano, resolvi fazer uma viagem com a minha filha, a Ana Luísa. Fui para a casa da minha irmã mais velha, a Cláudia, que morava em Búzios. Foram exatos 17 dias.

Voltei mais forte.

E, na volta, a surpresa: o meu quarto estava todo pintado de branco. As paredes descascadas e gastas deram lugar a paredes lisas e branquinhas, do jeito que eu gostava. E só o meu quarto estava pintado. Assim como a mãe da Leila, ela não tinha dinheiro para pintar o resto da casa. Ali estava o meu muro branco, a forma que minha mãe encontrou de apagar a dor que eu tinha vivido semanas antes e de levar um pouco de luz à minha vida.

Hoje, posso afirmar que o amor da minha mãe e o meu amor pela minha filha foram a minha saída para a escuridão e total desesperança em que eu me encontrava.

Amanhã, dia 28 de outubro, ela faria 79 anos.

Não sei se depois dessa vida existe outra, se a gente vai mesmo para algum lugar. Mas eu torço muito para que essa outra vida exista para que, um dia, eu possa ter, novamente, o colo da minha mãe.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Entre dois infernos

Por Romyna Lanza

Adriano (*) me mostra os papéis que acabara de receber de um dos defensores públicos. “Tem um mandado de prisão em aberto contra mim. Acabei de saber. O defensor disse que tem como resolver”. 

Respira fundo, e confessa: “Mas eu não sei se quero resolver. Lá, na prisão, eu tenho tudo”.

Eis o impasse. Escolher entre o menos doloroso – as ruas ou o presídio. Naquele instante, me deparo com uma realidade muito distante da minha. Minhas dúvidas sempre se restringiram a qual o melhor emprego para se aceitar, em qual bairro viver, que roupa vestir, o que fazer para o almoço.

Adriano não pode, nem ao menos, escolher o que almoçar. Nas ruas, não há opção. Come-se o que lhe oferecem. E se agradece por isso.

Hoje, com 28 anos de idade, Adriano é morador de rua desde os 15.

Como não tem endereço fixo e não foi encontrado para as intimações judiciais, sua prisão foi decretada.

“Você prefere mesmo o presídio às ruas?”, pergunto.

Mais uma vez, respira fundo:

“Sim, prefiro. Lá, tenho comida na hora certa, tenho lugar para tomar banho, tenho um colchão para dormir. Na rua, vivo com medo o tempo inteiro. As pessoas nos batem, tacam fogo, ameaçam...na maioria das vezes, por pura diversão. Acham divertido nos bater. Riem disso”.

E provoca:

“Eu desafio qualquer um a passar um dia, um dia apenas nas ruas para saber a que nos sujeitamos ali”.

Adriano foi expulso de casa pelos próprios pais ao confessar sua homossexualidade. A rejeição foi imediata.

“Foi muito duro ouvir deles que preferiam ter um filho morto a ter um filho gay. Hoje, não nutro um nada de sentimento por eles. Nada”.

Um nada...ou talvez uma mágoa. Este é o sentimento que se vê nos olhos lacrimejantes e na voz embargada de Adriano, quando ele fala dos pais e do único irmão.

“Doeu muito ouvir tudo aquilo”, complementa.

Adriano tinha uma casa, uma família, comida na mesa, uma cama confortável, um chuveiro disponível para quantos banhos quisesse e precisasse, roupa limpa, amigos, uma escola.

Bastou a confissão, bastou se assumir como gay, para perder tudo. Agora, não tem mais nada. Adriano, um morador das ruas de BH.

De acordo com o levantamento feito pelo Center of American Progress, no final de 2014, 300 mil adolescentes gays expulsos de casa, pelos pais, nos EUA, após revelarem sua homossexualidade.

Os EUA apenas reproduzem a realidade desses jovens pelo mundo.

No Brasil, não há uma estatística que aponte quantos homossexuais encontram-se na mesma situação.

Porém, sabe-se que o quadro é assustador.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, a cada 28 horas, um homossexual é assassinado no Brasil, tornando o país campeão mundial em assassinatos de homossexuais. Desses crimes, 70% ficam impunes: a polícia não consegue identificar os agressores.

Adriano conta que as ruas o deixam ainda mais vulnerável às agressões.

“A violência já é grande contra um morador de rua. Contra um morador de rua gay é ainda pior. A gente dorme sem saber se vai estar vivo no outro dia”.

Como qualquer outro menino que se vê obrigado a viver nas ruas, Adriano não chegou pronto para enfrentá-las. Ninguém chega. Nem uma criança, nem um adolescente, nem um homem ou mulher está preparado para enfrentar as ruas.  

Ninguém chega também marginal. Ninguém chega já sabendo roubar ou matar. Ninguém chega viciado em drogas.

É tudo uma questão de sobrevivência.

“A primeira vez em que bati numa casa para pedir um prato de comida foi humilhante demais. Acho que foi a coisa mais humilhante que já me aconteceu na vida. A mulher olhou pra mim e disse ‘acha que vou dar comida pra marginal? vai trabalhar’. Eu não era um marginal, nunca fui. Eu era um garoto com fome”, relata.

