Amanhã, vou ver um beatle. Pela segunda vez, na vida, vou ver um beatle. Isso não é pouca coisa, não. Isso é coisa pra caralho. É um beatle, um sonho de infância.
Quando eu era criança, eu tinha o sonho de ver os Beatles, assim, os quatro juntos, John, Paul, George e Ringo cantando "Here, there and everywhere" pra mim. E era sonho mesmo. Sonho daqueles inatingíveis.
Beatles... eu era criança...anos 1970... o mundo ainda não era globalizado como hoje. Tudo era difícil pacas.
Realmente, jamais vi os Beatles. Jamais vi os Beatles cantando "Here, there anda everywhere" ou qualquer outra música pra mim. O Mark Chapman tornou meu sonho no mundo não globalizado ainda mais difícil.
O canalha do Mark Chapman matou meu sonho. Se tem um cara que nunca vou perdoar nessa vida é o canalha do Mark Chapman. O cara passou como um meteoro acabando com o meu mundo.
E teve o canalha do câncer do George Harrison. Também não o perdoo.
Mas voltando ao amanhã... Amanhã, vou ver um beatle... um sonho... o Paul McCartney...e vou vê-lo ao lado da minha filha... um sonho do caralho.
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
domingo, 15 de outubro de 2017
Maria Líbia
Ela chegou absolutamente tímida na nossa turma. Não me lembro se aquela era a primeira vez que dava aula numa universidade, mas, pela postura retraída, acredito que sim.
Ela se sentou na mesa, com aquele jeito "nem aí pro mundo de ser", com as mãos cruzadas, e ficou absolutamente muda, olhando pra gente, sem saber o que dizer ou fazer.
Eu e o Alberto Santiago estávamos bem de frente pra ela e percebemos a situação.
Puxamos assunto.
- Oi! Você é a professora de radiojornalismo, né?
- Sim - respondeu monossilábica. Ela estava estática naquela mesa. Mal se movia.
- Como é seu nome?
- Maria Líbia.
E outros colegas, também percebendo a professora acuada, mas com uma aura bacana pra caramba - a Líbia não enganava ninguém, era puro anjo em forma de gente -, começaram a puxar papo.
E, assim, fomos nos tornando íntimos daquela professora que logo se tornou referência em rádio e TV pra toda a turma, pra todo o Prédio 13 da PUC. E, pra muitos, inclusive, pra mim, referência pra vida.
Último período. Líbia se tornara rápido, pela competência, profissionalismo, dedicação, coordenadora do curso de jornalismo.
- Líbia, nossa turma quer falar com você. Dá pra ir na nossa sala?
- O que vocês querem?
- Ah, tem um professor que não dá pra engolir. Como a PUC coloca um cara daqueles pra nos dar aula?
- É o terceiro professor que vocês vão tirar no último período do curso. Assim, vocês me matam do coração. Vou lá depois do intervalo.
E chega a Líbia na sala.
- Qual é o professor dessa vez?
- Você.
- Eu? O que tá acontecendo, gente? Que pegadinha é essa? Nem tô entendendo mais nada.
- A gente quer te convidar pra paraninfa da nossa turma.
E o choro veio fácil. De todo mundo, inclusive. A primeira turma da PUC de jornalismo para que ela deu aula também foi a primeira da qual ela foi paraninfa. Deu pra entender, gente?
Líbia se tornou uma grande amiga minha. Eu dizia que ela era minha madrinha no jornalismo. Era a ela que eu recorria pra me aconselhar antes de dar meus pequenos ou grandes passos na carreira. E até na vida.
Este ano, a Líbia nos deixou, em março, mês da mulher. Como mulher única, exemplo de vida, de luta, como referência para inúmeras de nós, filhas do prédio 13 da PUC, não poderia ser diferente.
Da Líbia, ficarão sempre as boas lembranças; as palavras certas; a simplicidade com que levava a vida, apesar da grandiosidade do ser humano que era.
E que sorte eu tive de termos nossos caminhos cruzados!
E que falta ela tá fazendo!
Ela se sentou na mesa, com aquele jeito "nem aí pro mundo de ser", com as mãos cruzadas, e ficou absolutamente muda, olhando pra gente, sem saber o que dizer ou fazer.
Eu e o Alberto Santiago estávamos bem de frente pra ela e percebemos a situação.
Puxamos assunto.
- Oi! Você é a professora de radiojornalismo, né?
- Sim - respondeu monossilábica. Ela estava estática naquela mesa. Mal se movia.
- Como é seu nome?
- Maria Líbia.
E outros colegas, também percebendo a professora acuada, mas com uma aura bacana pra caramba - a Líbia não enganava ninguém, era puro anjo em forma de gente -, começaram a puxar papo.
E, assim, fomos nos tornando íntimos daquela professora que logo se tornou referência em rádio e TV pra toda a turma, pra todo o Prédio 13 da PUC. E, pra muitos, inclusive, pra mim, referência pra vida.
Último período. Líbia se tornara rápido, pela competência, profissionalismo, dedicação, coordenadora do curso de jornalismo.
- Líbia, nossa turma quer falar com você. Dá pra ir na nossa sala?
- O que vocês querem?
- Ah, tem um professor que não dá pra engolir. Como a PUC coloca um cara daqueles pra nos dar aula?
- É o terceiro professor que vocês vão tirar no último período do curso. Assim, vocês me matam do coração. Vou lá depois do intervalo.
E chega a Líbia na sala.
- Qual é o professor dessa vez?
- Você.
- Eu? O que tá acontecendo, gente? Que pegadinha é essa? Nem tô entendendo mais nada.
- A gente quer te convidar pra paraninfa da nossa turma.
E o choro veio fácil. De todo mundo, inclusive. A primeira turma da PUC de jornalismo para que ela deu aula também foi a primeira da qual ela foi paraninfa. Deu pra entender, gente?
Líbia se tornou uma grande amiga minha. Eu dizia que ela era minha madrinha no jornalismo. Era a ela que eu recorria pra me aconselhar antes de dar meus pequenos ou grandes passos na carreira. E até na vida.
Este ano, a Líbia nos deixou, em março, mês da mulher. Como mulher única, exemplo de vida, de luta, como referência para inúmeras de nós, filhas do prédio 13 da PUC, não poderia ser diferente.
Da Líbia, ficarão sempre as boas lembranças; as palavras certas; a simplicidade com que levava a vida, apesar da grandiosidade do ser humano que era.
E que sorte eu tive de termos nossos caminhos cruzados!
E que falta ela tá fazendo!
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Filé em cinco atos
Ato 1
Mal pisei na cidade por onde moraria na próxima década, Filé, semifilhote de basset, chegou lá em casa com casinha e duas vasilhinha, uma pra ração e outra pra água, praticamente junto comigo.
- Casinha... vasilhinhas... huuuummm... - estranhou meu pai
Nem precisava ser uma mãe Dinah pra fazer a previsão:
- Isso só pode ser presente de grego.
Breno, meu amigo, que estava me doando o presente de gre..., quer dizer, o Filé, jurou que não. Filé era um doce, segundo ele.
Filé era um cachorro bravo pra cacete. E já se apresentou assim logo que chegou. Só eu e meu pai dávamos conta dele. Minha mãe e a Ana, ainda um bebê, só se aproximavam com muita cautela.
Os vizinhos tinham medo dele. Conheciam a fama de mau. E a fama circulava pelo bairro.
Ato 2
Três horas da manhã. Ele e a Luma, a pastora belga, aprontaram uma latição sem fim lá no fundo do nosso quintal. Um quintal imenso, maior que uns tantão de Jorge Aragão juntos.
Liguei pra polícia.
- Moça, não vou entrar aí de jeito nenhum - me falou o PM.
- Por que não?
- Tá louca?
- Não vai me dizer que cê tá com medo?
- Óbvio que tô.
- Mas PM não tem que cuidar da segurança da gente, prender ladrão etc.?
- Não tô falando de ladrão, não, moça. Tô falando daquele cachorrinho ali. Ele é bravo pra cacete. Não entro mesmo.
- Ah, porra. Me dá sua arma aí, que eu mesma vou lá.
- Ah, não dou arma não. Tá louca?
Nisso, os cachorros já estavam razoavelmente calmos, e a louca aqui foi no fundo do quintal ver o que tinha. Se tinha ladrão, já tinha fugido. E Filé fez o mesmo. Só que fugiu pro lado da PM, que enlouqueceu. Seis policiais. Foi cada um pro lado, fugindo da pestinha. Como meu pai estava por perto, ele não avançou em nenhum, mas correu de um lado pro outro, passando por debaixo da perna de todos. Meu pai, claro, só gargalhava, não se lembrava de mandar a pestinha entrar. Eu tive que dar um berro pro meu pai voltar ao normal e botar moral na situação.
Ato 3
Meu pai faleceu. Filé chorou junto comigo, enquanto eu passava o terno com que ele seria enterrado.
Ato 4
Eu e minha mãe resolvemos mudar de casa.
- Como vamos levar Filé? Ele não deixa ninguém encostar nele - perguntei pra minha mãe.
