A Lúcia (*) foi diarista na minha casa por muitos anos. Teve
o primeiro filho aos 16 anos. Sua mãe, dona Olga, também tinha sido mãe, pela
primeira vez, aos 16.
- Lúcia, estou grávida - contei sobre a nova vida que viria,
em tom de vida.
- Eu também. Acho que vou abortar - ela me disse, em tom
seco, sem vida sobre a vida que queria interromper.
Eu teria, aos 27 anos de idade, minha primeira filha.
Lúcia, aos 29, teria seu quarto bebê.
Lúcia reviu sua decisão de abortar. Semanas depois da nossa
conversa, ela confessou à minha mãe que daria a criança para adoção.
A criança nasceu. Não soubemos sequer do seu destino - ela não deixou -, como
se deu a sua entrega para a adoção.
Exatamente uma semana depois, Lúcia apareceu com Cecília (*) na minha casa. Ela estava aos prantos, desesperada.
- Fui atrás da minha filha. Não tive coragem de abandoná-la.
Foi um choque. Lúcia, uma mulher pobre e enfraquecida, não só pelo
parto, mas também pela situação extremamente vulnerável, atravessou Minas Gerais e foi até
Goiás, sabe-se lá com que força, com que dinheiro e foi atrás do casal que
estava com a guarda da Cecília. Ela tomou a menina do casal à força. Estava
ali, na minha casa, enfrentando uma verdadeira guerra judicial, naquele
momento. Foi uma adoção totalmente irregular. Ela entregou a criança diretamente para o casal, pelo que me lembro. Mas a Justiça interveio na época para resolver o caso.
Eu estava numa situação totalmente diversa, tranquila, com a
minha filha, também recém-nascida no colo, recebendo todo o amparo do pai dela
e da minha família. E, naquele momento, aprendi que:
- Aborto é sempre uma decisão dolorosa, e não se restringe apenas a "o corpo é meu, e eu posso fazer o que quero com ele". É algo bem mais complexo, que só que está prestes a tomar a decisão entende
- Quando uma mulher decide fazer um aborto, ela já chegou numa situação extrema de abandono: abandono do pai da criança; abandono dos seus familiares; abandono de políticas públicas que a ampare e que ampare a criança.
- Dizer "não aborte, dê a criança para adoção" não é tão simples, porque dar uma criança para adoção gera julgamentos: julgamento da sociedade por ter engravidado; julgamento da sociedade por ter abandonado a criança; julgamento da própria consciência. Sem políticas públicas que amparem a mulher numa tomada de decisão como essa, esqueça! Não fale em dar para adoção.
Bem, voltando à historia, a Lúcia enfrentou uma tremenda
guerra judicial mesmo. Foram muitas as dores de ambos os lados: dela e, claro, do
casal que colocou toda uma expectativa em cima da adoção. Foi só uma semana de
contato entre o casal e a criança? Não, não podemos pensar assim. Eles também, com certeza,
têm uma história, que nunca cheguei a conhecer, de dor, de luta por um(a)
filho(a) adotivo(a), e não podemos medir o sofrimento por que passaram em ver
aquele sonho escorrer pelas mãos. Sei disso, porque vi o quanto lutaram pela
Cecília.
Quanto à Lúcia e à Cecília, há alguns anos não as vejo. Tenho uma saudade danada da Lúcia que, por anos, fez parte da minha vida.
(*) Nomes fictícios.