A luta contra a fome é diária, não dá trégua.

Em Belo Horizonte, alguns restaurantes da área central doam aos moradores de rua a comida que sobra do almoço.  Sempre às três da tarde. Até lá, Adriano sente fome. Nenhuma outra refeição antes desse horário. Muitas vezes, nenhuma outra refeição também depois desse horário. Um prato de comida é tudo o que se tem ao longo do dia.

Para matar a fome, as drogas. No caso de Adriano, o crack.

“Comecei a fumar crack porque foi a única forma que encontrei pra matar minha fome e diminuir minhas angústias”, relata.

Ele se expressa bem. Isso chama minha atenção logo no início. Comento. Pela primeira vez, o sorriso largo se abre: “obrigado. Eu estudei. Cheguei a completar o terceiro ano”.

Já vivendo nas ruas, conseguiu se formar no Ensino Médio: “quando fui expulso de casa, já estava matriculado numa escola. então, aproveitei a oportunidade”.

Para se manter na escola, pedia a amigos, maiores de idade, que se responsabilizassem por ele e fizessem sua matrícula no ano seguinte.

“Eu já tive sonhos. Eu queria me formar, ter uma profissão”.

A profissão que Adriano sonhava – e ainda sonha – em ter é a de cabeleireiro.

“Não tenho curso, mas sou melhor que muito ‘profissa’ por aí. Eu sei que sou. E tenho muito orgulho disso”.

Nos últimos 11 anos, Adriano passou por diversos salões de Belo Horizonte, onde trabalhou como assistente de cabeleireiro e manicure. “É raro ter manicure gay, né? As clientes me adoram”.

Mas para um morador de rua, se candidatar a uma vaga de emprego é ainda mais difícil do que para nós, cidadãos com endereço fixo. Para arrumar um emprego, Adriano tem que mentir:

“Eu decoro nomes de ruas de bairros afastados para citar durante as entrevistas de emprego. Assim, não tem como irem lá e conferir se moro realmente no lugar.Ninguém dá trabalho para um morador de rua. Não confiam na gente”.

Nos salões, nunca teve salário fixo ou carteira assinada. Ganhava comissões, insuficientes para pagar um aluguel. “O dinheiro só dá pra eu comer e comprar droga pra sustentar o meu vício”.

Adriano é um viciado em crack. Ele não esconde isso. Em julho de 2014, foi preso com algumas pedras da droga, na Praça da Estação, Centro de Belo Horizonte.

“As pedras estavam na minha cueca. Falei com a polícia. Eles me mandaram tirar tudo. Tirei minha calça e minha cueca. Isso, num domingo à tarde. Um monte de gente viu. Eu fique nu, na frente de todo mundo, em plena luz do dia. Fiquei morto de tanta vergonha. Eu tenho dignidade, sabe?”

As lembranças daquele dia ferem o seu orgulho. Ele repete, indignado:

“Fique nu. Em plena tarde, em pleno Centro de BH. Todo mundo viu”.

Já preso, foi encaminhado para a Delegacia, onde ficou por mais de 12 horas esperando ser levado, enfim, para o presídio. Durante todo aquele tempo, ficou sem se alimentar, sem ir ao banheiro, sem beber um copo d’água. “Foi exaustivo”, relembra.

“Rasparam seu cabelo, quando chegou ao presídio?”, indago. Todos os homens têm seus cabelos raspados, assim que entram numa unidade prisional.

“Não. Eles não raspam os cabelos dos gays. O tratamento é diferente”.

“Diferente”, pelo que entendi, seria um tratamento um pouco mais humano daquele dispensado aos presos héteros.

“Deixei bem claro que era gay. Pus minha roupa bem ‘mulherzinha’. Amarrei a blusa na cintura e deixe um ombro de fora”.

Há uma tentativa de se preservar a vaidade, tão cara aos homossexuais, e, de quebra, a identidade de cada um. Porém, uma tentativa insuficiente.

“A gente consegue se manter vaidoso. É difícil porque só temos sabão de coco. É sabão de coco para lavar o uniforme, sabão de coco para lavar o cabelo e sabão de coco para lavar o corpo. Ficamos com cheiro de sabão de coco o dia inteiro, todos os dias”.

Existe ainda a dificuldade para se barbear. Lâminas não são permitidas nas prisões. Algumas poucas entram clandestinamente. Adriano conseguiu se barbear uma única vez, durante os 15 dias em que permaneceu preso.

“Tive que fazer uma permuta. Cortei o cabelo do dono da lâmina. Em troca, ele me deixou usá-la para fazer a barba. É assim que as coisas funcionam por lá: na base da permuta”.

No Ceresp Betim, presídio que recebe os presos provisórios, uma cela, isolada de todas as outras, é reservada aos homossexuais. No dia em que Adriano chegou, a cela estava vazia.

“Foi um alívio. Era minha primeira vez num presídio. Não sabia o que esperar”.

Foram dois dias de solidão até a chegada de novos detentos. Seis, no total. Seis detentos e uma cama.

“O mais antigo de cela fica com a cama. É essa a lei dos presídios. Como cheguei primeiro, eu tinha o direito de dormir na única cama que tínhamos. Os outros ficavam no chão. Mas eu ficava com dó e acabava dividindo a cama. Não sei ver um ser humano numa situação tão difícil e não fazer nada”.

