Por Romyna Lanza
Adriano (*) me mostra os papéis que acabara de receber de um dos defensores públicos. “Tem um mandado de prisão em aberto contra mim. Acabei de saber. O defensor disse que tem como resolver”.
Adriano (*) me mostra os papéis que acabara de receber de um dos defensores públicos. “Tem um mandado de prisão em aberto contra mim. Acabei de saber. O defensor disse que tem como resolver”.
Respira fundo, e confessa: “Mas eu não sei se quero resolver. Lá, na prisão, eu tenho tudo”.
Eis o impasse. Escolher entre o menos doloroso – as ruas ou o presídio. Naquele instante, me deparo com uma realidade muito distante da minha. Minhas dúvidas sempre se restringiram a qual o melhor emprego para se aceitar, em qual bairro viver, que roupa vestir, o que fazer para o almoço.
Adriano não pode, nem ao menos, escolher o que almoçar. Nas ruas, não há opção. Come-se o que lhe oferecem. E se agradece por isso.
Hoje, com 28 anos de idade, Adriano é morador de rua desde os 15.
Como não tem endereço fixo e não foi encontrado para as intimações judiciais, sua prisão foi decretada.
“Você prefere mesmo o presídio às ruas?”, pergunto.
Mais uma vez, respira fundo:
“Sim, prefiro. Lá, tenho comida na hora certa, tenho lugar para tomar banho, tenho um colchão para dormir. Na rua, vivo com medo o tempo inteiro. As pessoas nos batem, tacam fogo, ameaçam...na maioria das vezes, por pura diversão. Acham divertido nos bater. Riem disso”.
E provoca:
“Eu desafio qualquer um a passar um dia, um dia apenas nas ruas para saber a que nos sujeitamos ali”.
Adriano foi expulso de casa pelos próprios pais ao confessar sua homossexualidade. A rejeição foi imediata.
“Foi muito duro ouvir deles que preferiam ter um filho morto a ter um filho gay. Hoje, não nutro um nada de sentimento por eles. Nada”.
Um nada...ou talvez uma mágoa. Este é o sentimento que se vê nos olhos lacrimejantes e na voz embargada de Adriano, quando ele fala dos pais e do único irmão.
“Doeu muito ouvir tudo aquilo”, complementa.
Adriano tinha uma casa, uma família, comida na mesa, uma cama confortável, um chuveiro disponível para quantos banhos quisesse e precisasse, roupa limpa, amigos, uma escola.
Bastou a confissão, bastou se assumir como gay, para perder tudo. Agora, não tem mais nada. Adriano, um morador das ruas de BH.
De acordo com o levantamento feito pelo Center of American Progress, no final de 2014, 300 mil adolescentes gays expulsos de casa, pelos pais, nos EUA, após revelarem sua homossexualidade.
Os EUA apenas reproduzem a realidade desses jovens pelo mundo.
No Brasil, não há uma estatística que aponte quantos homossexuais encontram-se na mesma situação.
Porém, sabe-se que o quadro é assustador.
Segundo o Grupo Gay da Bahia, a cada 28 horas, um homossexual é assassinado no Brasil, tornando o país campeão mundial em assassinatos de homossexuais. Desses crimes, 70% ficam impunes: a polícia não consegue identificar os agressores.
Adriano conta que as ruas o deixam ainda mais vulnerável às agressões.
“A violência já é grande contra um morador de rua. Contra um morador de rua gay é ainda pior. A gente dorme sem saber se vai estar vivo no outro dia”.
Como qualquer outro menino que se vê obrigado a viver nas ruas, Adriano não chegou pronto para enfrentá-las. Ninguém chega. Nem uma criança, nem um adolescente, nem um homem ou mulher está preparado para enfrentar as ruas.
Ninguém chega também marginal. Ninguém chega já sabendo roubar ou matar. Ninguém chega viciado em drogas.
É tudo uma questão de sobrevivência.
“A primeira vez em que bati numa casa para pedir um prato de comida foi humilhante demais. Acho que foi a coisa mais humilhante que já me aconteceu na vida. A mulher olhou pra mim e disse ‘acha que vou dar comida pra marginal? vai trabalhar’. Eu não era um marginal, nunca fui. Eu era um garoto com fome”, relata.
A luta contra a fome é diária, não dá trégua.
Em Belo Horizonte, alguns restaurantes da área central doam aos moradores de rua a comida que sobra do almoço. Sempre às três da tarde. Até lá, Adriano sente fome. Nenhuma outra refeição antes desse horário. Muitas vezes, nenhuma outra refeição também depois desse horário. Um prato de comida é tudo o que se tem ao longo do dia.
