quarta-feira, 26 de julho de 2017

Amor herdado

Dia de celebrar os avós, e eu tenho uma historinha para contar sobre os meus bisavós.

Eu não conheci a Maria da Conceição Moura Drummond. Sei pouco sobre ela. Casada com João Drummond, mãe de uma porrada de filhos, entre eles, minha avó, que levava o seu nome, e avó de uma porrada de netos, entre eles, meu pai.  Pois é, Maria da Conceição era minha bisavó.

Também não conheci Ascânio Valladares Roquette, casado com a Júlia Silva Neiva, avós da minha mãe, meus bisavós maternos. A Júlia, eu conheci. Mas a Júlia é uma capítulo à parte. Seu gênio bravo e as histórias a partir desse "mal" dão um livro, no mínimo, interessante, pra não dizer "emocionante".

Porém, a história aqui é sobre vó Neném e vovô Roquette: era assim que chamavam Maria da Conceição e Ascânio. Não sei se os dois chegaram a se conhecer. Isso, nunca ninguém me contou e só agora me dei conta que nunca tive curiosidade de perguntar. Mas eles tinham algo em comum, que os unia, e que me une a eles: o amor às escolas de samba do Rio.

Pois bem, meu amor pelas escolas de samba é herdado... herdado desses dois. E se existe realmente reencarnação, acho que os dois se juntaram lá em cima e vieram tudo junto e misturado em mim.

Vó Neném: mulher, negra, pobre, descendente de escravos, nascida no interior de Minas.

Vovô Roquette: homem, branco, olhos azuis, francês, veio para o Brasil já adolescente, falava sete idiomas fluentemente - e assim era toda a família -, neto de senhores de escravos.

É... só o que os unia era o amor pelo samba e pelo Carnaval do Rio.

Vó Neném passou a vida vendo os desfiles das escolas de samba do Rio só nos sonhos, nas revistas. Acredito que nem a TV preto e branco transmitia os desfiles na época. Acredito que nem TV preto e branco vovó tinha. Trabalhava dia e noite, num serviço de semiescravidão para ajudar o marido a criar os filhos. Mas nem todo o dinheiro ia para a casa e para os filhos. Parte, ela guardava para realizar o sonho da sua vida:  ver, ao vivo, o desfile dos sonhos. Ela não tinha uma escola em especial. Se tinha, nunca contou pra ninguém.

Vovô Roquette viajava o Brasil quando bem queria. Na maior parte do tempo, ficava no Rio, curtindo o samba com o cariocas.

"Ascânio sumiu" - gritava alertada minha bisavó Júlia. E só não se afligia mais, porque, no fundo, no fundo, seu coração sabia onde estava o marido.  Três dias depois o francês aparecia em casa, um apartamentinho na Barata Ribeiro, em Copacabana. Tava em Madureira, mais precisamente, na Portela, sua escola do coração, no meio do samba, fazendo o que ele mais amava.

Enquanto isso, o sonho movia a labuta e a vida de vó Neném: "esse dinheirinho vai pros filhos... mas esse aqui vai pro Carnaval do Rio" - eram assim as contas mensais.

Mês de fevereiro, e vovô Roquette estava lá, na Praça Onze, na Avenida Presidente Vargas, pronto pra ver a Portela.


Vovó nunca teve essa sorte. O dinheiro de uma vida não foi suficiente. Morreu em pleno fevereiro, em pleno Carnaval.