Foram 13 dias no Ceresp Betim, numa normalidade que contrastaria com os dois dias em que permaneceu no presídio São Joaquim de Bicas, para onde foi transferido. Adriano sentiu medo quando soube da transferência.

Bicas é bem maior que o Ceresp. Há presos já sentenciados, em cumprimento de pena. São cinco ou seis celas exclusivas para homossexuais. Cerca de 14 pessoas dividem cada cela, com cerca de 4m². 

Alguns dormem em camas, outros, em colchões. “Ninguém fica sem colchão”, explica o rapaz.

Há também celas exclusivas para homossexuais casados. Não se diferem em nada das demais. “É só para todo mundo saber quem é casado e respeitar. Não se pode mexer com os gays comprometidos”.

A maioria dos homossexuais que estão em Bicas foi presa por homicídio. “Há muito homicida. Não perguntei os motivos dos crimes. Não tive coragem. Mas gay, geralmente, é preso por matar o próprio homem. Briga de ciúme”.

O primeiro dia de Adriano no novo presídio foi também o mais difícil por que passou durante o encarceramento.

“Um dos presos, o que mandava na cela, cismou que o homem dele estava dando em cima de mim. Me ameaçou de morte. Disse que eu não acordaria no dia seguinte”.

Sem saber como agir diante da situação, Adriano se desesperou. Aos berros, na cela, desafiou: “me mata. Pode me matar agora. Não me ameace. Apenas faça”.

“Falei um monte pra ele e pra todo mundo que estava ali”, complementa.

Sentiu muito medo. Não sabia como seus colegas de cela reagiriam.
“Foi um risco que corri. Um risco imenso. Tinha que me impor, mostrar que não tinha medo. Mas tinha. Ainda fico apavorado ao lembrar o que passei naquele dia”.

Tanto o agressor quanto os demais detentos recuaram. Alguns poucos prestaram solidariedade a Adriano.  

“Mesmo assim, continuei inseguro. Não conseguia dormir com medo de ser morto”.

Diferentemente do que acontece nas celas reservadas a homens e mulheres héteros, na ala dos homossexuais, o sexo rola a todo momento.

“Tem sexo o tempo todo. Ali mesmo, na frente dos outros presos”.

O rapaz também relata que muitos homossexuais escondem sua orientação sexual, sendo levados para as celas masculinas das prisões.

“Chega uma hora, que não aguentam mais. Sentem falta de sexo. Assim, acabam admitindo sua homossexualidade para serem transferidos para as celas gays”. 

“Eu não transei com ninguém. Tinha medo da Aids”.

A incidência de HIV é alta nessa ala, segundo Adriano. E quase nunca há como se prevenir. 

Preservativos são raros. Todos fornecidos por familiares dos presos, que os visitam com frequência.  

“Eu era o único que não tinha família”, lamenta.

Não há assistência médica especial voltada para os portadores de HIV. Adriano não soube dizer se aqueles detentos já chegaram com o vírus da Aids no presídio ou se contraíram a doença depois de encarcerados.

Após dois dias em Bicas, veio o alvará de soltura...a liberdade e, com ela, o reencontro com a família. 

O primeiro desde que saiu de casa. Uma tentativa de buscar conforto.

Adriano me mostra uma cicatriz no braço direito.

“Tá vendo isso aqui? Foi o resultado do meu encontro com minha mãe e meu irmão. Eu e meu irmão discutimos feio. Partimos para as vias de fato”. E enfatiza: “não tenho nenhum sentimento mais por eles”.

O rapaz se despede, não sem antes me contar sobre sua escolha.

“Tenho que ir. Acho melhor resolver o problema do mandado de prisão, né? Não suportaria enfrentar novamente um presídio (**)”.

(*) O nome é fictício, a pedido do entrevistado.

(**) Acompanhei o caso por mais uma semana. Adriano resolveu o problema com a Justiça e teve seu mandado de prisão revogado.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Encontro marcado

O encontro estava marcado desde aquela noite de 12 de janeiro de 1985, quando Freddie, Roger, Brian e John pisaram no palco do festival que entraria para a história como um dos maiores espetáculos de rock de todos os tempos.

Eu não vi o Queen naquela noite. Não ao vivo. Meus 13 anos foram o obstáculo que me impediram de participar do coral de 180 mil (ou seriam 240 mil?) vozes que acompanhou Freddie Mercury em “Love of my life”.

Naquele momento, prometi: “um dia, estarei ali, com Freddie”.

Mas em 24 de novembro de 1991, meu sonho ruiu.

Freddie havia partido.

Em 2005, “the champions” estavam de volta. Roger e Brian haviam retomado a banda e, junto com Paul Rodgers, excursionaram pelo mundo.

Não me lembro de quando a turnê “The return of the champions” chegou ao Brasil.

Prestem bem atenção no que acabei de dizer: eu, fã apaixonada do Queen, não me lembro de quando a turnê “The return of the champions” chegou ao Brasil.

O sonho, que deveria ter renascido ali, simplesmente, continuou apagado.