- Dá Rivotril pra ele - respondeu minha mãe.
Achei a ideia maravilhosa.
Dei quatro gotas. O cachorro adormeceu e o levamos pra casa nova. BRIN CA DEI RI NHA. O cachorro enlouqueceu e saiu pulando todas as janelas da casa. Tive que deixar o Filé pra trás. No outro dia, com o coração na mão, fui lá ver como ele estava. Quando parei o carro na porta de casa, e ele me viu, correu, pulou a janela do carro e começou a lamber meu rosto, algo que ele não fazia desde filhote. Fomos, enfim, pra nova casa.
Ato 5
Filé estava cada vez mais bravo. Resolvi doá-lo. Minha mãe estava idosa e minha filha tinha só sete anos. Deixei um anúncio no petshop, deixando bem claro o quanto ele era bravo. O mestre de obras de uma construção me ligou, dizendo que precisava de um cão bem, mas bem bravo pra vigiar a obra.
Eu disse: - ENCONTROU.
Ele e mais três pedreiros foram buscar Filé.
GAR GA LHA RAM quando viram aquela coisinha pequenininha.
CHO RA RAM quando tentaram pegar Filé.
20 minutos de tentativa para laçá-lo.
Lá se foi Filé. Meu coração ficou na mão. O companheirinho do meu pai tava indo embora. Era necessário.
No outro dia, 7h30 da manhã, campainha toca.
- Vim devolver o Filé. Ele não deixou um pedreiro sequer entrar na obra.
- Moço, não aceito devolução não.
Enfim, Filé ficou com um dos pedreiros. O cara tinha jeitão do meu pai. Eles se entenderam. Via os dois passeando pela Lagoa Paulino, a principal de Sete Lagoas, de vez em quando. Era uma festa, quando ele me via. Tava feliz.
Mal pisei na cidade por onde moraria na próxima década, Filé, semifilhote de basset, chegou lá em casa com casinha e duas vasilhinha, uma pra ração e outra pra água, praticamente junto comigo.
- Casinha... vasilhinhas... huuuummm... - estranhou meu pai
Nem precisava ser uma mãe Dinah pra fazer a previsão:
- Isso só pode ser presente de grego.
Breno, meu amigo, que estava me doando o presente de gre..., quer dizer, o Filé, jurou que não. Filé era um doce, segundo ele.
Filé era um cachorro bravo pra cacete. E já se apresentou assim logo que chegou. Só eu e meu pai dávamos conta dele. Minha mãe e a Ana, ainda um bebê, só se aproximavam com muita cautela.
Os vizinhos tinham medo dele. Conheciam a fama de mau. E a fama circulava pelo bairro.
Ato 2
Três horas da manhã. Ele e a Luma, a pastora belga, aprontaram uma latição sem fim lá no fundo do nosso quintal. Um quintal imenso, maior que uns tantão de Jorge Aragão juntos.
Liguei pra polícia.
- Moça, não vou entrar aí de jeito nenhum - me falou o PM.
- Por que não?
- Tá louca?
- Não vai me dizer que cê tá com medo?
- Óbvio que tô.
- Mas PM não tem que cuidar da segurança da gente, prender ladrão etc.?
- Não tô falando de ladrão, não, moça. Tô falando daquele cachorrinho ali. Ele é bravo pra cacete. Não entro mesmo.
- Ah, porra. Me dá sua arma aí, que eu mesma vou lá.
- Ah, não dou arma não. Tá louca?
Nisso, os cachorros já estavam razoavelmente calmos, e a louca aqui foi no fundo do quintal ver o que tinha. Se tinha ladrão, já tinha fugido. E Filé fez o mesmo. Só que fugiu pro lado da PM, que enlouqueceu. Seis policiais. Foi cada um pro lado, fugindo da pestinha. Como meu pai estava por perto, ele não avançou em nenhum, mas correu de um lado pro outro, passando por debaixo da perna de todos. Meu pai, claro, só gargalhava, não se lembrava de mandar a pestinha entrar. Eu tive que dar um berro pro meu pai voltar ao normal e botar moral na situação.
Ato 3
Meu pai faleceu. Filé chorou junto comigo, enquanto eu passava o terno com que ele seria enterrado.
Ato 4
Eu e minha mãe resolvemos mudar de casa.
- Como vamos levar Filé? Ele não deixa ninguém encostar nele - perguntei pra minha mãe.
- Dá Rivotril pra ele - respondeu minha mãe.
Achei a ideia maravilhosa.
Dei quatro gotas. O cachorro adormeceu e o levamos pra casa nova. BRIN CA DEI RI NHA. O cachorro enlouqueceu e saiu pulando todas as janelas da casa. Tive que deixar o Filé pra trás. No outro dia, com o coração na mão, fui lá ver como ele estava. Quando parei o carro na porta de casa, e ele me viu, correu, pulou a janela do carro e começou a lamber meu rosto, algo que ele não fazia desde filhote. Fomos, enfim, pra nova casa.
Ato 5
Filé estava cada vez mais bravo. Resolvi doá-lo. Minha mãe estava idosa e minha filha tinha só sete anos. Deixei um anúncio no petshop, deixando bem claro o quanto ele era bravo. O mestre de obras de uma construção me ligou, dizendo que precisava de um cão bem, mas bem bravo pra vigiar a obra.
Eu disse: - ENCONTROU.
Ele e mais três pedreiros foram buscar Filé.
GAR GA LHA RAM quando viram aquela coisinha pequenininha.
CHO RA RAM quando tentaram pegar Filé.
20 minutos de tentativa para laçá-lo.
Lá se foi Filé. Meu coração ficou na mão. O companheirinho do meu pai tava indo embora. Era necessário.
No outro dia, 7h30 da manhã, campainha toca.
- Vim devolver o Filé. Ele não deixou um pedreiro sequer entrar na obra.
- Moço, não aceito devolução não.
Enfim, Filé ficou com um dos pedreiros. O cara tinha jeitão do meu pai. Eles se entenderam. Via os dois passeando pela Lagoa Paulino, a principal de Sete Lagoas, de vez em quando. Era uma festa, quando ele me via. Tava feliz.
sábado, 7 de outubro de 2017
Ritual Joca arroz integral
Fiz arroz integral com cenoura pra mim e pro Joca. Comemos. Mas não foi assim tão simples "comemos", e pronto. O Joca teve todo um ritual.
Como foi o seu primeiro arroz integral, lembrei que tinha comprado umas vasilhinhas pra deixar no pet shop durante as férias que ele passou em Caetanópolis, enquanto eu passei férias em Funilândia.
Peguei a vasilhinha de comida e coloquei o arroz pra ficar tudo bonitim. O bichim, depois de um tempo, em que a comida já estava fria, disparou a latir.
Pensei:
- Malagradicido. Num gostô.
Fui lá ver, mas num era isso. O focinho não cabia na vasilhinha. E o pessoal do pet shop de Caetanópolis me entregou o bichim sem nem me avisar:
- sua anta, comprô vasilhinha pequenininha demais da conta, sô!
Então, coloquei o arroz na vasilhinha velha messss. O bichim comeu tudim. Dorô. Quis mais. Botei mais.
Disparou a latir. Tava quente. Esfriei. Latiu mais. Tava frio demais. Esquentei. Latiu. Esfriei. Tava frio. Esquentei. Latiu, rosnou... Apelei. Deixei lá.
- Ô Joca, tenha paciência de esperar esfriar.
Ele ameaçou a virar a vasilhinha com a pata pro arroz cair no chão.
Ameacei contar até três: UM... DOIS... E ele sabe o que acontece quando chego no três. Falo o nome dele completo: JOÃO CARLOS VALADARES LANZA JÚNIOR. Ele odeia o nome completo.
Recuou, fez cara de santo e esperou a comida esfriar.
Enfim, comeu a segunda vasilhinha com o arroz. Alimentação saudável a partir de hoje pro idosinho cardíaco da casa.
Como foi o seu primeiro arroz integral, lembrei que tinha comprado umas vasilhinhas pra deixar no pet shop durante as férias que ele passou em Caetanópolis, enquanto eu passei férias em Funilândia.
Peguei a vasilhinha de comida e coloquei o arroz pra ficar tudo bonitim. O bichim, depois de um tempo, em que a comida já estava fria, disparou a latir.
Pensei:
- Malagradicido. Num gostô.
Fui lá ver, mas num era isso. O focinho não cabia na vasilhinha. E o pessoal do pet shop de Caetanópolis me entregou o bichim sem nem me avisar:
- sua anta, comprô vasilhinha pequenininha demais da conta, sô!
Então, coloquei o arroz na vasilhinha velha messss. O bichim comeu tudim. Dorô. Quis mais. Botei mais.
Disparou a latir. Tava quente. Esfriei. Latiu mais. Tava frio demais. Esquentei. Latiu. Esfriei. Tava frio. Esquentei. Latiu, rosnou... Apelei. Deixei lá.
- Ô Joca, tenha paciência de esperar esfriar.
Ele ameaçou a virar a vasilhinha com a pata pro arroz cair no chão.
