Dia de celebrar os avós, e eu
tenho uma historinha para contar sobre os meus bisavós.
Eu não conheci a Maria da
Conceição Moura Drummond. Sei pouco sobre ela. Casada com João Drummond, mãe de
uma porrada de filhos, entre eles, minha avó, que levava o seu nome, e avó de
uma porrada de netos, entre eles, meu pai.
Pois é, Maria da Conceição era minha bisavó.
Também não conheci Ascânio
Valladares Roquette, casado com a Júlia Silva Neiva, avós da minha mãe, meus
bisavós maternos. A Júlia, eu conheci. Mas a Júlia é uma capítulo à parte. Seu
gênio bravo e as histórias a partir desse "mal" dão um livro, no
mínimo, interessante, pra não dizer "emocionante".
Porém, a história aqui é sobre vó
Neném e vovô Roquette: era assim que chamavam Maria da Conceição e Ascânio. Não
sei se os dois chegaram a se conhecer. Isso, nunca ninguém me contou e só agora
me dei conta que nunca tive curiosidade de perguntar. Mas eles tinham algo em
comum, que os unia, e que me une a eles: o amor às escolas de samba do Rio.
Pois bem, meu amor pelas escolas
de samba é herdado... herdado desses dois. E se existe realmente reencarnação,
acho que os dois se juntaram lá em cima e vieram tudo junto e misturado em mim.
Vó Neném: mulher, negra, pobre,
descendente de escravos, nascida no interior de Minas.
Vovô Roquette: homem, branco, olhos
azuis, francês, veio para o Brasil já adolescente, falava sete idiomas fluentemente
- e assim era toda a família -, neto de senhores de escravos.
É... só o que os unia era o amor
pelo samba e pelo Carnaval do Rio.
Vó Neném passou a vida vendo os
desfiles das escolas de samba do Rio só nos sonhos, nas revistas. Acredito que
nem a TV preto e branco transmitia os desfiles na época. Acredito que nem TV
preto e branco vovó tinha. Trabalhava dia e noite, num serviço de semiescravidão
para ajudar o marido a criar os filhos. Mas nem todo o dinheiro ia para a casa
e para os filhos. Parte, ela guardava para realizar o sonho da sua vida: ver, ao vivo, o desfile dos sonhos. Ela não tinha uma escola em especial. Se tinha, nunca contou pra ninguém.
Vovô Roquette viajava o Brasil
quando bem queria. Na maior parte do tempo, ficava no Rio, curtindo o samba com
o cariocas.
"Ascânio sumiu" - gritava
alertada minha bisavó Júlia. E só não se afligia mais, porque, no fundo, no
fundo, seu coração sabia onde estava o marido. Três dias depois o francês aparecia em casa,
um apartamentinho na Barata Ribeiro, em Copacabana. Tava em Madureira, mais
precisamente, na Portela, sua escola do coração, no meio do samba, fazendo o
que ele mais amava.
Enquanto isso, o sonho movia a
labuta e a vida de vó Neném: "esse dinheirinho vai pros filhos... mas esse
aqui vai pro Carnaval do Rio" - eram assim as contas mensais.
Mês de fevereiro, e vovô Roquette
estava lá, na Praça Onze, na Avenida Presidente Vargas, pronto pra ver a
Portela.
Vovó nunca teve essa sorte. O
dinheiro de uma vida não foi suficiente. Morreu em pleno fevereiro, em pleno
Carnaval.