Paul Rodgers, roqueiro experiente da banda Bad Company, convidado do Queen para dividir o palco com Brian e Roger, por um breve período, manteve a banda onde ela estava há 14 anos: adormecida.

Novamente, prestem atenção no que acabei de dizer: Paul Rodgers, convidado do Queen, simplesmente, para dividir o palco com Brian e Roger, por um breve período. Vou falar sobre isso mais adiante.

Voltando à passagem do Queen pelo Brasil, nenhuma histeria, nenhuma paixão.

Nem mesmo Brian e Roger foram suficientes para me fazer voltar a sonhar e suspirar.

Paul Rodgers era um vocalista normal demais, certinho demais, igual demais a centenas de roqueiros que estão por aí no mundo.

Queen sempre foi uma banda demais: grandiosa demais, majestosa demais, viada demais. E Paul Rodgers estava deslocado demais. Competente, talentoso, mas deslocado.

O Queen passou pelo Brasil e passou por mim sem a grandiosidade a que estávamos acostumados.

E aí, alguns anos mais tarde, veio Queen + Adam Lambert.

Adam quem? Foi o que me perguntei quando ouvi o nome do rapaz pela primeira vez.

Quando vi as duas lendas do Queen, Brian e Roger, com o novato Adam, tive vontade de morrer.

- Que beesha afetada! Tem que ser menos para acompanhar o Queen. Freddie não era assim. Isso não se encaixa ao Queen.

Fiquei indignada. Mas, indiferente, não. Alguma coisa renasceu em mim, naquele momento: o sonho...o sonho de me encontrar com a banda e fazer parte do coral de milhares de vozes de “Love of my life”.

Voltei a planejar o encontro.

Mandei inúmeras mensagens para Roger e Brian, nas redes sociais, em 2014, dizendo “vejo vocês no Brasil no ano que vem”. Era uma certeza que eu tinha.

Veio a notícia: “confirmado. o Queen volta ao Rock in Rio, em 2015”.

O encontro marcado há 30 anos estava prestes a acontecer.

E aconteceu. Não como eu queria, com Freddie à frente da banda.

A frustração, confesso, não foi pouca, não.

Passei quatro músicas, literalmente, no chão. Não era só cansaço físico. Era o vazio de não ter o Freddie.

Eu só conseguia pensar: “o que eu estou fazendo aqui sem o Freddie? que banda é essa? isso é um cover, e não a banda que eu amo”.

Passada a tristeza absoluta do vazio que o Freddie deixou em mim – ele é uma das três pessoas que perdi, ao longo da vida, e que levaram um pedaço de mim -, passado o cansaço físico que só quem já enfrentou a maratona chamada Rock in Rio sabe exatamente como é, eu voltei a pensar na noite da última sexta-feira.

O Queen estava no palco. A banda que representa o que há de mais importante na minha vida estava ali na minha frente. Não era cover porra nenhuma. Era o Queen.

Eram Brian e Roger, duas feras, dois gigantes, um da guitarra e o outro da bateria.

Era o John Deacon presente com “Another one bite the dust” ou “I want to break free”.

Era Freddie regendo o público, mesmo 24 anos após sua morte. Tudo que fizemos ali, o coro em “Love of my life”, as palmas em “Radio Ga Ga” ou em “We will rock you”, o “quirô rê rê” (ou sei lá como se escreve isso) de “Under pressure” e o coro desafinado de “In the lap of the gods”, tudo isso aprendemos com Freddie. E nós não nos esquecemos.

O Adam? Uma rainha. Majestosa como o Queen. Diva como Freddie sem, no entanto, tentar imitá-lo ou preencher o seu lugar. Lembram-se do que eu disse sobre Paul Rodgers? Um convidado do Queen? Pois bem, Adam também é convidado do Queen. Ele sabe que sua passagem pela banda é temporária. Ele sabe que aquele lugar, ali, de liderança, teve apenas um dono. Por saber de tudo isso tão bem, nunca teve a mínima pretensão de ser Freddie. Daí se dar o direito de ser beesha demais, afetada demais...e foda-se se o Freddie não era assim. Adam não estava ali para ser Freddie Mercury. Estava ali para ser Adam Lambert.

E ele brilhou, divou.

Adam merece todo o meu respeito e carinho por ter me possibilitado viver meu sonho.

Valeu a pena esperar 30 anos. Valeu a pena cada dia sonhado e esperado.

Obrigada, Queen! Obrigada, Adam Lambert!

terça-feira, 21 de julho de 2015

Corra que Isabel Trovão vem aí...