Ameacei contar até três: UM... DOIS... E ele sabe o que acontece quando chego no três. Falo o nome dele completo: JOÃO CARLOS VALADARES LANZA JÚNIOR. Ele odeia o nome completo.
Recuou, fez cara de santo e esperou a comida esfriar.
Enfim, comeu a segunda vasilhinha com o arroz. Alimentação saudável a partir de hoje pro idosinho cardíaco da casa.
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
A (in)evitável pergunta
Uma amiga está passando por uma situação delicada com a mãe. Ontem, pedi notícias e ela me disse que está aproveitando o tempo junto a ela para conversar coisas que nunca conversaram antes, para falar o que ela nunca falou para a mãe e perguntar algumas coisas sobre as quais nunca perguntou.
E aí eu me lembrei da relação com a minha mãe no estágio final da doença. Foi um momento de intenso carinho, de trocas de abraços, de pedidos de perdão, e também de perdoar, de querer resgatar todo o tempo perdido ao longo de uma vida, às vezes, desperdiçada com o nada. E foi aí que eu me fiz a inevitável pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
E me lembrei da relação com a minha filha e pensei que não posso deixar que a história se repita, que quando a Ana me pedir atenção, eu devo a ela toda a atenção. E quando eu lhe pedir atenção, da mesma forma, ela deveria me dar também. E pensei que eu devo conhecer melhor a minha filha, da mesma forma que ela deveria me conhecer também. E ainda o quanto eu perco tempo com coisas inúteis, enquanto eu deveria olhar mais para uma pessoa que eu amo tanto. E que eu deveria ter mais trocas intensas de carinhos, mais abraços, mais pedidos de perdão e também perdoar mais para nem eu, nem ela termos, um dia, que fazer a pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
E me lembrei da relação com o meu pai e de todos os momentos em que sentamos para vermos juntos os jogos do Flamengo... e que brigou comigo para não vermos os jogos do Flamengo, porque estava nervoso demais... de todos os momentos em que rimos e choramos sobre as histórias sobre sua vida, sobre a vida dos seus pais e dos seus irmãos, sobre as histórias dos bancos onde passou a vida trabalhando... de todos os momentos em que gargalhamos com as histórias das partidas de futebol que jogou com os amigos... e me lembrei das vezes em que ele me levou na escola...de todos os vestibulares que me levou pra fazer e dizia "filha, fica calma, se não passar, tá tudo ok"... e de todos os momentos em que me levou pra passear pela sua cidade, Sete Lagoas... e me levou e levou minha filha pra passear pela sua cidade, Sete Lagoas... e de todos os momentos em que assistiu comigo aos meus shows favoritos, Queen, Madonna e Duran Duran... e Tom Jobim e Edu Lobo... e Vinicius de Moraes... e toda as vezes em que brigamos por conta da política... e todas as vezes em que brigamos por causa do Zé Dirceu... e quando ele me chamava de subversiva... e quando ele não queria que eu fizesse jornalismo, com medo da ditadura voltar... e eu ser presa por ser subversiva demais, por ser revolucionária demais... e logo depois me deixou ser o que eu sempre quis ser... jornalista... e todas as vezes que... e quando ele me deixou... mas em relação a ele, eu nunca fiz a tal pergunta "por que eu não fiz tudo isso antes?"
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Eu e Lô
Acabei de almoçar com meu vizinho Lô Borges.
Foi assim:
Cheguei no self-service, ao lado da minha casa, e Lô tava lá, sentadinho na mesa, sozinho, almoçando. Parei, em pé, na frente dele, com meu pratinho, na mó cara de pau, e me ofereci (porque sou, sim, oferecida):
- Oi, Lô, posso me sentar com você?
- Não.
- Por que não? O self-service tá lotado.
- Não tá não. Tem um monte de mesa vazia.
- Não tem não. Olhe bem ao redor.
- Tô olhando. Tirando a mesa aqui ao lado (apontou uma mesa com seis pessoas), todas as outras mesas estão vazias.
- Por enquanto. Daqui a dois minutos, isso aqui vai tá lotado. Conheço bem. Moro aqui há quatro anos. Precisamos aprender com os japoneses a aproveitar bem os espaços. Por que você vai ficar sozinho nessa mesa com mais três cadeiras vazias? Você é uma figura pública, respeitada, precisa dar o exemplo.
- Ok ok ok... senta aí.
- Obrigada, ídolo.
Sentei na frente dele.
Estávamos almoçando, quando o interrompi:
- Canta "Clube da esquina nº 2" pra mim.
- Não.
- Por quê?
- Porque estou almoçando.
- Você não sabe almoçar e cantar ao mesmo tempo?
- Não.
- Precisamos aprender com os japoneses a aproveitar nosso tempo melhor.
- Os japoneses almoçam absolutamente em silêncio para apreciar melhor a comida - ele disse.
- Isso é lenda. Eles almoçam cantando - respondi. Morei no Japão por dois anos. Inclusive, sei cantar "Clube da Esquina nº 2" em japonês. Quer ouvir?
- Não.
- E "O Trem Azul"?
- Também não.
Gente, logicamente, isso é fanfic. Na verdade, na verdade, eu apenas almocei no mesmo self-service do meu vizinho de rua Lô Borges. Eu na minha mesa, e ele, na mesa dele.
(História do dia 25 de agosto, que esqueci de postar aqui)
São Tadeuzinho
Da última vez em que fiquei na casa do meu primo-irmão Serginho, no RidiJanêro, eu quebrei o São Judinhas Tadeu, no quarto do filho dele, o Bê.
Ceis já devem saber o quanto eu sou desastrada, né? Lembram da garrafa d´água que eu derrubo todos os dias na minha mesa.
Mas é que o São Judinhas Tadeu é pequininim demais da conta, sô. Não vi. Mas voltando ao drama...
A Aninha vai ficar na casa do Sérgio na semana que vem e que eu achei, numa loja no Mercado Central, um São Tadeuzinho igualzim ao que eu quebrei, pra mandar pro Bê.
Uma loja cheinha de santos. Cheguei na loja, tinha santo pra tudo quanto é lado, só não tinha ninguém pra atender.
Eu e o Joney, meu amigo, pensamos até que era Deus que estava lá de atendente. Tentamos contato. Nada. Chegou um rapaz, enfim, pra me atender. Perguntei:
- Cê quié Deus?
O rapaz não entendeu nada.
Comprei o São Tadeuzinho.
Quero benzê-lo com água benta pra ficar igual ao outro. Inclusive, o atendente Deus apareceu com uma garrafinha de água, em determinado momento, e eu, toda enxerida, pedi:
- Me empresta essa água pra eu benzer o São Tadeuzinho?
Ele me olhou esquisito. Só. Entendi aquilo como um "não".
Mas o que eu quero saber doceis é seu eu posso levar o São Tadeuzinho pra benzer na Igreja Santantonho, perto da minha casa, ou se é só na Igreja São Tadeuzinho, que não tenho ideia de onde seja. Sou agnóstica, né, gente? Não tenho ideia de como funcionam esses paranauês católicos.
Se eu benzer São Tadeuzinho na Igreja Santantonho, Deus perdoa um bocado dos meus pecados ou me manda mais fundo pro inferno?
Grata!
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Brigadeiro ou maconha?
A long long time ago... eu tava deboas com a Ana, no Arpoador, meio da tarde, meio da semana, praia vaziaça, quando passou um mocinha, com uma Tupperware, anunciando:
- Olha o brigadeiro exxxxpecial. Quem quer brigadeiro exxxxxpecial?
Levantei logo o braço pra pedir uma dúzia. Tava louca por aqueles brigadeiros.
A Ana interrompeu minha alegria com um tapa no braço, que até hoje dói só de lembrar.
- Mãe, para com isso. Aquilo é maconha.
Eu, do alto da minha inocência, não sabia que brigadeiro exxxpecial no Arpoador era maconha.
Há uns 10 dias, tava eu, deboas em Copa, também no meio da semana, também no meio da tarde, praia bem cheia, já que estávamos no período das férias, quando uma senhorinha, com seus mais de 70 anos, e a netinha, de uns 6 mais ou menos, sorriram angelicalmente pra mim, estendendo as Tupperwares lotadas de brigadeiro:
- Vai querer brigadeiro hoje?
Agradeci.
Falei com a Ana:
- Os traficantes perderam o limite do bom senso. Agora, estão usando velhinhas e criancinhas para vender maconha em plena Copacabana lotada. O que é isso?
- Mãe, deixa de ser ridícula. Aquilo é brigadeiro.
Conclusão: eu jamais saberei distinguir maconha de brigadeiro numa praia carioca.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Amor herdado
Dia de celebrar os avós, e eu
tenho uma historinha para contar sobre os meus bisavós.
Eu não conheci a Maria da
Conceição Moura Drummond. Sei pouco sobre ela. Casada com João Drummond, mãe de
uma porrada de filhos, entre eles, minha avó, que levava o seu nome, e avó de
uma porrada de netos, entre eles, meu pai.