Para matar a fome, as drogas. No caso de Adriano, o crack.
“Comecei a fumar crack porque foi a única forma que encontrei pra matar minha fome e diminuir minhas angústias”, relata.
Ele se expressa bem. Isso chama minha atenção logo no início. Comento. Pela primeira vez, o sorriso largo se abre: “obrigado. Eu estudei. Cheguei a completar o terceiro ano”.
Já vivendo nas ruas, conseguiu se formar no Ensino Médio: “quando fui expulso de casa, já estava matriculado numa escola. então, aproveitei a oportunidade”.
Para se manter na escola, pedia a amigos, maiores de idade, que se responsabilizassem por ele e fizessem sua matrícula no ano seguinte.
“Eu já tive sonhos. Eu queria me formar, ter uma profissão”.
A profissão que Adriano sonhava – e ainda sonha – em ter é a de cabeleireiro.
“Não tenho curso, mas sou melhor que muito ‘profissa’ por aí. Eu sei que sou. E tenho muito orgulho disso”.
Nos últimos 11 anos, Adriano passou por diversos salões de Belo Horizonte, onde trabalhou como assistente de cabeleireiro e manicure. “É raro ter manicure gay, né? As clientes me adoram”.
Mas para um morador de rua, se candidatar a uma vaga de emprego é ainda mais difícil do que para nós, cidadãos com endereço fixo. Para arrumar um emprego, Adriano tem que mentir:
“Eu decoro nomes de ruas de bairros afastados para citar durante as entrevistas de emprego. Assim, não tem como irem lá e conferir se moro realmente no lugar.Ninguém dá trabalho para um morador de rua. Não confiam na gente”.
Nos salões, nunca teve salário fixo ou carteira assinada. Ganhava comissões, insuficientes para pagar um aluguel. “O dinheiro só dá pra eu comer e comprar droga pra sustentar o meu vício”.
Adriano é um viciado em crack. Ele não esconde isso. Em julho de 2014, foi preso com algumas pedras da droga, na Praça da Estação, Centro de Belo Horizonte.
“As pedras estavam na minha cueca. Falei com a polícia. Eles me mandaram tirar tudo. Tirei minha calça e minha cueca. Isso, num domingo à tarde. Um monte de gente viu. Eu fique nu, na frente de todo mundo, em plena luz do dia. Fiquei morto de tanta vergonha. Eu tenho dignidade, sabe?”
As lembranças daquele dia ferem o seu orgulho. Ele repete, indignado:
“Fique nu. Em plena tarde, em pleno Centro de BH. Todo mundo viu”.
Já preso, foi encaminhado para a Delegacia, onde ficou por mais de 12 horas esperando ser levado, enfim, para o presídio. Durante todo aquele tempo, ficou sem se alimentar, sem ir ao banheiro, sem beber um copo d’água. “Foi exaustivo”, relembra.
“Rasparam seu cabelo, quando chegou ao presídio?”, indago. Todos os homens têm seus cabelos raspados, assim que entram numa unidade prisional.
“Não. Eles não raspam os cabelos dos gays. O tratamento é diferente”.
“Diferente”, pelo que entendi, seria um tratamento um pouco mais humano daquele dispensado aos presos héteros.
“Deixei bem claro que era gay. Pus minha roupa bem ‘mulherzinha’. Amarrei a blusa na cintura e deixe um ombro de fora”.
Há uma tentativa de se preservar a vaidade, tão cara aos homossexuais, e, de quebra, a identidade de cada um. Porém, uma tentativa insuficiente.
“A gente consegue se manter vaidoso. É difícil porque só temos sabão de coco. É sabão de coco para lavar o uniforme, sabão de coco para lavar o cabelo e sabão de coco para lavar o corpo. Ficamos com cheiro de sabão de coco o dia inteiro, todos os dias”.
Existe ainda a dificuldade para se barbear. Lâminas não são permitidas nas prisões. Algumas poucas entram clandestinamente. Adriano conseguiu se barbear uma única vez, durante os 15 dias em que permaneceu preso.
“Tive que fazer uma permuta. Cortei o cabelo do dono da lâmina. Em troca, ele me deixou usá-la para fazer a barba. É assim que as coisas funcionam por lá: na base da permuta”.
No Ceresp Betim, presídio que recebe os presos provisórios, uma cela, isolada de todas as outras, é reservada aos homossexuais. No dia em que Adriano chegou, a cela estava vazia.