Um casarão abandonado.
Pelo chão, apenas a poeira escura, vinda da atividade siderúrgica que impulsionava a cidade.
Nenhuma cama, nenhuma mesa, nenhuma roupa, nada que indicasse vida ali.
Só a poeira escura...
Pela porta entreaberta, eu via a casa que abrigou Isabel Trovão por alguns meses.
Um lugar abandonado...sem vida...empoeirado...escuro...
- Isabel Trovão vem aí...ela vai te pegar.
Era assim que os adultos de Sete Lagoas nos ameaçavam, quando teimávamos em não obedecê-los.
Minhas férias, na casa da minha avó, eram assombradas pela figura de Isabel Trovão.
E agora eu estava ali, a um passo de conhecer o lugar onde a estranha figura vivia...ou se escondia.
Haveria algo mais que o vazio naquela casa?
Um passo...
- Isabel Trovão vem aí.
...o passo seguinte...
-Ela vai te pegar.
...mais outro passo...
- Isabel Trovão vai te pegar.
E assim, entre a curiosidade, que me fazia avançar, e o medo, que me paralisava, eu invadi o casarão. Eu, uma menina de oito anos, curiosa e morta de medo.
Um casarão vazio, abandonado, sem sinal de vida...empoeirado.
- O que você quer aqui, menina?
Eu me virei. Era ela. Isabel Trovão. Ela acabara de chegar. Ela, a dona da casa. Eu, a invasora.
- Olha, por favor, não faça nada comigo. Deixa eu voltar pra casa da minha avó – implorei.
- E por que eu faria algo com você? – ela indagou, já se aproximando.
- Porque você é louca.
- Quem lhe disse?
- Todos dizem.
- Todos quem?
- Os adultos.
- Ah, os adultos...
- O que tem os adultos?
- Eles dizem coisas demais.
- Você não é louca?
- Me diga você. Acha que sou louca?
- Acho que sim – respondi, meio atrevida. - Você anda sozinha pelas ruas.
- E desde quando solidão é loucura?
- Onde está sua família? – perguntei.
- Não me lembro.
- Como não se lembra?
- Há histórias que devemos esquecer.
- E seu filho?
- Que filho?
- O que morreu, quando nasceu. É por isso que dizem que você enlouqueceu.
- Contam isso sobre mim? – Riu Isabel.
- Você não teve um filho?
- Talvez.
- Como talvez?
- É essa a história em que você acredita? Ela te faz me compreender? Então, não vou tirá-la de você.
- Mas eu quero saber a verdade – insisti.
- E por quê?
- Porque você não me jogou pedra até agora, nem me colocou num saco. Você é mesmo quem dizem que é?
- Eu não faço maldade com ninguém – disse, docemente, Isabel Trovão.
- Dizem que você joga pedra nas crianças. Várias pessoas já viram.
- São elas que me apedrejam primeiro. Eu apenas me defendo.
- E o saco nas costas?
- É onde carrego tudo que tenho na vida.
- Mas por que fala sozinha pelas ruas?
- Não tenho ninguém com quem conversar. Então, converso com Deus.
- E por que não desmente todas as histórias que contam sobre você? Por que deixam te chamar de louca?
- É assim que vivo...De histórias que criam sobre mim. O filho morto...a loucura...são histórias que me preenchem, que me fazem ser alguém. A minha história, a minha história mesmo, a verdadeira...não me torna alguém.
Eu entrei naquele casarão, tomada pelo medo e a curiosidade. Isso é verdade.
Mas o encontro entre mim e Isabel Trovão nunca aconteceu. Hoje, lamento esse não encontro.
Isabel Trovão se tornou uma personagem lendária de Sete Lagoas.
Sua história são muitas. Os não encontros e os desencontros jamais nos deixarão saber quem foi Isabel.
Isabel.
Apenas Isabel.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A história insiste em se repetir

Por Romyna Lanza

O povo elege seu representante para a Presidência pela maioria dos votos. A classe dominante não aceita o resultado e, junto com a mídia, inicia uma campanha agressiva para derrubar o novo governo. Acusações de que o Brasil estaria aliado a países socialistas da América Latina são apenas algumas das armas adotadas pela grande imprensa para manipular a opinião pública. Petrobras em foco. Explode um dos maiores escândalo de corrupção do país. Nasce o discurso “o governo defende ladrões e vagabundos”, referindo-se aos trabalhadores que, enfim, conquistaram um salário mínimo digno. Pedidos de impeachment e ameaças de golpes militares são desencadeados.

Não, esse texto não é sobre o governo Dilma Rousseff. É sobre Getúlio Vargas.

10 de novembro de 1937: em cadeia nacional de rádio, o presidente Vargas anunciou a implantação do Estado Novo.

Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Vargas se apresentava, ali, como o homem que protegeria o Brasil da ameaça comunista que aterrorizava o mundo. A postura de Vargas tranquilizou grande parte da população brasileira, que se acomodou sob as asas do grande protetor.

Contudo, entre as políticas de resistência ao comunismo, estava a censura à imprensa. A Constituição de 1937, outorgada por Vargas, previa, em seu artigo 15, “a censura prévia da imprensa, do teatro, do cinematógrafo, da radiodifusão, facultando à autoridade competente proibir a circulação, a difusão ou a representação; [...] é assegurado a todo cidadão o direito de fazer inserir gratuitamente nos jornais que o informarem ou injuriarem, resposta, defesa ou retificação; é proibido o anonimato; a responsabilidade se tornará efetiva por pena de prisão contra o diretor responsável e pena pecuniária aplicada à empresa”.

As consequências da censura seriam sentidas, anos mais tarde, pelo próprio Vargas.