Pois é, Maria da Conceição era minha bisavó.
Também não conheci Ascânio
Valladares Roquette, casado com a Júlia Silva Neiva, avós da minha mãe, meus
bisavós maternos. A Júlia, eu conheci. Mas a Júlia é uma capítulo à parte. Seu
gênio bravo e as histórias a partir desse "mal" dão um livro, no
mínimo, interessante, pra não dizer "emocionante".
Porém, a história aqui é sobre vó
Neném e vovô Roquette: era assim que chamavam Maria da Conceição e Ascânio. Não
sei se os dois chegaram a se conhecer. Isso, nunca ninguém me contou e só agora
me dei conta que nunca tive curiosidade de perguntar. Mas eles tinham algo em
comum, que os unia, e que me une a eles: o amor às escolas de samba do Rio.
Pois bem, meu amor pelas escolas
de samba é herdado... herdado desses dois. E se existe realmente reencarnação,
acho que os dois se juntaram lá em cima e vieram tudo junto e misturado em mim.
Vó Neném: mulher, negra, pobre,
descendente de escravos, nascida no interior de Minas.
Vovô Roquette: homem, branco, olhos
azuis, francês, veio para o Brasil já adolescente, falava sete idiomas fluentemente
- e assim era toda a família -, neto de senhores de escravos.
É... só o que os unia era o amor
pelo samba e pelo Carnaval do Rio.
Vó Neném passou a vida vendo os
desfiles das escolas de samba do Rio só nos sonhos, nas revistas. Acredito que
nem a TV preto e branco transmitia os desfiles na época. Acredito que nem TV
preto e branco vovó tinha. Trabalhava dia e noite, num serviço de semiescravidão
para ajudar o marido a criar os filhos. Mas nem todo o dinheiro ia para a casa
e para os filhos. Parte, ela guardava para realizar o sonho da sua vida: ver, ao vivo, o desfile dos sonhos. Ela não tinha uma escola em especial. Se tinha, nunca contou pra ninguém.
Vovô Roquette viajava o Brasil
quando bem queria. Na maior parte do tempo, ficava no Rio, curtindo o samba com
o cariocas.
"Ascânio sumiu" - gritava
alertada minha bisavó Júlia. E só não se afligia mais, porque, no fundo, no
fundo, seu coração sabia onde estava o marido. Três dias depois o francês aparecia em casa,
um apartamentinho na Barata Ribeiro, em Copacabana. Tava em Madureira, mais
precisamente, na Portela, sua escola do coração, no meio do samba, fazendo o
que ele mais amava.
Enquanto isso, o sonho movia a
labuta e a vida de vó Neném: "esse dinheirinho vai pros filhos... mas esse
aqui vai pro Carnaval do Rio" - eram assim as contas mensais.
Mês de fevereiro, e vovô Roquette
estava lá, na Praça Onze, na Avenida Presidente Vargas, pronto pra ver a
Portela.
Vovó nunca teve essa sorte. O
dinheiro de uma vida não foi suficiente. Morreu em pleno fevereiro, em pleno
Carnaval.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Sobre a decisão de se dar uma criança para adoção
A Lúcia (*) foi diarista na minha casa por muitos anos. Teve
o primeiro filho aos 16 anos. Sua mãe, dona Olga, também tinha sido mãe, pela
primeira vez, aos 16.
- Lúcia, estou grávida - contei sobre a nova vida que viria,
em tom de vida.
- Eu também. Acho que vou abortar - ela me disse, em tom
seco, sem vida sobre a vida que queria interromper.
Eu teria, aos 27 anos de idade, minha primeira filha.
Lúcia, aos 29, teria seu quarto bebê.
Lúcia reviu sua decisão de abortar. Semanas depois da nossa
conversa, ela confessou à minha mãe que daria a criança para adoção.
A criança nasceu. Não soubemos sequer do seu destino - ela não deixou -, como
se deu a sua entrega para a adoção.
Exatamente uma semana depois, Lúcia apareceu com Cecília (*) na minha casa. Ela estava aos prantos, desesperada.
- Fui atrás da minha filha. Não tive coragem de abandoná-la.
Foi um choque. Lúcia, uma mulher pobre e enfraquecida, não só pelo
parto, mas também pela situação extremamente vulnerável, atravessou Minas Gerais e foi até
Goiás, sabe-se lá com que força, com que dinheiro e foi atrás do casal que
estava com a guarda da Cecília. Ela tomou a menina do casal à força. Estava
ali, na minha casa, enfrentando uma verdadeira guerra judicial, naquele
momento. Foi uma adoção totalmente irregular. Ela entregou a criança diretamente para o casal, pelo que me lembro. Mas a Justiça interveio na época para resolver o caso.
Eu estava numa situação totalmente diversa, tranquila, com a
minha filha, também recém-nascida no colo, recebendo todo o amparo do pai dela
e da minha família. E, naquele momento, aprendi que:
- Aborto é sempre uma decisão dolorosa, e não se restringe apenas a "o corpo é meu, e eu posso fazer o que quero com ele". É algo bem mais complexo, que só que está prestes a tomar a decisão entende
- Quando uma mulher decide fazer um aborto, ela já chegou numa situação extrema de abandono: abandono do pai da criança; abandono dos seus familiares; abandono de políticas públicas que a ampare e que ampare a criança.
- Dizer "não aborte, dê a criança para adoção" não é tão simples, porque dar uma criança para adoção gera julgamentos: julgamento da sociedade por ter engravidado; julgamento da sociedade por ter abandonado a criança; julgamento da própria consciência. Sem políticas públicas que amparem a mulher numa tomada de decisão como essa, esqueça! Não fale em dar para adoção.
Bem, voltando à historia, a Lúcia enfrentou uma tremenda
guerra judicial mesmo. Foram muitas as dores de ambos os lados: dela e, claro, do
casal que colocou toda uma expectativa em cima da adoção. Foi só uma semana de
contato entre o casal e a criança? Não, não podemos pensar assim. Eles também, com certeza,
têm uma história, que nunca cheguei a conhecer, de dor, de luta por um(a)
filho(a) adotivo(a), e não podemos medir o sofrimento por que passaram em ver
aquele sonho escorrer pelas mãos. Sei disso, porque vi o quanto lutaram pela
Cecília.
Quanto à Lúcia e à Cecília, há alguns anos não as vejo. Tenho uma saudade danada da Lúcia que, por anos, fez parte da minha vida.
(*) Nomes fictícios.
domingo, 21 de maio de 2017
Um desabafo
Estou vivendo uma crise de valores morais e éticos, desde que Andréa Neves foi presa e que o STF mandou suspender o mandato de Aécio no Senado. Eu sabia que, um dia, isso aconteceria. Não que haveria prisão e suspensão de mandato dessa corja, que é a família Neves. Mas que eu comemoraria qualquer desgraça que acontecesse com eles, caso ela acontecesse, colocando em xeque tudo aquilo que prego de moral, ao longo da minha vida.
A minha briga com o PSDB se iniciou bem antes da "era Aécio e Andréa" em Minas. Começou com Eduardo Azeredo, em 1996. Eu era recém-formada, cobria política municipal.
