Todo ano, no Dia das Mães, as redes e a vida se enchem com
aquelas mensagens "lindas": ser mãe é a mulher no seu estado mais
sagrado. Fora o clichezão que a gente ouve, desde que o mundo é mundo, e que é
reforçado nessa época: ser mãe é padecer no paraíso...
Para, gente. Ser mãe é a mulher no seu estado mais humano
mesmo. Ser mãe é padecer aqui nessa terra absolutamente todos os dias. Não tem
outro paraíso, nem outro inferno pra gente padecer coisa nenhuma.
E a gente começa padecendo já na gravidez. Pelo menos, foi
assim comigo. Claro que cada caso é um caso. Fiquei sabendo que seria mãe na
mesa da ginecologista, fazendo ultrassom, durante uma crise de cólica, por
conta de um probleminha chamado "placenta prévia". Gravidez de
altíssimo risco.
Eu passava tanto mal, que achava que a Ana ia nascer pela boca.
Vomitei do primeiro ao último dia de gravidez. Só me alimentava de melancia,
bife de fígado e tempero de Miojo. Combinação lindíssima. Experimentem um dia,
vocês vão A-DO-RAR.
E, no meio disso, uma mudança de casa. Lá vou eu na Cemig
pedir desligamento da luz da casa de onde eu estava saindo...
Quatro meses de gravidez, não tinha barriga nenhuma, seca
que eu era, enfrentei a fila.
No guichê de atendimento:
- Paga essa conta e volta aqui pra gente providenciar o
desligamento.
Paguei, voltei, mas sem enfrentar nova fila, porque aí já
seria desaforo demais. Só que o rapaz que havia me atendido tinha saído para
fazer um lanche. Era outro atendente:
- Você tem que enfrentar a fila.
- Olha, eu já passei por aqui antes. Só vim trazer a conta
que paguei para que vocês providenciem o desligamento da luz da casa de onde
estou saindo. No mais, nem precisava ter enfrentado a primeira fila. Estou
grávida.
Ele me olhou de cima a baixo, com a cara mais debochada do
mundo:
- Grávida? Sei.
Nisso, eu abri a boca pra chorar. Retirei todos os exames
que estavam na bolsa e joguei na frente dele, chorando altíssimo, com a boca
parecendo a da Gretchen pós-plásticas:
- Estou grávida, sim. Gravidez de alto risco. Nem era pra eu
estar aqui. Não posso nem sair de casa.
Toda a Cemig apareceu pra me atender, tamanho o meu drama a
la Maria do Bairro. Água. Café.
Pessoas me abanando, me consolando... faltei
voltar carregada pra casa.
A Ana nasceu.
Uma semana inteira sem dormir. Ela não pegava o peito.
Esqueçam aquela história de que todo bebê já nasce sabendo mamar. Mentira. Nem
todos. Eu tirava o leite do peito e dava pra ela com a colher, pra ela não se
acostumar com mamadeira. Ela só aprendeu a amamentar uma semana depois. Pedra
no peito esquerdo, febre, antibióticos foi o que ganhei de presente nessa
brincadeira.
Nos dois primeiros meses, acordava de três em três horas
para amamentar. E pensava: quando vou voltar a dormir oito horas seguidas?
Depois, acordava de hora em hora. Isso, até a Ana fazer um
ano e meio de idade. E pensava: quando vou voltar a dormir três horas seguidas?
Detalhe: ela me chamava de "dedeira". Nem de
mamãe, ela me chamava. Era "dedeira". Foram as duas primeiras
palavras que ela falou na vida: papai e dedeira.
O lado bom disso tudo é que a pestinha não adoece fácil, e
não adoece mesmo. Taí algo que não é mito: amamentação fortalece nossos filhos.
Conto nos dedos de uma mão só quantas vezes na vida a Ana teve uma febre.
E a mocinha foi crescendo...
Aos sete anos: - vou fazer Direito.
Pensei: - vai mudar essa escolha ao longo da vida, nem deve
saber o que é isso direito (sem trocadilhos)
Um dia, enquanto ela ainda tinha sete anos, tivemos aquelas
brigas duras entre mãe e filha:
- Quero a minha pensão - requereu a futura bacharel em
Direito.
- Aaaaaaaaah, a senhora quer sua pensão? Saiba que a
responsável pela sua pensão sou eu, a pessoa que tem a sua guarda - respondi.
- Você, por acaso - continuou a pestinha -, sabia que tem
uma parte da pensão destinada ao entretenimento? Você sabe o que é
EN-TRE-TE-NI-MEN-TO? Eu quero essa parte todo mês pra mim.
E eu, segurando pra não rir, pensei: - ela realmente irá
para o Direito, e dará muito trabalho aos adversários.
Sim, a Ana está indo para o Direito, quer trabalhar com
Direitos Humanos, só não sabe ainda como irá atuar. Tenho certeza de que irá
brilhar.
Não me lembro de ser tão politizada, tão bem informada e ter
tanto poder de argumentação quanto ela aos 18 anos, idade que ela tem hoje.
A cada debate nosso, eu me encho de orgulho em ver o quão
sólida é sua formação humanitária, a sua formação política totalmente voltada
para o bem-estar social, para o bem-estar do outro, para, como eu já disse, os
Direitos Humanos.
E, assim, eu tenho muito orgulho de mim, como mãe, de ter
conseguido passar esses valores para minha filha. E, claro, agradeço aos meus
pais, que me ajudaram muito, enquanto estiveram com a gente.
Quanto ao Tito, pai da Ana, é muito fácil dividir a criação
dela com ele. Acho que nunca divergimos sobre a criação da nossa filha. Nossos
valores e concepção de mundo sempre foram muito parecidos.
E isso ajudou muito
a construir a pessoa que ela é hoje.
A Ana é muito parecida comigo. Não só fisicamente, mas nos
gostos. Ama política, é de esquerda, é da turma dos Direitos Humanos, ama o
Rio, ama funk, samba, Beatles, Chico e Tom tanto quanto eu.
É uma grande parceira de viagens e shows. Não me lembro bem
quando começou essa parceria em shows, mas me lembro de quando ela me
acompanhou, pela primeira vez, num show que era meu: Edu Lobo.
Palácio das Artes, ela tinha 12 anos, antes de começar a
apresentação:
- Mãe, você me trouxe num show ou num asilo? Olha a idade
dessas pessoas que estão aqui. Eu não estou gostando disso.
Mas gostou. Ao longo do show, foi fácil pra ela acompanhar o
Edu em Beatriz, Ponteio, Choro Bandido, Canto Triste, músicas que ela ouve
desde que estava na minha barriga.
Enfim, nesse Dia das Mães, é importante entender que ser mãe
é da natureza humana, não é realmente nada divino. Há muitas dificuldades nesse
processo. Mas é divino (no sentido de "ser maravilhoso") formar
alguém tão parecido conosco e ver o quanto essa pessoa pode ser companheira.
A Ana, hoje, é minha melhor amiga, a melhor parte de mim.