domingo, 14 de maio de 2017

A melhor parte de mim

Todo ano, no Dia das Mães, as redes e a vida se enchem com aquelas mensagens "lindas": ser mãe é a mulher no seu estado mais sagrado. Fora o clichezão que a gente ouve, desde que o mundo é mundo, e que é reforçado nessa época: ser mãe é padecer no paraíso...

Para, gente. Ser mãe é a mulher no seu estado mais humano mesmo. Ser mãe é padecer aqui nessa terra absolutamente todos os dias. Não tem outro paraíso, nem outro inferno pra gente padecer coisa nenhuma.

E a gente começa padecendo já na gravidez. Pelo menos, foi assim comigo. Claro que cada caso é um caso. Fiquei sabendo que seria mãe na mesa da ginecologista, fazendo ultrassom, durante uma crise de cólica, por conta de um probleminha chamado "placenta prévia". Gravidez de altíssimo risco.

Eu passava tanto mal, que achava que a Ana ia nascer pela boca. Vomitei do primeiro ao último dia de gravidez. Só me alimentava de melancia, bife de fígado e tempero de Miojo. Combinação lindíssima. Experimentem um dia, vocês vão A-DO-RAR.

E, no meio disso, uma mudança de casa. Lá vou eu na Cemig pedir desligamento da luz da casa de onde eu estava saindo...

Quatro meses de gravidez, não tinha barriga nenhuma, seca que eu era, enfrentei a fila.

No guichê de atendimento:

- Paga essa conta e volta aqui pra gente providenciar o desligamento.

Paguei, voltei, mas sem enfrentar nova fila, porque aí já seria desaforo demais. Só que o rapaz que havia me atendido tinha saído para fazer um lanche. Era outro atendente:

- Você tem que enfrentar a fila.

- Olha, eu já passei por aqui antes. Só vim trazer a conta que paguei para que vocês providenciem o desligamento da luz da casa de onde estou saindo. No mais, nem precisava ter enfrentado a primeira fila. Estou grávida.

Ele me olhou de cima a baixo, com a cara mais debochada do mundo:

- Grávida? Sei.

Nisso, eu abri a boca pra chorar. Retirei todos os exames que estavam na bolsa e joguei na frente dele, chorando altíssimo, com a boca parecendo a da Gretchen pós-plásticas:

- Estou grávida, sim. Gravidez de alto risco. Nem era pra eu estar aqui. Não posso nem sair de casa.

Toda a Cemig apareceu pra me atender, tamanho o meu drama a la Maria do Bairro. Água. Café.
Pessoas me abanando, me consolando... faltei voltar carregada pra casa.

A Ana nasceu.

Uma semana inteira sem dormir. Ela não pegava o peito. Esqueçam aquela história de que todo bebê já nasce sabendo mamar. Mentira. Nem todos. Eu tirava o leite do peito e dava pra ela com a colher, pra ela não se acostumar com mamadeira. Ela só aprendeu a amamentar uma semana depois. Pedra no peito esquerdo, febre, antibióticos foi o que ganhei de presente nessa brincadeira.

Nos dois primeiros meses, acordava de três em três horas para amamentar. E pensava: quando vou voltar a dormir oito horas seguidas?

Depois, acordava de hora em hora. Isso, até a Ana fazer um ano e meio de idade. E pensava: quando vou voltar a dormir três horas seguidas?

Detalhe: ela me chamava de "dedeira". Nem de mamãe, ela me chamava. Era "dedeira". Foram as duas primeiras palavras que ela falou na vida: papai e dedeira.

O lado bom disso tudo é que a pestinha não adoece fácil, e não adoece mesmo. Taí algo que não é mito: amamentação fortalece nossos filhos. Conto nos dedos de uma mão só quantas vezes na vida a Ana teve uma febre.

E a mocinha foi crescendo...

Aos sete anos: - vou fazer Direito.

Pensei: - vai mudar essa escolha ao longo da vida, nem deve saber o que é isso direito (sem trocadilhos)

Um dia, enquanto ela ainda tinha sete anos, tivemos aquelas brigas duras entre mãe e filha:

- Quero a minha pensão - requereu a futura bacharel em Direito.

- Aaaaaaaaah, a senhora quer sua pensão? Saiba que a responsável pela sua pensão sou eu, a pessoa que tem a sua guarda - respondi.

- Você, por acaso - continuou a pestinha -, sabia que tem uma parte da pensão destinada ao entretenimento? Você sabe o que é EN-TRE-TE-NI-MEN-TO? Eu quero essa parte todo mês pra mim.

E eu, segurando pra não rir, pensei: - ela realmente irá para o Direito, e dará muito trabalho aos adversários.

Sim, a Ana está indo para o Direito, quer trabalhar com Direitos Humanos, só não sabe ainda como irá atuar. Tenho certeza de que irá brilhar.

Não me lembro de ser tão politizada, tão bem informada e ter tanto poder de argumentação quanto ela aos 18 anos, idade que ela tem hoje.

A cada debate nosso, eu me encho de orgulho em ver o quão sólida é sua formação humanitária, a sua formação política totalmente voltada para o bem-estar social, para o bem-estar do outro, para, como eu já disse, os Direitos Humanos.

E, assim, eu tenho muito orgulho de mim, como mãe, de ter conseguido passar esses valores para minha filha. E, claro, agradeço aos meus pais, que me ajudaram muito, enquanto estiveram com a gente.

Quanto ao Tito, pai da Ana, é muito fácil dividir a criação dela com ele. Acho que nunca divergimos sobre a criação da nossa filha. Nossos valores e concepção de mundo sempre foram muito parecidos. 
E isso ajudou muito a construir a pessoa que ela é hoje.

A Ana é muito parecida comigo. Não só fisicamente, mas nos gostos. Ama política, é de esquerda, é da turma dos Direitos Humanos, ama o Rio, ama funk, samba, Beatles, Chico e Tom tanto quanto eu.

É uma grande parceira de viagens e shows. Não me lembro bem quando começou essa parceria em shows, mas me lembro de quando ela me acompanhou, pela primeira vez, num show que era meu: Edu Lobo.

Palácio das Artes, ela tinha 12 anos, antes de começar a apresentação:

- Mãe, você me trouxe num show ou num asilo? Olha a idade dessas pessoas que estão aqui. Eu não estou gostando disso.

Mas gostou. Ao longo do show, foi fácil pra ela acompanhar o Edu em Beatriz, Ponteio, Choro Bandido, Canto Triste, músicas que ela ouve desde que estava na minha barriga.

Enfim, nesse Dia das Mães, é importante entender que ser mãe é da natureza humana, não é realmente nada divino. Há muitas dificuldades nesse processo. Mas é divino (no sentido de "ser maravilhoso") formar alguém tão parecido conosco e ver o quanto essa pessoa pode ser companheira.

A Ana, hoje, é minha melhor amiga, a melhor parte de mim.