Dr. Célio de Castro era o prefeito de Belo Horizonte. Havia vencido figurões da política belo-horizontina como a senadora Júnia Marise, do PMDB, Virgílio Guimarães, do PT, e Amilcar Martins, apoiado pelo governador Azeredo. Dr Célio era um então desconhecido e venceu com o genial slogan "é o melhor, e vai ganhar". Nós, belo-horizontinos, acreditamos naquilo. Dr. Célio foi o cara que primeiro me ensinou que, sim, é possível fazer política de forma séria, comprometida, ética, e que nem todos os políticos são iguais. Esqueçam o jargão "todo político é ladrão". Dr. Célio não se encaixava nisso, ele estava longe do jogo sujo da política que me fizeram acreditar, durante os anos da ditadura militar, que não havia solução. Eu me encantei pelo Dr. Célio. E passei a dar espaço para ele nas minhas matérias, com o apoio do meu editor, também um admirador do novo prefeito de BH. Eu era uma repórter atrapalhada, uma criança praticamente e, no meu primeiro encontro com o Dr. Célio, o cerquei no meio de uma escada, quando ele estava se preparando para votar, no segundo turno das eleições em que ele certamente seria vencedor - todos já sabiam do resultado - para entrevistá-lo. No final da longa entrevista - com um gravador de fita cassete - disse para o futuro prefeito da capital, sem nenhum constrangimento: - Droga! Falhou. Não gravou nada. Deu mau contato. Podemos gravar de novo? - Claro, sem problemas. - E o senhor pode segurar o gravador pra mim? - Sem problema algum, querida. Sim, esse foi o meu primeiro contato com aquela figura encantadora de quem tenho tanta saudade. Mas voltando ao PSDB, o espaço que estava dando ao Dr. Célio incomodou o governador da época. Foram vários os atritos com o governador e com seu pupilo Amílcar. Vários. Na mesma proporção, crescia a confiança do Dr. Célio em mim. Não adianta dizer que jornalistas são imparciais. Nossa visão de mundo, nossas simpatias e antipatias, nossos valores, tudo está ali na matéria, na forma como a escrevemos, no espaço que damos para a fala do entrevistado, no espaço que damos para a própria matéria. Estava claro o quanto eu e o meu editor gostávamos do Dr. Célio. Meu editor saiu do jornal. Perseguição do governador. E o editor geral veio pra cima de mim, num telefonema que recebi, já tarde da noite, num tom extremamente agressivo, do qual nunca vou me esquecer. Aos berros, me disse: - Suas matérias, de agora em diante, vão passar pelo assessor do governador. Nada sai sem passar por ele. Entendeu? Não deu uma semana, e eu fui parar na editoria de Cidades. Não deu um mês, eu pedi demissão. Resolvi que não me sujeitaria ao Azeredo. Fui para as Assessorias de Comunicação, trabalhar com quem me respeitava. O governo seguinte, do Itamar Franco, nos deu um descanso. Logo depois, aí sim, vieram os anos mais pesados para o jornalismo mineiro, com Andréa e Aécio comandando toda a imprensa de perto. E eu, definitivamente, já estava longe da grande imprensa, pois não passaria, de novo, o que passei com Azeredo. E eu garanto a vocês que minha história com Azeredo foi fichinha perto do que o que meus colegas passaram com os irmãos Neves. Houve invasão de apartamentos; apreensão de equipamentos de trabalhos; prisões, não só de jornalista - e olha que tenho diferenças com esse jornalista, mas também de publicitário, que ousaram denunciar o então governador. Foram inúmeras agressões aos direitos e garantias fundamentais que só se viram durante nossa ditadura. Nós, jornalistas mineiros, vibramos muito com tudo o que aconteceu essa semana. E incrivelmente fomos cobrados por isso. Exatamente isso que estão lendo: fomos cobrados por isso. Fomos, por mais de uma década, pisoteados nos nossos direitos, nas nossas liberdades, na nossa dignidade, na nossa sobrevivência, e estamos sendo cobrados e criticados por quem não sofreu na pele o que sofremos. Desculpem-nos, mas nós temos esse direito de desabafar. Não estamos totalmente satisfeitos ou livres, pois parte da nossa imprensa ainda está presa a grupos empresariais que ferem os mais diversos direitos dos nossos colegas. Minas é um estado que ainda cheira ao coronelismo, quando o assunto é jornalismo. Mas continuaremos lutando para que Andréas e Aécios sejam cada vez mais exceções, e não regras no nosso estado.
Dr. Célio de Castro era o prefeito de Belo Horizonte. Havia vencido figurões da política belo-horizontina como a senadora Júnia Marise, do PMDB, Virgílio Guimarães, do PT, e Amilcar Martins, apoiado pelo governador Azeredo. Dr Célio era um então desconhecido e venceu com o genial slogan "é o melhor, e vai ganhar". Nós, belo-horizontinos, acreditamos naquilo. Dr. Célio foi o cara que primeiro me ensinou que, sim, é possível fazer política de forma séria, comprometida, ética, e que nem todos os políticos são iguais. Esqueçam o jargão "todo político é ladrão". Dr. Célio não se encaixava nisso, ele estava longe do jogo sujo da política que me fizeram acreditar, durante os anos da ditadura militar, que não havia solução. Eu me encantei pelo Dr. Célio. E passei a dar espaço para ele nas minhas matérias, com o apoio do meu editor, também um admirador do novo prefeito de BH. Eu era uma repórter atrapalhada, uma criança praticamente e, no meu primeiro encontro com o Dr. Célio, o cerquei no meio de uma escada, quando ele estava se preparando para votar, no segundo turno das eleições em que ele certamente seria vencedor - todos já sabiam do resultado - para entrevistá-lo. No final da longa entrevista - com um gravador de fita cassete - disse para o futuro prefeito da capital, sem nenhum constrangimento: - Droga! Falhou. Não gravou nada. Deu mau contato. Podemos gravar de novo? - Claro, sem problemas. - E o senhor pode segurar o gravador pra mim? - Sem problema algum, querida. Sim, esse foi o meu primeiro contato com aquela figura encantadora de quem tenho tanta saudade. Mas voltando ao PSDB, o espaço que estava dando ao Dr. Célio incomodou o governador da época. Foram vários os atritos com o governador e com seu pupilo Amílcar. Vários. Na mesma proporção, crescia a confiança do Dr. Célio em mim. Não adianta dizer que jornalistas são imparciais. Nossa visão de mundo, nossas simpatias e antipatias, nossos valores, tudo está ali na matéria, na forma como a escrevemos, no espaço que damos para a fala do entrevistado, no espaço que damos para a própria matéria. Estava claro o quanto eu e o meu editor gostávamos do Dr. Célio. Meu editor saiu do jornal. Perseguição do governador. E o editor geral veio pra cima de mim, num telefonema que recebi, já tarde da noite, num tom extremamente agressivo, do qual nunca vou me esquecer. Aos berros, me disse: - Suas matérias, de agora em diante, vão passar pelo assessor do governador. Nada sai sem passar por ele. Entendeu? Não deu uma semana, e eu fui parar na editoria de Cidades. Não deu um mês, eu pedi demissão. Resolvi que não me sujeitaria ao Azeredo. Fui para as Assessorias de Comunicação, trabalhar com quem me respeitava. O governo seguinte, do Itamar Franco, nos deu um descanso. Logo depois, aí sim, vieram os anos mais pesados para o jornalismo mineiro, com Andréa e Aécio comandando toda a imprensa de perto. E eu, definitivamente, já estava longe da grande imprensa, pois não passaria, de novo, o que passei com Azeredo. E eu garanto a vocês que minha história com Azeredo foi fichinha perto do que o que meus colegas passaram com os irmãos Neves. Houve invasão de apartamentos; apreensão de equipamentos de trabalhos; prisões, não só de jornalista - e olha que tenho diferenças com esse jornalista, mas também de publicitário, que ousaram denunciar o então governador. Foram inúmeras agressões aos direitos e garantias fundamentais que só se viram durante nossa ditadura. Nós, jornalistas mineiros, vibramos muito com tudo o que aconteceu essa semana. E incrivelmente fomos cobrados por isso. Exatamente isso que estão lendo: fomos cobrados por isso. Fomos, por mais de uma década, pisoteados nos nossos direitos, nas nossas liberdades, na nossa dignidade, na nossa sobrevivência, e estamos sendo cobrados e criticados por quem não sofreu na pele o que sofremos. Desculpem-nos, mas nós temos esse direito de desabafar. Não estamos totalmente satisfeitos ou livres, pois parte da nossa imprensa ainda está presa a grupos empresariais que ferem os mais diversos direitos dos nossos colegas. Minas é um estado que ainda cheira ao coronelismo, quando o assunto é jornalismo. Mas continuaremos lutando para que Andréas e Aécios sejam cada vez mais exceções, e não regras no nosso estado.
domingo, 14 de maio de 2017
A melhor parte de mim
Todo ano, no Dia das Mães, as redes e a vida se enchem com
aquelas mensagens "lindas": ser mãe é a mulher no seu estado mais
sagrado. Fora o clichezão que a gente ouve, desde que o mundo é mundo, e que é
reforçado nessa época: ser mãe é padecer no paraíso...
Para, gente. Ser mãe é a mulher no seu estado mais humano
mesmo. Ser mãe é padecer aqui nessa terra absolutamente todos os dias. Não tem
outro paraíso, nem outro inferno pra gente padecer coisa nenhuma.
E a gente começa padecendo já na gravidez. Pelo menos, foi
assim comigo. Claro que cada caso é um caso. Fiquei sabendo que seria mãe na
mesa da ginecologista, fazendo ultrassom, durante uma crise de cólica, por
conta de um probleminha chamado "placenta prévia". Gravidez de
altíssimo risco.
Eu passava tanto mal, que achava que a Ana ia nascer pela boca.
Vomitei do primeiro ao último dia de gravidez. Só me alimentava de melancia,
bife de fígado e tempero de Miojo. Combinação lindíssima. Experimentem um dia,
vocês vão A-DO-RAR.
E, no meio disso, uma mudança de casa. Lá vou eu na Cemig
pedir desligamento da luz da casa de onde eu estava saindo...
Quatro meses de gravidez, não tinha barriga nenhuma, seca
que eu era, enfrentei a fila.
No guichê de atendimento:
- Paga essa conta e volta aqui pra gente providenciar o
desligamento.
Paguei, voltei, mas sem enfrentar nova fila, porque aí já
seria desaforo demais. Só que o rapaz que havia me atendido tinha saído para
fazer um lanche. Era outro atendente:
- Você tem que enfrentar a fila.
- Olha, eu já passei por aqui antes. Só vim trazer a conta
que paguei para que vocês providenciem o desligamento da luz da casa de onde
estou saindo. No mais, nem precisava ter enfrentado a primeira fila. Estou
grávida.
Ele me olhou de cima a baixo, com a cara mais debochada do
mundo:
- Grávida? Sei.
