Por Romyna Lanza
Era a primeira vez que Lucas (*), 16 anos, entrava numa sala de audiência. Ele estava há cerca de um mês num Centro de Internação Provisória (CEIP). Havia sido detido com droga. Muita droga. Crack, para ser mais exata. Apesar do passado limpo, dos bons antecedentes, sabia que a quantidade não ajudaria Lucas. A pena seria pesada. Lucas entrou naquela sala algemado, acompanhado pelos agentes do CEIP. O juiz pediu para que chamassem o pai, que estava no corredor do Fórum. Joaquim (*) entrou. Cara fechada, disse um "boa tarde" secamente para as pessoas que estavam na sala. Não olhou para o filho em momento algum, não o abraçou, não se emocionou em vê-lo algemado, não perguntou "como você está?", como geralmente os pais faziam, não soltou uma lágrima sequer. Um homem totalmente gelado, sem sentimento algum. Era essa a impressão que Joaquim nos passava. Sentou-se na outra ponta da mesa, bem distante do filho e ficou olhando pra frente, alheio a tudo que acontecia. Naquele dia, a escrevente havia faltado, e o juiz me pediu que eu o acompanhasse na audiência. Já tinha feita algumas nos meus cinco anos de Tribunal, e nunca, jamais tinha visto um pai como aquele. Comentei com o juiz: - Que homem é esse? E ele, com mais de 15 anos de experiência no Juizado da Infância e Adolescência, me respondeu: - Também estou espantado. Acompanhei o interrogatório inteiro do Lucas olhando para aquele homem, julgando-o. Sim, naquele momento, o réu, para mim, era Joaquim: "por isso que o filho está aqui. nunca teve amor do pai, atenção, carinho. sabe-se lá que tipo de violência física e psicológica esse rapaz deve ter sofrido em casa? não tinha outro destino possível a não ser o crime. um carente de pai esse garoto". Eis o meu veredito para Joaquim: um monstro que abandonou o filho a própria sorte. Ele, sim, deveria cumprir a pena no lugar do Lucas. Joaquim, ignorando meu veredito e o filho, continuou ali, imóvel, olhando para frente. Fim do interrogatório do Lucas. O juiz, antes de liberá-lo, ainda perguntou ao Joaquim se ele queria dizer alguma coisa para o filho. Ele respondeu negativamente com a cabeça, sempre olhando para frente. Lucas se levantou para ir embora, acompanhado dos agentes penitenciários. Quando passava pelo pai, Joaquim disse pro juiz: - doutor, espere. O juiz mandou os agentes esperarem: - eu quero, sim, abraçar meu filho. Ficamos surpresos. O juiz autorizou. Joaquim e Lucas se abraçaram. Choraram de soluçar. Foi o abraço mais longo e o choro mais sentido que já vi numa sala de audiência durante minha passagem pelo Tribunal. Depois que Lucas saiu, Joaquim nos contou sua história, toda sua luta diária, todo seu amor aos cinco filhos - Lucas é o caçula - e toda sua preocupação em relação ao destino do filho. E eu que tinha julgado Joaquim um monstro, agora, entendia que todo aquele silêncio e aquele olhar tão duro eram, na verdade, de dor. (*) Os nomes são fictícios
Era a primeira vez que Lucas (*), 16 anos, entrava numa sala de audiência. Ele estava há cerca de um mês num Centro de Internação Provisória (CEIP). Havia sido detido com droga. Muita droga. Crack, para ser mais exata. Apesar do passado limpo, dos bons antecedentes, sabia que a quantidade não ajudaria Lucas. A pena seria pesada. Lucas entrou naquela sala algemado, acompanhado pelos agentes do CEIP. O juiz pediu para que chamassem o pai, que estava no corredor do Fórum. Joaquim (*) entrou. Cara fechada, disse um "boa tarde" secamente para as pessoas que estavam na sala. Não olhou para o filho em momento algum, não o abraçou, não se emocionou em vê-lo algemado, não perguntou "como você está?", como geralmente os pais faziam, não soltou uma lágrima sequer. Um homem totalmente gelado, sem sentimento algum. Era essa a impressão que Joaquim nos passava. Sentou-se na outra ponta da mesa, bem distante do filho e ficou olhando pra frente, alheio a tudo que acontecia. Naquele dia, a escrevente havia faltado, e o juiz me pediu que eu o acompanhasse na audiência. Já tinha feita algumas nos meus cinco anos de Tribunal, e nunca, jamais tinha visto um pai como aquele. Comentei com o juiz: - Que homem é esse? E ele, com mais de 15 anos de experiência no Juizado da Infância e Adolescência, me respondeu: - Também estou espantado. Acompanhei o interrogatório inteiro do Lucas olhando para aquele homem, julgando-o. Sim, naquele momento, o réu, para mim, era Joaquim: "por isso que o filho está aqui. nunca teve amor do pai, atenção, carinho. sabe-se lá que tipo de violência física e psicológica esse rapaz deve ter sofrido em casa? não tinha outro destino possível a não ser o crime. um carente de pai esse garoto". Eis o meu veredito para Joaquim: um monstro que abandonou o filho a própria sorte. Ele, sim, deveria cumprir a pena no lugar do Lucas. Joaquim, ignorando meu veredito e o filho, continuou ali, imóvel, olhando para frente. Fim do interrogatório do Lucas. O juiz, antes de liberá-lo, ainda perguntou ao Joaquim se ele queria dizer alguma coisa para o filho. Ele respondeu negativamente com a cabeça, sempre olhando para frente. Lucas se levantou para ir embora, acompanhado dos agentes penitenciários. Quando passava pelo pai, Joaquim disse pro juiz: - doutor, espere. O juiz mandou os agentes esperarem: - eu quero, sim, abraçar meu filho. Ficamos surpresos. O juiz autorizou. Joaquim e Lucas se abraçaram. Choraram de soluçar. Foi o abraço mais longo e o choro mais sentido que já vi numa sala de audiência durante minha passagem pelo Tribunal. Depois que Lucas saiu, Joaquim nos contou sua história, toda sua luta diária, todo seu amor aos cinco filhos - Lucas é o caçula - e toda sua preocupação em relação ao destino do filho. E eu que tinha julgado Joaquim um monstro, agora, entendia que todo aquele silêncio e aquele olhar tão duro eram, na verdade, de dor. (*) Os nomes são fictícios