“Foi um alívio. Era minha primeira vez num presídio. Não sabia o que esperar”.
Foram dois dias de solidão até a chegada de novos detentos. Seis, no total. Seis detentos e uma cama.
“O mais antigo de cela fica com a cama. É essa a lei dos presídios. Como cheguei primeiro, eu tinha o direito de dormir na única cama que tínhamos. Os outros ficavam no chão. Mas eu ficava com dó e acabava dividindo a cama. Não sei ver um ser humano numa situação tão difícil e não fazer nada”.
Foram 13 dias no Ceresp Betim, numa normalidade que contrastaria com os dois dias em que permaneceu no presídio São Joaquim de Bicas, para onde foi transferido. Adriano sentiu medo quando soube da transferência.
Bicas é bem maior que o Ceresp. Há presos já sentenciados, em cumprimento de pena. São cinco ou seis celas exclusivas para homossexuais. Cerca de 14 pessoas dividem cada cela, com cerca de 4m².
Alguns dormem em camas, outros, em colchões. “Ninguém fica sem colchão”, explica o rapaz.
Há também celas exclusivas para homossexuais casados. Não se diferem em nada das demais. “É só para todo mundo saber quem é casado e respeitar. Não se pode mexer com os gays comprometidos”.
A maioria dos homossexuais que estão em Bicas foi presa por homicídio. “Há muito homicida. Não perguntei os motivos dos crimes. Não tive coragem. Mas gay, geralmente, é preso por matar o próprio homem. Briga de ciúme”.
O primeiro dia de Adriano no novo presídio foi também o mais difícil por que passou durante o encarceramento.
“Um dos presos, o que mandava na cela, cismou que o homem dele estava dando em cima de mim. Me ameaçou de morte. Disse que eu não acordaria no dia seguinte”.
Sem saber como agir diante da situação, Adriano se desesperou. Aos berros, na cela, desafiou: “me mata. Pode me matar agora. Não me ameace. Apenas faça”.
“Falei um monte pra ele e pra todo mundo que estava ali”, complementa.
Sentiu muito medo. Não sabia como seus colegas de cela reagiriam.
“Foi um risco que corri. Um risco imenso. Tinha que me impor, mostrar que não tinha medo. Mas tinha. Ainda fico apavorado ao lembrar o que passei naquele dia”.
Tanto o agressor quanto os demais detentos recuaram. Alguns poucos prestaram solidariedade a Adriano.
“Mesmo assim, continuei inseguro. Não conseguia dormir com medo de ser morto”.
Diferentemente do que acontece nas celas reservadas a homens e mulheres héteros, na ala dos homossexuais, o sexo rola a todo momento.
“Tem sexo o tempo todo. Ali mesmo, na frente dos outros presos”.
O rapaz também relata que muitos homossexuais escondem sua orientação sexual, sendo levados para as celas masculinas das prisões.
“Chega uma hora, que não aguentam mais. Sentem falta de sexo. Assim, acabam admitindo sua homossexualidade para serem transferidos para as celas gays”.
“Eu não transei com ninguém. Tinha medo da Aids”.
A incidência de HIV é alta nessa ala, segundo Adriano. E quase nunca há como se prevenir.
Preservativos são raros. Todos fornecidos por familiares dos presos, que os visitam com frequência.
“Eu era o único que não tinha família”, lamenta.
Não há assistência médica especial voltada para os portadores de HIV. Adriano não soube dizer se aqueles detentos já chegaram com o vírus da Aids no presídio ou se contraíram a doença depois de encarcerados.
Após dois dias em Bicas, veio o alvará de soltura...a liberdade e, com ela, o reencontro com a família.
O primeiro desde que saiu de casa. Uma tentativa de buscar conforto.
Adriano me mostra uma cicatriz no braço direito.
“Tá vendo isso aqui? Foi o resultado do meu encontro com minha mãe e meu irmão. Eu e meu irmão discutimos feio. Partimos para as vias de fato”. E enfatiza: “não tenho nenhum sentimento mais por eles”.
O rapaz se despede, não sem antes me contar sobre sua escolha.
“Tenho que ir. Acho melhor resolver o problema do mandado de prisão, né? Não suportaria enfrentar novamente um presídio (**)”.
(*) O nome é fictício, a pedido do entrevistado.
(**) Acompanhei o caso por mais uma semana. Adriano resolveu o problema com a Justiça e teve seu mandado de prisão revogado.