Nisso, eu abri a boca pra chorar. Retirei todos os exames
que estavam na bolsa e joguei na frente dele, chorando altíssimo, com a boca
parecendo a da Gretchen pós-plásticas:
- Estou grávida, sim. Gravidez de alto risco. Nem era pra eu
estar aqui. Não posso nem sair de casa.
Toda a Cemig apareceu pra me atender, tamanho o meu drama a
la Maria do Bairro. Água. Café.
Pessoas me abanando, me consolando... faltei
voltar carregada pra casa.
A Ana nasceu.
Uma semana inteira sem dormir. Ela não pegava o peito.
Esqueçam aquela história de que todo bebê já nasce sabendo mamar. Mentira. Nem
todos. Eu tirava o leite do peito e dava pra ela com a colher, pra ela não se
acostumar com mamadeira. Ela só aprendeu a amamentar uma semana depois. Pedra
no peito esquerdo, febre, antibióticos foi o que ganhei de presente nessa
brincadeira.
Nos dois primeiros meses, acordava de três em três horas
para amamentar. E pensava: quando vou voltar a dormir oito horas seguidas?
Depois, acordava de hora em hora. Isso, até a Ana fazer um
ano e meio de idade. E pensava: quando vou voltar a dormir três horas seguidas?
Detalhe: ela me chamava de "dedeira". Nem de
mamãe, ela me chamava. Era "dedeira". Foram as duas primeiras
palavras que ela falou na vida: papai e dedeira.
O lado bom disso tudo é que a pestinha não adoece fácil, e
não adoece mesmo. Taí algo que não é mito: amamentação fortalece nossos filhos.
Conto nos dedos de uma mão só quantas vezes na vida a Ana teve uma febre.
E a mocinha foi crescendo...
Aos sete anos: - vou fazer Direito.
Pensei: - vai mudar essa escolha ao longo da vida, nem deve
saber o que é isso direito (sem trocadilhos)
Um dia, enquanto ela ainda tinha sete anos, tivemos aquelas
brigas duras entre mãe e filha:
- Quero a minha pensão - requereu a futura bacharel em
Direito.
- Aaaaaaaaah, a senhora quer sua pensão? Saiba que a
responsável pela sua pensão sou eu, a pessoa que tem a sua guarda - respondi.
- Você, por acaso - continuou a pestinha -, sabia que tem
uma parte da pensão destinada ao entretenimento? Você sabe o que é
EN-TRE-TE-NI-MEN-TO? Eu quero essa parte todo mês pra mim.
E eu, segurando pra não rir, pensei: - ela realmente irá
para o Direito, e dará muito trabalho aos adversários.
Sim, a Ana está indo para o Direito, quer trabalhar com
Direitos Humanos, só não sabe ainda como irá atuar. Tenho certeza de que irá
brilhar.
Não me lembro de ser tão politizada, tão bem informada e ter
tanto poder de argumentação quanto ela aos 18 anos, idade que ela tem hoje.
A cada debate nosso, eu me encho de orgulho em ver o quão
sólida é sua formação humanitária, a sua formação política totalmente voltada
para o bem-estar social, para o bem-estar do outro, para, como eu já disse, os
Direitos Humanos.
E, assim, eu tenho muito orgulho de mim, como mãe, de ter
conseguido passar esses valores para minha filha. E, claro, agradeço aos meus
pais, que me ajudaram muito, enquanto estiveram com a gente.
Quanto ao Tito, pai da Ana, é muito fácil dividir a criação
dela com ele. Acho que nunca divergimos sobre a criação da nossa filha. Nossos
valores e concepção de mundo sempre foram muito parecidos.
E isso ajudou muito
a construir a pessoa que ela é hoje.
A Ana é muito parecida comigo. Não só fisicamente, mas nos
gostos. Ama política, é de esquerda, é da turma dos Direitos Humanos, ama o
Rio, ama funk, samba, Beatles, Chico e Tom tanto quanto eu.
É uma grande parceira de viagens e shows. Não me lembro bem
quando começou essa parceria em shows, mas me lembro de quando ela me
acompanhou, pela primeira vez, num show que era meu: Edu Lobo.
Palácio das Artes, ela tinha 12 anos, antes de começar a
apresentação:
- Mãe, você me trouxe num show ou num asilo? Olha a idade
dessas pessoas que estão aqui. Eu não estou gostando disso.
Mas gostou. Ao longo do show, foi fácil pra ela acompanhar o
Edu em Beatriz, Ponteio, Choro Bandido, Canto Triste, músicas que ela ouve
desde que estava na minha barriga.
Enfim, nesse Dia das Mães, é importante entender que ser mãe
é da natureza humana, não é realmente nada divino. Há muitas dificuldades nesse
processo. Mas é divino (no sentido de "ser maravilhoso") formar
alguém tão parecido conosco e ver o quanto essa pessoa pode ser companheira.
A Ana, hoje, é minha melhor amiga, a melhor parte de mim.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Nós, mulheres
Muitas mulheres, mulheres inúmeras, múltiplas e diversas...
Diversas em raças, etnias, orientação sexual, classes sociais, profissões,
idades, experiências... Mulher quilombola, mulher trans, mulher lésbica, mulher
bissexual, mulher com deficiência, mulher branca, mulher hétero, mulher negra,
mulher magra, mulher obesa, mulher jovem e mulher não tão jovem mais.
É com essas mulheres, com essa diversidade de mulheres, que
tenho me reunido, há algumas poucas semanas, para desenvolver um trabalho
voltado exclusivamente para nós, mulheres, cujo resultado final será
apresentado nos próximos meses.
A cada reunião, muitas histórias de luta e, claro, muito
aprendizado.
Nossa primeira resolução: nesse grupo, a voz de cada mulher
será respeitada.
Mesmo porque, num grupo que reúne tantas mulheres fortes e
de luta, impossível silenciar ou não dar espaço para essas vozes.
E dá-lhe discussões tensas, intensas, densas e... Nossa! Discussões
lindas, que só fortalecem a luta de nós, mulheres.
- Eu não vou abrir mão de ter as mulheres bi representadas e
fortalecidas - declarou a Bella. E continuou: - Se estou aqui para
representá-las e lutar por um espaço, é isso que vou fazer.
Paralela à fala forte e incisiva, as lágrimas de indignação
davam a ideia exata das dificuldades enfrentadas pela representante das L e Bs,
do LGBT. Percebi ali toda a ansiedade para se ter fala, para ser representada,
para se ter visibilidade nesse mundo machista, misógino e homofóbico que
silencia nós, mulheres. E silencia ainda mais as lésbicas e bi.
Como eu disse na reunião de hoje, somos uma minoria (numericamente
maior, mas minoria em direitos, como a Lu bem nos lembrou) com inúmeras
minorias entre nós.
Bella representa uma minoria dentro da minoria. A luta da
Bella não é igual à minha, mulher branca e hétero. É muito mais árdua. E só ela
ou outra representante do movimento para falar sobre a dor de se enfrentar um
mundo tão desigual, tão desrespeitoso em relação à diversidade sexual.
Da mesma forma, é muito mais árdua a luta da mulher negra,
quilombola, cigana, da mulher com deficiência e de todas essas minorias
presentes na "minoria mulher".
- Acho que um livro na mão de uma das mulheres representa
bem o conhecimento, e conhecimento está ligado a poder - sugeriram.
Sim, para muitas de nós, sim. Para outras muitas mais, não.
Por que eu, jornalista, que amo estudar e ler, tenho mais
conhecimento que uma mulher sem acesso aos estudos? Que conhecimento é esse que
detenho e me deixa acima da companheira sem estudos?
Hoje, a Terezinha, representante da mulher com deficiência,
nos deu uma aula de acessibilidade, de inclusão social da mulher com
deficiência e de cidadania. A Terezinha, que, segundo ela própria, teve poucas
oportunidades de estudo. Ela falou sobre uma luta e um mundo muito distantes do
meu. E eu fiquei ali, admirando aquela mulher e toda a sua cultura e
conhecimento em relação a uma área na qual eu sou totalmente ignorante,
iletrada.
Por que, então, um livro empodera uma mulher?
E, assim, nessas discussões, nesses encontros, vamos desconstruindo preconceitos e mitos referentes a nós mesmas. Vamos aprendendo que mulheres diversas, unidas e em constante diálogos são mais fortes e capazes de ocupar os lugares, antes, restritos aos homens. Aprendemos que ouvindo a outra, aprendemos... Aprendemos sobre a dor da outra, sobre a vida, a luta e sobre como vencer. Aprendemos que dando fala a outra, aprendemos... Não silenciar nenhuma de nós tem sido a grande lição desses encontros. Encontros esses que espero que se tornem múltiplos, inúmeros, diversos como nós, mulheres.
sábado, 8 de abril de 2017
Longe de casa
Há cerca de um ano e meio, conheci a Maha, refugiada vinda do Líbano.
Ela e os irmãos são apátridas. Isso porque são filhos de um libanês cristão e uma muçulmana. Por isso, o Líbano lhes negou a nacionalidade. Sem nacionalidade, sem direitos.