Doze anos após, em 1949, o jornalista Samuel Weiner, dos Diários Associados, foi designado para fazer uma reportagem especial sobre a produção do trigo no Rio Grande do Sul. Os caminhos dos pampas gaúchos o levaram até a fazenda em que o já ex-presidente Getúlio Vargas se refugiava desde a queda do Estado Novo, em 1945.

A entrevista causou grande repercussão. Vargas anunciava que voltaria ao poder “nos braços do povo”, referindo-se às eleições presidenciais que disputaria no ano seguinte.

A promessa se cumpriu e Vargas foi reconduzido, pelos braços do povo, à Presidência, em 03 de outubro de 1950.

Aqui, começa a história do Última Hora, jornal comandado por Samuel Weiner, da guerra da mídia contra Vargas e de um dos maiores golpes contra um presidente do nosso país.

O Última Hora tomou as bancas do Rio de Janeiro em junho de 1951. A novidade não estava apenas no nascimento do jornal, mas também na diagramação moderna, nas manchetes fortes e chamativas, nas fotografias que ocupavam amplamente as páginas, nas cores que imprimiam personalidade ao veículo, na linguagem simples e direta e, principalmente, no apoio ao governo Vargas.

O projeto do Última Hora surgiu no primeiro encontro de Vargas com Wainer, que acabaram se tornando amigos pessoais.

Vargas pressentia que enfrentaria uma imprensa furiosa, que se uniu, ainda durante a campanha, contra sua eleição. O ódio, inicialmente, era resultado da censura sofrida com a Constituição de 1937. Assim, precisaria de um jornal que enfrentasse a grande mídia e o apoiasse. Essa era a função do Última Hora.

No início do seu mandato, o presidente enfrentava a “conspiração do silêncio midiático”, predominante nos principais veículos de informação do país, entre eles, Diários Associados, Correio da Manhã, O Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil. 

Entretanto, o silêncio deu lugar a uma barulhenta campanha contra Vargas. Agora, além da censura ainda não digerida, a mídia era também movida pelos interesses da classe dominante que a financiava, inconsolável com a vitória do presidente eleito democraticamente com 48% dos votos.

A disputa pela Presidência, num Brasil democrático, que deveria ter se encerrado em 03 de outubro de 1950, quando a maioria do povo brasileiro escolheu Vargas, estava longe de terminar.

O golpe havia se iniciado antes mesmo do resultado eleitoral: “O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”, defendeu o jornalista Carlos Lacerda, udenista histórico, durante a campanha presidencial, no jornal Tribuna da Imprensa.

Com o discurso pré-eleitoral de Carlos Lacerda, nasceu a mais agressiva campanha midiática contra um governo já vista no país...até então.

Algumas armas usadas pela mídia se baseavam em denúncias tais como:

- Vargas, o “pai dos pobres”, o presidente que possibilitou a criação da CLT, estaria traindo os compromissos firmados com a classe trabalhadora.

- O presidente estaria planejando fechar o Pacto ABC – Argentina, Brasil e Chile. Naquela época, a Argentina era governada por Juan Domingos Perón, acusado pelos EUA de implementar uma república sindicalista em seu país. O simples diálogo com Perón significava o risco da invasão comunista no país.

“O petróleo é nosso”

Mas o golpe maior, Vargas sofreria ao contrariar os interesses EUA de explorar, sozinhos, o petróleo brasileiro, criando a Petrobras.

Em 1953, o governo brasileiro iniciou a campanha pela nacionalização total do petróleo com a criação da estatal. O Estado monopolizaria a perfuração e o refino do petróleo. A distribuição ficaria a cargo das empresas privadas. Desta forma, Vargas oferecia duros obstáculos aos planos dos EUA.

Com manchetes como “Vargas convoca o povo para a campanha de libertação” e “Governo e povo derrotam os monopólios”, o Última Hora destacou a preocupação e o foco do governo no desenvolvimento do país e no povo brasileiro. Mais do que isso: indicou que Getúlio estava disposto a enfrentar a guerra contra o monopólio internacional do petróleo.

Com a Petrobras e a política nacionalista em pauta, a sociedade se dividiu. De um lado, populares apoiavam Vargas. Do outro, mídia, elite, empresariado, militares e EUA se recusavam a perder os privilégios de exploração dos trabalhadores e da riqueza do Brasil.

A maior surpresa, no entanto, partiu da UDN, o mais forte partido oposicionista da época, quando alguns dos seus partidários declararam apoio às medidas de Vargas.

Com isso, a crise se aprofundou, enfurecendo, ainda mais, Carlos Lacerda, também da UDN.

Insatisfeito não só com o sucesso do Última Hora, como também com o apoio que ele oferecia a Vargas, principalmente, no caso da Petrobras, Carlos Lacerda acusou Samuel Wainer de se beneficiar de um empréstimo do Banco do Brasil para montar o jornal.

O que, na época, era uma operação de rotina entre o BB e as grandes empresas de comunicação se transformou num dos maiores escândalos de corrupção já vistos no Brasil, tudo cuidadosamente orquestrado pela imprensa oposicionista.

Uma CPI foi instaurada no Congresso para investigar o caso, em 1953. Nada de ilícito no empréstimo do BB a Wainer foi encontrado.

