terça-feira, 27 de outubro de 2015

O meu muro branco...ou sobre depressão e a falta que o colo da minha mãe me faz

Vou contar a historinha que ouvi da jornalista e escritora mineira Leila Ferreira, durante uma palestra no Tribunal de Justiça.

Confesso que fui com má vontade àquela palestra. Disseram que seria algo como uma autoajuda. E eu tenho minhas várias restrições a essa ajuda que nunca me ajudou em nada.

Mas não foi autoajuda que eu vi e ouvi. Muito menos uma palestra. Foi um relato intenso, que alternava dor e alegria, a medida que as lembranças também se alternavam.

A historinha que eu quero contar para vocês é justamente um episódio da vida da Leila: a história do muro branco. E que ela me perdoe e me corrija, se eu cometer erros.

A Leila foi fazer um mestrado na Inglaterra. Não me lembro do ano, nem de quanto tempo ela permaneceu na terra dos Beatles.

Lá, caiu em depressão. Recebeu toda a ajuda para se tratar. E se recuperou. Estava pronta para voltar pra casa. Mas, quando se preparava para o retorno, fez um teste na BBC e...passou. Ficaria mais um tempo ali, realizando o sonho de jornalista. Porém, a mãe, que ainda não sabia da “novidade BBC”, escreveu-lhe uma carta, dizendo que a esperava no Brasil.

Resultado: entre o sonho da BBC e o amor da sua mãe, ficou com este último. Retornou.

A mãe da Leila vivia numa casa muito simples, no interior de Minas....paredes descascadas, bem maltratadas pelo tempo.

Para recepcionar a filha, pintou o muro da casa, e somente a parte da frente, de branco. Ela não tinha dinheiro para pintar o restante do muro. Foi a maneira que encontrou para iluminar a chegada da Leila, que havia passado por um período tão duro de depressão.

Fim da historinha da Leila.

O vexame que dei no auditório do Tribunal, ao ouvir aquilo, por favor, não queiram saber. Chorei como criança. O porquê, não contei a ninguém.

Por isso, quero lhes contar uma segunda história, que é sobre mim, minha mãe e o nosso muro branco.

Eu passei por uma depressão muito violenta, no ano de 2009.

Não me perguntem detalhes sobre aqueles meses, pois não me lembrarei deles, tamanha a dor e a inconsciência em que eu me encontrava.

Na depressão, eu só conseguia me perguntar “por que ainda estou viva?” Porque, na depressão, dói viver. Dói diariamente. É um fardo acordar e se levantar da cama. É um desafio ter que conviver com outras pessoas. É insuportável lidar com coisas banais como tomar um banho, pentear os cabelos ou se alimentar.

A intolerância da ignorância que não entende a doença torna tudo ainda mais difícil.

Nenhum exame de sangue acusa a depressão. Nenhum raio-x, nenhuma tomografia, nenhuma ressonância magnética, nada, enfim, indica “você está com depressão”. Depressão não é um problema físico, fácil de ser detectado. É um problema psicológico e emocional.

Assim, sua dor, aos olhos da ignorância, torna-se loucura ou até mesmo “piti”.

Qualquer pedido de socorro é visto como histeria.

Mas minha mãe não era uma ignorante. Ela sabia que eu, a sua filha, não era louca, “pitizenta” ou histérica. Eu estava deprimida.

Uma das poucas coisas que me lembro daquele período é que eu ficava, por horas, sentada no chão do meu banheiro. Eu só chorava.

Minha mãe ficava ao meu lado, sentada no mesmo chão frio. E dizia: “Rô, isso vai passsar...isso passa” e “eu te amo, minha filha”.

Quando eu me cansava daquele chão, ela, já mais velha, me apoiava até que eu conseguisse chegar à minha cama. E de lá só saía depois que eu adormecia.

Naquele ano de 2009, nós morávamos numa casa que, assim como a da Leila, tinha paredes descascadas, maltratadas pelo tempo. Não tínhamos dinheiro para a reforma. A perda do meu pai, tempos antes, nos deixou em dificuldades financeiras.

A reforma seria um luxo pra gente. Aquelas paredes me incomodavam. Não gostava daquela casa com paredes tão feias.

Um dia, em meio a uma crise, escrevi, numa das paredes do meu quarto, bem grande “quero morrer”.

Fui me recuperando aos poucos, bem aos poucos.

Em outubro do mesmo ano, resolvi fazer uma viagem com a minha filha, a Ana Luísa. Fui para a casa da minha irmã mais velha, a Cláudia, que morava em Búzios. Foram exatos 17 dias.

Voltei mais forte.

E, na volta, a surpresa: o meu quarto estava todo pintado de branco. As paredes descascadas e gastas deram lugar a paredes lisas e branquinhas, do jeito que eu gostava. E só o meu quarto estava pintado. Assim como a mãe da Leila, ela não tinha dinheiro para pintar o resto da casa. Ali estava o meu muro branco, a forma que minha mãe encontrou de apagar a dor que eu tinha vivido semanas antes e de levar um pouco de luz à minha vida.

Hoje, posso afirmar que o amor da minha mãe e o meu amor pela minha filha foram a minha saída para a escuridão e total desesperança em que eu me encontrava.

Amanhã, dia 28 de outubro, ela faria 79 anos.

Não sei se depois dessa vida existe outra, se a gente vai mesmo para algum lugar. Mas eu torço muito para que essa outra vida exista para que, um dia, eu possa ter, novamente, o colo da minha mãe.