A Maha contou as dificuldades de não se ter uma nacionalidade. Desde coisas simples como ir a uma boate com os amigos até frequentar uma faculdade.
Assim, resolveu enviar cartas para diversas embaixadas, pedindo refúgio. Como ela mesma explicou, nenhum refugiado deixa seu país de origem, sua família, suas raízes, por vontade própria. Deixa porque está numa situação extrema, porque não possui uma nacionalidade, como no caso de Maha, ou porque sua vida corre risco de alguma forma.
O único país do mundo que abrigou Maha e seus irmão foi o Brasil.
Maha veio viver em Belo Horizonte, com uma família que conheceu pelo Facebook.
Quando conheci Maha, por meio do Comitê Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Apátrida, Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação do Trabalho Escravo (Comitrate), da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac) do Governo de Minas, ela tinha acabado de chegar a BH com a irmã e o irmão.
Ganhou carteira de identidade, passaporte, conta bancária, emprego, tudo o que ela não teve antes.
E estava encantada com a cidade.
Disse que aqui tinha a segurança que não tinha no Líbano. No seu país, a cada esquina, a ameaça de uma bomba.
Essa é a parte bonita da história de Maha no nosso país.
A parte triste: hoje, soube que seu irmão foi assassinado numa tentativa de assalto, aqui, em BH, bem distante do seu país, sempre em guerra, sempre sob a ameaça de bombas. Aqui, como lá.
sábado, 25 de março de 2017
Mãe sem fórmula
Por Romyna Lanza
Fui parar no ultrassom da minha ginecologista por conta de uma cólica que me fazia contorcer de dor. O motivo? Gravidez. A notícia caiu como um meteoro no meu mundo. Uma criança, àquela altura da minha vida, era tudo o que eu menos queria e precisava.
Estava recém-formada, queria ir embora pro Rio, fazer meu mestrado, doutorado e seguir minha carreira de jornalista lá. Como me mudar pra terra do Tom e do Vinicius carregando um bebê na bagagem? Quem cuidaria dele, enquanto eu estudava e trabalhava? E o meu samba? Como ir pro samba com um bebê? E se ele odiasse samba? E se odiasse o Salgueiro? Nossa!
Fui parar no ultrassom da minha ginecologista por conta de uma cólica que me fazia contorcer de dor. O motivo? Gravidez. A notícia caiu como um meteoro no meu mundo. Uma criança, àquela altura da minha vida, era tudo o que eu menos queria e precisava.
Estava recém-formada, queria ir embora pro Rio, fazer meu mestrado, doutorado e seguir minha carreira de jornalista lá. Como me mudar pra terra do Tom e do Vinicius carregando um bebê na bagagem? Quem cuidaria dele, enquanto eu estudava e trabalhava? E o meu samba? Como ir pro samba com um bebê? E se ele odiasse samba? E se odiasse o Salgueiro? Nossa!
Mas a criança estava a caminho, e eu teria que ser mãe. Eu e
mãe, definitivamente, duas coisas que não combinavam. Soava esquisito aquilo.
Duas palavras que não se davam. Não sabia como lidar com a situação.
Eu nem ao menos
brincava de boneca quando criança. Não sabia trocar fraldas, dar mamadeiras,
colocar roupinhas nas bonecas... imagina num bebê! Quando criança, eu sabia
escrever. E cresci assim... apaixonada pelas letras. Era o que queria fazer:
escrever, ser jornalista.
E naquele dia da cólica e do ultrassom, começou a pressão
para que eu fosse a melhor mãe do mundo, porque era assim que minha mãe se
apresentava ao mundo: a melhor mãe do mundo.
- Prazer, meu nome é Laís Valladares, com dois
"eles". Sou mãe de quatro filhas: uma dentista, uma médica, uma
engenheira e uma jornalista. Eu e meu marido lutamos muito para criar e formar
todas quatro, mas conseguimos. Sou muito
feliz em ser mãe.
Sim, minha mãe, artista plástica e costureira maravilhosas,
que lutou ao lado do meu pai, durante uma vida, para formar as quatro filhas, numa época
em que apenas 6% da população do país se graduava, era feliz por ser mãe. Se
parasse alguém do seu lado, num consultório médico, na fila do supermercado ou
no ponto do ônibus, ela, conversada do jeito que era, puxava logo assunto e se
apresentava como a mãe mais feliz do mundo.
Mas ela não era uma mãe fácil, pelo menos, pra mim. Era uma super mãe. Por muitas vezes, queria se meter demais,
excessivamente, na minha vida. Principalmente, por eu ser a caçula da família. Queria
escolher desde a minha roupa até meu namorado. E eu, por prezar demais minha
individualidade e privacidade, partia para o conflito. Não admitia de forma
alguma essas intromissões.
Sou Valadares, com um "ele" só, mas nem por isso
menos atrevida. Valadares é a família da minha avó materna, a Dirce Valadares, família na sua
maioria de mulheres, e de mulheres fortes, geniosas, independentes,
bem-sucedidas. Minha mãe tinha muito orgulho da nossa família, exatamente, pela
força e independência das suas mulheres. Por isso, ela fazia questão de se
apresentar como uma Valladares com dois "eles". Eu nunca soube se a quantidade de "eles" influencia nossa vida em alguma coisa.
Meu pai já era o contrário. Não se metia na minha vida, me
dava liberdade total de escolhas. Daí termos sido tão companheiros. Ele era meu
melhor amigo, meu maior apoio nos momentos mais difíceis. Era com
ele que eu conversava sobre política, sobre futebol, música, profissão, enfim,
sobre tudo. Quem me conhece sabe que ele foi a pessoa mais importante do
meu mundo.
Ele saía de casa cedo, por volta das 5h30 da manhã e só
voltava às 8h da noite. Mal nos víamos. Só mesmo aos finais de semana. Mas o
pouco tempo juntos era o suficiente para tornarem nossos laços fortes o suficiente
para serem eternos.
E assim eu tento ser pra Ana Luísa, meu bebê, minha criança
que nasceu há 18 anos: a mãe que meu pai foi.
Há cerca de duas semanas, ela me desafiou:
- Amore, vou te fazer uma perguntas.
- Ok - não tinha ideia do que viria.
- Qual o meu cantor favorito?
- Oi?
- Mamis!!!! Qual o meu cantor favorito?
- Gente!!!
- Qual o cantor favorito da Lady Gaga?
- Ah, tá. É o David Bowie. Vocês são gêmeas nisso.
- Isso, mamis. E qual minha cantora favorita?
- Lady Gaga, amore.
- Muito bem, mamis. E meu escritor favorito?
- Fácil. Dostoiévski.
E foram mais de 20 perguntas assim. Acho que acertei uns 80%.
Na verdade, ela queria saber se presto atenção nela, nas coisas dela. Chorei
nesse dia, apesar da brincadeira ter sido divertida, porque sou aquele tipo de
mãe:
- Filha, cê já almoçou?
- Não.
- Não vai almoçar?
- Não.
- Ok, então.
Deveria ir pra cozinha fazer a comida e levar na boca? Às
vezes, penso que sim. Outras, penso que não.
Enfim, tento ser a melhor mãe que posso, assim como minha
mãe foi a melhor mãe que ela podia ser.
Não há regras, não há fórmulas.
