domingo, 21 de maio de 2017

Um desabafo

Estou vivendo uma crise de valores morais e éticos, desde que Andréa Neves foi presa e que o STF mandou suspender o mandato de Aécio no Senado. Eu sabia que, um dia, isso aconteceria. Não que haveria prisão e suspensão de mandato dessa corja, que é a família Neves. Mas que eu comemoraria qualquer desgraça que acontecesse com eles, caso ela acontecesse, colocando em xeque tudo aquilo que prego de moral, ao longo da minha vida. A minha briga com o PSDB se iniciou bem antes da "era Aécio e Andréa" em Minas. Começou com Eduardo Azeredo, em 1996. Eu era recém-formada, cobria política municipal.
Dr. Célio de Castro era o prefeito de Belo Horizonte. Havia vencido figurões da política belo-horizontina como a senadora Júnia Marise, do PMDB, Virgílio Guimarães, do PT, e Amilcar Martins, apoiado pelo governador Azeredo. Dr Célio era um então desconhecido e venceu com o genial slogan "é o melhor, e vai ganhar". Nós, belo-horizontinos, acreditamos naquilo. Dr. Célio foi o cara que primeiro me ensinou que, sim, é possível fazer política de forma séria, comprometida, ética, e que nem todos os políticos são iguais. Esqueçam o jargão "todo político é ladrão". Dr. Célio não se encaixava nisso, ele estava longe do jogo sujo da política que me fizeram acreditar, durante os anos da ditadura militar, que não havia solução. Eu me encantei pelo Dr. Célio. E passei a dar espaço para ele nas minhas matérias, com o apoio do meu editor, também um admirador do novo prefeito de BH. Eu era uma repórter atrapalhada, uma criança praticamente e, no meu primeiro encontro com o Dr. Célio, o cerquei no meio de uma escada, quando ele estava se preparando para votar, no segundo turno das eleições em que ele certamente seria vencedor - todos já sabiam do resultado - para entrevistá-lo. No final da longa entrevista - com um gravador de fita cassete - disse para o futuro prefeito da capital, sem nenhum constrangimento: - Droga! Falhou. Não gravou nada. Deu mau contato. Podemos gravar de novo? - Claro, sem problemas. - E o senhor pode segurar o gravador pra mim? - Sem problema algum, querida. Sim, esse foi o meu primeiro contato com aquela figura encantadora de quem tenho tanta saudade. Mas voltando ao PSDB, o espaço que estava dando ao Dr. Célio incomodou o governador da época. Foram vários os atritos com o governador e com seu pupilo Amílcar. Vários. Na mesma proporção, crescia a confiança do Dr. Célio em mim. Não adianta dizer que jornalistas são imparciais. Nossa visão de mundo, nossas simpatias e antipatias, nossos valores, tudo está ali na matéria, na forma como a escrevemos, no espaço que damos para a fala do entrevistado, no espaço que damos para a própria matéria. Estava claro o quanto eu e o meu editor gostávamos do Dr. Célio. Meu editor saiu do jornal. Perseguição do governador. E o editor geral veio pra cima de mim, num telefonema que recebi, já tarde da noite, num tom extremamente agressivo, do qual nunca vou me esquecer. Aos berros, me disse: - Suas matérias, de agora em diante, vão passar pelo assessor do governador. Nada sai sem passar por ele. Entendeu? Não deu uma semana, e eu fui parar na editoria de Cidades. Não deu um mês, eu pedi demissão. Resolvi que não me sujeitaria ao Azeredo. Fui para as Assessorias de Comunicação, trabalhar com quem me respeitava. O governo seguinte, do Itamar Franco, nos deu um descanso. Logo depois, aí sim, vieram os anos mais pesados para o jornalismo mineiro, com Andréa e Aécio comandando toda a imprensa de perto. E eu, definitivamente, já estava longe da grande imprensa, pois não passaria, de novo, o que passei com Azeredo. E eu garanto a vocês que minha história com Azeredo foi fichinha perto do que o que meus colegas passaram com os irmãos Neves. Houve invasão de apartamentos; apreensão de equipamentos de trabalhos; prisões, não só de jornalista - e olha que tenho diferenças com esse jornalista, mas também de publicitário, que ousaram denunciar o então governador. Foram inúmeras agressões aos direitos e garantias fundamentais que só se viram durante nossa ditadura. Nós, jornalistas mineiros, vibramos muito com tudo o que aconteceu essa semana. E incrivelmente fomos cobrados por isso. Exatamente isso que estão lendo: fomos cobrados por isso. Fomos, por mais de uma década, pisoteados nos nossos direitos, nas nossas liberdades, na nossa dignidade, na nossa sobrevivência, e estamos sendo cobrados e criticados por quem não sofreu na pele o que sofremos. Desculpem-nos, mas nós temos esse direito de desabafar. Não estamos totalmente satisfeitos ou livres, pois parte da nossa imprensa ainda está presa a grupos empresariais que ferem os mais diversos direitos dos nossos colegas. Minas é um estado que ainda cheira ao coronelismo, quando o assunto é jornalismo. Mas continuaremos lutando para que Andréas e Aécios sejam cada vez mais exceções, e não regras no nosso estado.