Naquele mesmo ano, João Goulart, um dos líderes políticos do PTB – partido do presidente -, foi nomeado ministro do Trabalho.

A inflação acabara de atingir índices alarmantes: 12% em 1951/1952. Para recompensar as perdas salariais dos trabalhadores, Vargas decidiu aumentar o piso salarial.

No ano da nomeação de Goulart, a inflação chegou a 20%. Goulart e Vargas dobraram o salário mínimo, enfrentando, mais uma vez, os reais inimigos dos trabalhadores brasileiros. A medida aqueceu a economia interna, porém irritou as multinacionais e os militares.

Para cada medida voltada para a população, uma reação da oposição.

Surgiu, então, o “Manifesto dos Coronéis”, que acusava Vargas de enfraquecer o Exército, ao desvalorizar os militares, concedendo aos trabalhadores piso salarial equivalente ao que recebiam. O presidente, que em 1937 protegeu o Brasil da ameaça vermelha, agora, era tachado de comunista.

Ainda como reação à valorização do salário mínimo, a oposição pediu o impeachment do presidente. Porém, ele tinha a maioria no Congresso. E o mais importante: não havia nada que justificasse, legalmente, seu afastamento. Assim, permaneceu no cargo, por mais dois meses, quando se suicidaria.

Como se não bastasse toda a crise, Carlos Lacerda sofreu um atentado na rua Toneleiros, Zona Sul do Rio, no dia 05 de agosto de 1954. O jornalista sobreviveu, porém seu guarda-costas, o major aviador Rubens Florentino Vaz, foi atingido mortalmente.

O assassinato foi logo atribuído a Vargas: “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas”, bradou Lacerda um dia após o atentado.

Na época, foi constatado o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, no crime.

Imediatamente, foram deflagrados novos protestos pedindo a cabeça de Vargas. Desta vez, em manifesto da Aeronáutica e, logo após, também da Marinha.

Exército, Marinha, Aeronáutica, mídia e empresários contra Vargas. E o povo que o elegera ao seu lado.

Para evitar a guerra civil, Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na história em 24 de agosto de 1954.

Na medida em que as rádios anunciavam a morte de Vargas, a população reagia.

As ruas foram tomadas pela comoção popular.

Parte do povo invadiu veículos de comunicação em protesto contra os golpistas que levaram o presidente à morte.

Nos 60 anos do suicídio de Vargas, Janio de Freitas, repórter que cobriu a morte do presidente, relembrou, na sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o papel da mídia na tragédia: “Getúlio ficou indefeso, objeto de um ódio coletivo que se propagava sem limites: monolíticos, a imprensa, a incipiente TV e o rádio, mais do que se aliarem à irracionalidade, foram seus porta-vozes sem considerar as previsíveis consequências para o Estado de Direito". (veja artigo aqui)

Em 2015, a história insiste em se repetir.

Assim como aconteceu com Vargas, no seu segundo mandato, a classe dominante se recusou/ se recusa a aceitar o resultado das eleições de 26 de outubro de 2014, quando Dilma Rousseff foi eleita presidente com 54 milhões de votos.

Os veículos de comunicação iniciaram uma campanha para derrubar a presidente eleita pelo povo, num Brasil democrático, já na campanha presidencial. O episódio mais marcante ficou por conta da revista de maior circulação do Brasil, que transformou em panfleto partidário oposicionista sua capa, apenas um dia antes do segundo turno das eleições presidenciais. A capa trazia denúncias inócuas, até hoje não comprovadas, contra a presidente, baseadas apenas em especulações, contrariando toda lógica e ética jornalísticas.  

As medidas voltadas para a população miserável e de baixa renda são tachadas de “políticas para sustentar vagabundos”, ignorando todos os avanços que programas sociais como o Bolsa Família proporcionaram ao país. Dê-se a isso o nome de “IGNORÂNCIA” e “DESINFORMAÇÃO”.

Qualquer diálogo com países de cunho socialista, como Cuba, torna-se motivo para se instaurar o temor da ameaça comunista. A isso, não posso dar outro nome que não seja “IGNORÂNCIA”...novamente ela.

A Petrobras é apedrejada e desqualificada pela oposição, fortalecida pela grande mídia, numa tentativa de desvalorizá-la e ceder aos interesses do capital estrangeiro. Em 27 de fevereiro deste ano, o senador José Serra (PSDB) concedeu entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, quando assumiu a intenção da oposição em entregar a estatal: “A Petrobras deveria ser dividida em empresas autônomas e uma holding. Aí, em cada caso, ou você vende, ou você abre o capital. [...] Eu estou estudando esse assunto todo. Até para poder fazer, no Senado, daqui um mês mais ou menos, uma proposta a respeito dos rumos da Petrobras. Vou apresentar como contribuição para o debate”. 