sábado, 18 de março de 2017
A história de Lucas e Joaquim - ou melhor não fazer julgamentos precipitados
Por Romyna Lanza
Era a primeira vez que Lucas (*), 16 anos, entrava numa sala de audiência. Ele estava há cerca de um mês num Centro de Internação Provisória (CEIP). Havia sido detido com droga. Muita droga. Crack, para ser mais exata. Apesar do passado limpo, dos bons antecedentes, sabia que a quantidade não ajudaria Lucas. A pena seria pesada. Lucas entrou naquela sala algemado, acompanhado pelos agentes do CEIP. O juiz pediu para que chamassem o pai, que estava no corredor do Fórum. Joaquim (*) entrou. Cara fechada, disse um "boa tarde" secamente para as pessoas que estavam na sala. Não olhou para o filho em momento algum, não o abraçou, não se emocionou em vê-lo algemado, não perguntou "como você está?", como geralmente os pais faziam, não soltou uma lágrima sequer. Um homem totalmente gelado, sem sentimento algum. Era essa a impressão que Joaquim nos passava. Sentou-se na outra ponta da mesa, bem distante do filho e ficou olhando pra frente, alheio a tudo que acontecia. Naquele dia, a escrevente havia faltado, e o juiz me pediu que eu o acompanhasse na audiência. Já tinha feita algumas nos meus cinco anos de Tribunal, e nunca, jamais tinha visto um pai como aquele. Comentei com o juiz: - Que homem é esse? E ele, com mais de 15 anos de experiência no Juizado da Infância e Adolescência, me respondeu: - Também estou espantado. Acompanhei o interrogatório inteiro do Lucas olhando para aquele homem, julgando-o. Sim, naquele momento, o réu, para mim, era Joaquim: "por isso que o filho está aqui. nunca teve amor do pai, atenção, carinho. sabe-se lá que tipo de violência física e psicológica esse rapaz deve ter sofrido em casa? não tinha outro destino possível a não ser o crime. um carente de pai esse garoto". Eis o meu veredito para Joaquim: um monstro que abandonou o filho a própria sorte. Ele, sim, deveria cumprir a pena no lugar do Lucas. Joaquim, ignorando meu veredito e o filho, continuou ali, imóvel, olhando para frente. Fim do interrogatório do Lucas. O juiz, antes de liberá-lo, ainda perguntou ao Joaquim se ele queria dizer alguma coisa para o filho. Ele respondeu negativamente com a cabeça, sempre olhando para frente. Lucas se levantou para ir embora, acompanhado dos agentes penitenciários. Quando passava pelo pai, Joaquim disse pro juiz: - doutor, espere. O juiz mandou os agentes esperarem: - eu quero, sim, abraçar meu filho. Ficamos surpresos. O juiz autorizou. Joaquim e Lucas se abraçaram. Choraram de soluçar. Foi o abraço mais longo e o choro mais sentido que já vi numa sala de audiência durante minha passagem pelo Tribunal. Depois que Lucas saiu, Joaquim nos contou sua história, toda sua luta diária, todo seu amor aos cinco filhos - Lucas é o caçula - e toda sua preocupação em relação ao destino do filho. E eu que tinha julgado Joaquim um monstro, agora, entendia que todo aquele silêncio e aquele olhar tão duro eram, na verdade, de dor. (*) Os nomes são fictícios
Era a primeira vez que Lucas (*), 16 anos, entrava numa sala de audiência. Ele estava há cerca de um mês num Centro de Internação Provisória (CEIP). Havia sido detido com droga. Muita droga. Crack, para ser mais exata. Apesar do passado limpo, dos bons antecedentes, sabia que a quantidade não ajudaria Lucas. A pena seria pesada. Lucas entrou naquela sala algemado, acompanhado pelos agentes do CEIP. O juiz pediu para que chamassem o pai, que estava no corredor do Fórum. Joaquim (*) entrou. Cara fechada, disse um "boa tarde" secamente para as pessoas que estavam na sala. Não olhou para o filho em momento algum, não o abraçou, não se emocionou em vê-lo algemado, não perguntou "como você está?", como geralmente os pais faziam, não soltou uma lágrima sequer. Um homem totalmente gelado, sem sentimento algum. Era essa a impressão que Joaquim nos passava. Sentou-se na outra ponta da mesa, bem distante do filho e ficou olhando pra frente, alheio a tudo que acontecia. Naquele dia, a escrevente havia faltado, e o juiz me pediu que eu o acompanhasse na audiência. Já tinha feita algumas nos meus cinco anos de Tribunal, e nunca, jamais tinha visto um pai como aquele. Comentei com o juiz: - Que homem é esse? E ele, com mais de 15 anos de experiência no Juizado da Infância e Adolescência, me respondeu: - Também estou espantado. Acompanhei o interrogatório inteiro do Lucas olhando para aquele homem, julgando-o. Sim, naquele momento, o réu, para mim, era Joaquim: "por isso que o filho está aqui. nunca teve amor do pai, atenção, carinho. sabe-se lá que tipo de violência física e psicológica esse rapaz deve ter sofrido em casa? não tinha outro destino possível a não ser o crime. um carente de pai esse garoto". Eis o meu veredito para Joaquim: um monstro que abandonou o filho a própria sorte. Ele, sim, deveria cumprir a pena no lugar do Lucas. Joaquim, ignorando meu veredito e o filho, continuou ali, imóvel, olhando para frente. Fim do interrogatório do Lucas. O juiz, antes de liberá-lo, ainda perguntou ao Joaquim se ele queria dizer alguma coisa para o filho. Ele respondeu negativamente com a cabeça, sempre olhando para frente. Lucas se levantou para ir embora, acompanhado dos agentes penitenciários. Quando passava pelo pai, Joaquim disse pro juiz: - doutor, espere. O juiz mandou os agentes esperarem: - eu quero, sim, abraçar meu filho. Ficamos surpresos. O juiz autorizou. Joaquim e Lucas se abraçaram. Choraram de soluçar. Foi o abraço mais longo e o choro mais sentido que já vi numa sala de audiência durante minha passagem pelo Tribunal. Depois que Lucas saiu, Joaquim nos contou sua história, toda sua luta diária, todo seu amor aos cinco filhos - Lucas é o caçula - e toda sua preocupação em relação ao destino do filho. E eu que tinha julgado Joaquim um monstro, agora, entendia que todo aquele silêncio e aquele olhar tão duro eram, na verdade, de dor. (*) Os nomes são fictícios
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Pequena historinha - lembrança de 2014
- Romyna, de vez em quando, você se esquece de como se escreve uma palavra e tem que consultar para não escrever errado?
Como sei que essa pessoa tem muitas dificuldades (mas muuuuuuuuuitas mesmo) com a Língua Portuguesa, para não deixá-la constrangida e mostrar que é, sim, normal esquecermos de como se escreve determinadas palavras, respondi:
- Isso sempre acontece comigo.
Ainda enfatizei o "sempre". E ela:
- Sempre? Pois comigo acontece raramente. Você precisa ler mais, hein?
Hahahahahaha! Fofa demais a pessoa.
Como sei que essa pessoa tem muitas dificuldades (mas muuuuuuuuuitas mesmo) com a Língua Portuguesa, para não deixá-la constrangida e mostrar que é, sim, normal esquecermos de como se escreve determinadas palavras, respondi:
- Isso sempre acontece comigo.
Ainda enfatizei o "sempre". E ela:
- Sempre? Pois comigo acontece raramente. Você precisa ler mais, hein?
Hahahahahaha! Fofa demais a pessoa.
sábado, 7 de janeiro de 2017
Além das paredes dos presídios brasileiros
Era um casal com idade já bem avançada, bem velhinhos mesmo.
Não era normal ver no Fórum pessoas naquela idade, ainda mais na área criminal,
tão pesada, tão cheia de conflitos e de dor. A senhora chorava muito. Estava
aos soluços. O senhor tentava acalmá-la em vão.
- Em que posso ajudá-los? - perguntei.
- Viemos saber se a sentença do João Carlos (nome fictício)
saiu - disse-me o senhor, que estava um pouco mais calmo... só um pouco... Suas
mãos tremiam. Sua voz também.
- O que vocês são dele? - perguntei por pura curiosidade, já
que eles tinham direito de ver o processo, caso não estivesse correndo em
segredo de justiça.
- Somos pais dele.
Foi aí que entendi todo o sofrimento e angústia por que
estavam passando.
A sentença tinha acabado de sair. Vinte
e três anos era a pena que João Carlos havia pegado por tráfico de drogas.
Nesse momento, quem teve vontade de chorar fui eu.
Como dar a notícia àqueles pais? Calculei que eles teriam
perto de 80 anos. A pena era de 23. Se as instâncias superiores confirmassem a
sentença, eles não veriam o filho em liberdade novamente. Era a primeira
passagem do filho pela polícia. Era a primeira vez que os pais lidavam com
aquela situação.
Mas isso não interessa muito às famílias.
Não importa se é a primeira ou a 20ª pena de um filho. A passagem
de um filho por um presídio é sempre carregada de preocupação e dor.
"Será que ele amanhece vivo amanhã?"
Era isso o que eu mais ouvia das mães dos apenados na minha
passagem pelo Tribunal de Justiça e nas minhas visitas aos presídios e à Defensoria
Pública do Estado.
A vida dessas famílias se volta quase que exclusivamente
para salvar esses filhos. Digo "salvar", porque a luta, a partir do
momento em que seus filhos são presos, passa a ser a sobrevivência deles.
Tirá-los
vivos e sãos dos presídios brasileiros é algo quase que impossível. Ah, a
sobrevivência da família também. Muitas mães ou pais perdem o emprego, porque
não conseguem conciliar as idas à Defensoria e ao Fórum com o trabalho. E a
renda da família cai consideravelmente.
Numa semana em que cerca de 90 presos foram chacinados nos
presídios brasileiros, é preciso ver além das paredes desses presídios, é
preciso ver muito além dos corpos e de cada uma dessas 90 vidas perdidas. Foram
centenas de vidas e de histórias destruídas. Histórias que jamais conheceremos,
dores que nunca sentiremos e nem sequer imaginaremos.
A cada declaração desastrosa seja de autoridades, seja de
anônimos nas redes sociais, lamento pela falta de empatia e de humanitarismo.
Ninguém vai pra rua sabendo roubar. Aprende-se por
necessidade. Roubar gera riscos, inclusive de morte. Aliás, ninguém escolhe viver na rua, se tiver casa. Ou escolhe? Ninguém entra no tráfico, correndo
risco diário de morte, por ser a forma mais fácil de ganhar a vida. Correr
risco diário de morte jamais será a forma mais fácil de ganhar a vida. Há que
se ouvir cada uma dessas pessoas para entender por que se tornaram o que se
tornaram.
Assinar:
Comentários (Atom)