segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Encontro marcado

O encontro estava marcado desde aquela noite de 12 de janeiro de 1985, quando Freddie, Roger, Brian e John pisaram no palco do festival que entraria para a história como um dos maiores espetáculos de rock de todos os tempos.

Eu não vi o Queen naquela noite. Não ao vivo. Meus 13 anos foram o obstáculo que me impediram de participar do coral de 180 mil (ou seriam 240 mil?) vozes que acompanhou Freddie Mercury em “Love of my life”.

Naquele momento, prometi: “um dia, estarei ali, com Freddie”.

Mas em 24 de novembro de 1991, meu sonho ruiu.

Freddie havia partido.

Em 2005, “the champions” estavam de volta. Roger e Brian haviam retomado a banda e, junto com Paul Rodgers, excursionaram pelo mundo.

Não me lembro de quando a turnê “The return of the champions” chegou ao Brasil.

Prestem bem atenção no que acabei de dizer: eu, fã apaixonada do Queen, não me lembro de quando a turnê “The return of the champions” chegou ao Brasil.

O sonho, que deveria ter renascido ali, simplesmente, continuou apagado.

Paul Rodgers, roqueiro experiente da banda Bad Company, convidado do Queen para dividir o palco com Brian e Roger, por um breve período, manteve a banda onde ela estava há 14 anos: adormecida.

Novamente, prestem atenção no que acabei de dizer: Paul Rodgers, convidado do Queen, simplesmente, para dividir o palco com Brian e Roger, por um breve período. Vou falar sobre isso mais adiante.

Voltando à passagem do Queen pelo Brasil, nenhuma histeria, nenhuma paixão.

Nem mesmo Brian e Roger foram suficientes para me fazer voltar a sonhar e suspirar.

Paul Rodgers era um vocalista normal demais, certinho demais, igual demais a centenas de roqueiros que estão por aí no mundo.

Queen sempre foi uma banda demais: grandiosa demais, majestosa demais, viada demais. E Paul Rodgers estava deslocado demais. Competente, talentoso, mas deslocado.

O Queen passou pelo Brasil e passou por mim sem a grandiosidade a que estávamos acostumados.

E aí, alguns anos mais tarde, veio Queen + Adam Lambert.

Adam quem? Foi o que me perguntei quando ouvi o nome do rapaz pela primeira vez.

Quando vi as duas lendas do Queen, Brian e Roger, com o novato Adam, tive vontade de morrer.

- Que beesha afetada! Tem que ser menos para acompanhar o Queen. Freddie não era assim. Isso não se encaixa ao Queen.

Fiquei indignada. Mas, indiferente, não. Alguma coisa renasceu em mim, naquele momento: o sonho...o sonho de me encontrar com a banda e fazer parte do coral de milhares de vozes de “Love of my life”.

Voltei a planejar o encontro.

Mandei inúmeras mensagens para Roger e Brian, nas redes sociais, em 2014, dizendo “vejo vocês no Brasil no ano que vem”. Era uma certeza que eu tinha.

Veio a notícia: “confirmado. o Queen volta ao Rock in Rio, em 2015”.

O encontro marcado há 30 anos estava prestes a acontecer.

E aconteceu. Não como eu queria, com Freddie à frente da banda.

A frustração, confesso, não foi pouca, não.

Passei quatro músicas, literalmente, no chão. Não era só cansaço físico. Era o vazio de não ter o Freddie.

Eu só conseguia pensar: “o que eu estou fazendo aqui sem o Freddie? que banda é essa? isso é um cover, e não a banda que eu amo”.

Passada a tristeza absoluta do vazio que o Freddie deixou em mim – ele é uma das três pessoas que perdi, ao longo da vida, e que levaram um pedaço de mim -, passado o cansaço físico que só quem já enfrentou a maratona chamada Rock in Rio sabe exatamente como é, eu voltei a pensar na noite da última sexta-feira.

O Queen estava no palco. A banda que representa o que há de mais importante na minha vida estava ali na minha frente. Não era cover porra nenhuma. Era o Queen.

Eram Brian e Roger, duas feras, dois gigantes, um da guitarra e o outro da bateria.

Era o John Deacon presente com “Another one bite the dust” ou “I want to break free”.

Era Freddie regendo o público, mesmo 24 anos após sua morte. Tudo que fizemos ali, o coro em “Love of my life”, as palmas em “Radio Ga Ga” ou em “We will rock you”, o “quirô rê rê” (ou sei lá como se escreve isso) de “Under pressure” e o coro desafinado de “In the lap of the gods”, tudo isso aprendemos com Freddie. E nós não nos esquecemos.

O Adam? Uma rainha. Majestosa como o Queen. Diva como Freddie sem, no entanto, tentar imitá-lo ou preencher o seu lugar. Lembram-se do que eu disse sobre Paul Rodgers? Um convidado do Queen? Pois bem, Adam também é convidado do Queen. Ele sabe que sua passagem pela banda é temporária. Ele sabe que aquele lugar, ali, de liderança, teve apenas um dono. Por saber de tudo isso tão bem, nunca teve a mínima pretensão de ser Freddie. Daí se dar o direito de ser beesha demais, afetada demais...e foda-se se o Freddie não era assim. Adam não estava ali para ser Freddie Mercury. Estava ali para ser Adam Lambert.

E ele brilhou, divou.

Adam merece todo o meu respeito e carinho por ter me possibilitado viver meu sonho.

Valeu a pena esperar 30 anos. Valeu a pena cada dia sonhado e esperado.

Obrigada, Queen! Obrigada, Adam Lambert!