sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Filé em cinco atos

Ato 1

Mal pisei na cidade por onde moraria na próxima década, Filé, semifilhote de basset, chegou lá em casa com casinha e duas vasilhinha, uma pra ração e outra pra água, praticamente junto comigo.

- Casinha... vasilhinhas... huuuummm... - estranhou meu pai

Nem precisava ser uma mãe Dinah pra fazer a previsão:

- Isso só pode ser presente de grego.

Breno, meu amigo, que estava me doando o presente de gre..., quer dizer, o Filé, jurou que não. Filé era um doce, segundo ele.

Filé era um cachorro bravo pra cacete. E já se apresentou assim logo que chegou. Só eu e meu pai dávamos conta dele. Minha mãe e a Ana, ainda um bebê, só se aproximavam com muita cautela.

Os vizinhos tinham medo dele. Conheciam a fama de mau. E a fama circulava pelo bairro.

Ato 2

Três horas da manhã. Ele e a Luma, a pastora belga, aprontaram uma latição sem fim lá no fundo do nosso quintal. Um quintal imenso, maior que uns tantão de Jorge Aragão juntos.

Liguei pra polícia.

- Moça, não vou entrar aí de jeito nenhum - me falou o PM.

- Por que não?

- Tá louca?

- Não vai me dizer que cê tá com medo?

- