Muitas mulheres, mulheres inúmeras, múltiplas e diversas...
Diversas em raças, etnias, orientação sexual, classes sociais, profissões,
idades, experiências... Mulher quilombola, mulher trans, mulher lésbica, mulher
bissexual, mulher com deficiência, mulher branca, mulher hétero, mulher negra,
mulher magra, mulher obesa, mulher jovem e mulher não tão jovem mais.
É com essas mulheres, com essa diversidade de mulheres, que
tenho me reunido, há algumas poucas semanas, para desenvolver um trabalho
voltado exclusivamente para nós, mulheres, cujo resultado final será
apresentado nos próximos meses.
A cada reunião, muitas histórias de luta e, claro, muito
aprendizado.
Nossa primeira resolução: nesse grupo, a voz de cada mulher
será respeitada.
Mesmo porque, num grupo que reúne tantas mulheres fortes e
de luta, impossível silenciar ou não dar espaço para essas vozes.
E dá-lhe discussões tensas, intensas, densas e... Nossa! Discussões
lindas, que só fortalecem a luta de nós, mulheres.
- Eu não vou abrir mão de ter as mulheres bi representadas e
fortalecidas - declarou a Bella. E continuou: - Se estou aqui para
representá-las e lutar por um espaço, é isso que vou fazer.
Paralela à fala forte e incisiva, as lágrimas de indignação
davam a ideia exata das dificuldades enfrentadas pela representante das L e Bs,
do LGBT. Percebi ali toda a ansiedade para se ter fala, para ser representada,
para se ter visibilidade nesse mundo machista, misógino e homofóbico que
silencia nós, mulheres. E silencia ainda mais as lésbicas e bi.
Como eu disse na reunião de hoje, somos uma minoria (numericamente
maior, mas minoria em direitos, como a Lu bem nos lembrou) com inúmeras
minorias entre nós.
Bella representa uma minoria dentro da minoria. A luta da
Bella não é igual à minha, mulher branca e hétero. É muito mais árdua. E só ela
ou outra representante do movimento para falar sobre a dor de se enfrentar um
mundo tão desigual, tão desrespeitoso em relação à diversidade sexual.
Da mesma forma, é muito mais árdua a luta da mulher negra,
quilombola, cigana, da mulher com deficiência e de todas essas minorias
presentes na "minoria mulher".
- Acho que um livro na mão de uma das mulheres representa
bem o conhecimento, e conhecimento está ligado a poder - sugeriram.
Sim, para muitas de nós, sim. Para outras muitas mais, não.
Por que eu, jornalista, que amo estudar e ler, tenho mais
conhecimento que uma mulher sem acesso aos estudos? Que conhecimento é esse que
detenho e me deixa acima da companheira sem estudos?
Hoje, a Terezinha, representante da mulher com deficiência,
nos deu uma aula de acessibilidade, de inclusão social da mulher com
deficiência e de cidadania. A Terezinha, que, segundo ela própria, teve poucas
oportunidades de estudo. Ela falou sobre uma luta e um mundo muito distantes do
meu. E eu fiquei ali, admirando aquela mulher e toda a sua cultura e
conhecimento em relação a uma área na qual eu sou totalmente ignorante,
iletrada.
Por que, então, um livro empodera uma mulher?
E, assim, nessas discussões, nesses encontros, vamos desconstruindo preconceitos e mitos referentes a nós mesmas. Vamos aprendendo que mulheres diversas, unidas e em constante diálogos são mais fortes e capazes de ocupar os lugares, antes, restritos aos homens. Aprendemos que ouvindo a outra, aprendemos... Aprendemos sobre a dor da outra, sobre a vida, a luta e sobre como vencer. Aprendemos que dando fala a outra, aprendemos... Não silenciar nenhuma de nós tem sido a grande lição desses encontros. Encontros esses que espero que se tornem múltiplos, inúmeros, diversos como nós, mulheres.