Por fim, em 2015, tal qual aconteceu com Vargas, em seu segundo mandato, o desejo de impeachment de uma minoria tenta se impor. A exemplo de Vargas, o PT, partido da presidente Dilma Rousseff, possui o apoio da maioria da população. E uma eventual queda pode, sim, significar a eclosão de uma guerra civil. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Hoje, encerro um ciclo de oito anos no TJ Minas

"A senhorinha, que acabara de entrar no Fórum Desembargador José Félix, em Sete Lagoas, me chamou a atenção pela extrema simplicidade, o olhar vazio, desesperançoso.
O contraste era o netinho, que ela trazia consigo. Sorridente, falante, serelepe.
Eu fui a primeira pessoa que ela viu. Naquela época, eu, uma novata no Tribunal de Justiça de Minas, trabalhava no Protocolo, a porta de entrada do fórum setelagoano.
Ela me mostrou os papéis que segurava. Perguntei qual era a sua dúvida. Mal consegui ouvir sua voz. Muito baixa. Além do mais, ela sempre virava o rosto, desviando seu olhar do meu. O olhar vazio olhava para o nada.
Descobri que ela precisava pagar a multa do filho, parte da pena resultante de uma condenação penal por roubo.
Eram três os lugares a serem percorridos: Central de Guias, Vara de Execuções Penais e, finalmente, Banco do Brasil, ali, dentro do fórum mesmo.
Ensinei os caminhos.
Ela permaneceu imóvel na minha frente.
Entendi que minha explicação fora inútil.
Resolvi acompanhá-la em sua jornada.
O misto de simplicidade e timidez não a deixava conversar comigo. Não consegui saber nem seu nome. Assim, eu, uma tagarela, resolvi respeitar seu silêncio. Apenas a acompanhei e, claro, brinquei com o menino serelepe.
Retirei a guia, peguei a assinatura e o carimbo do escrivão da VEP e a deixei no caixa do BB.
No mês seguinte, ela voltou a me procurar.
Novamente, Central de Guias, VEP e Banco do Brasil.
Isso se repetiu pelos dois meses que se seguiram até que, certo dia, minha colega, a Débora, que trabalhava na Central de Guias/Distribuição, me disse:
- A senhorinha com o netinho veio aqui, ontem, te procurar, mas você não estava. Eu a acompanhei até a VEP e ao banco.
Falei:
- Não precisava, ela já sabe o caminho.
A Débora, mais velha de Tribunal que eu, me respondeu:
- Sim, ela sabe. Mas você não percebeu que o que ela quer é a companhia, a atenção, o carinho?
Foi então que defini que minha passagem pelo Tribunal de Justiça teria que fazer a diferença com a população que eu atenderia. Não deixaria ninguém sair dali sem resolver o que precisasse ser resolvido, não deixaria ninguém passar por um mau atendimento, não deixaria ninguém ser desrespeitado.
Em quase oito anos de varas criminais e infrancional e cível da infância e juventude, tive contato direto e diário com a população mais carente e sofrida de Sete Lagoas e Belo Horizonte.

As únicas experiências felizes possíveis num fórum são as adoções e as guardas. Aliás, minto. Até mesmo em casos de adoção e guarda, há uma história triste por detrás, uma história de abandono, de negligência ou de violência.
É impossível ter qualquer alegria numa vara criminal ou infracional de crianças e adolescentes.
Nem mesmo a liberdade significa alegria. Conquistar a liberdade significa que alguém estava preso. E essa prisão, certamente, destruiu a vida daquele preso e dos seus familiares.
Conquistar a liberdade significa que alguém estava preso por cometer um crime contra outro alguém, no caso, uma vítima.
Numa vara criminal e infracional de crianças e adolescentes, todos são vítimas.
Hoje, encerro um ciclo de quase oito anos de Tribunal de Justiça.
Deixo o Tribunal para trabalhar na assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com o Sávio Souza Cruz.
Se, por um lado, estou extremamente feliz pela nova etapa profissional, por outro, estou com o coração DES-PE-DA-ÇA-DO por abandonar a população sofrida de BH e, claro, por deixar meus colegas.
Foram muitas as histórias, foram muitas as amizades e, principalmente, foi muito o aprendizado.
Não foi fácil, em 2013, deixar a comarca de Sete Lagoas para voltar para BH. Fiquei com medo de não encontrar uma equipe tão legal, tão profissional, por não conquistar amigos entre os meus colegas, como aconteceu naquela comarca.
Mas foi muito fácil quando, no meu primeiro dia, de volta a Belo Horizonte, fui recepcionada tão carinhosamente pela nova equipe.
Logo depois da minha chegada, enfrentei a doença e morte da minha mãe. E o apoio foi INCONDICIONAL.
E esse apoio incondicional se repetiu, nos últimos dois anos e meio, em momentos de crises. Apoio incondicional e recíproco.
Deixo o Tribunal com a certeza de que vou deixar saudade também. Pude ter essa certeza vendo as lágrimas dos colegas,ouvindo as palavras de carinho, recebendo homenagens com festinha surpresa, flores e cartões e, principalmente, pude ter essa certeza sentindo cada um dos abraços.
Mas não, não pretendo voltar tão cedo, apesar de tudo. Um novo desafio profissional está aí e pretendo vencê-lo. Deixem-me quietinha na Semad.

PS. A senhorinha me marcou tanto que foi sobre ela que escolhi escrever na minha despedida - temporária; ou não - do Tribunal. Ela me fez um bem imenso. Uma lição de vida para mim.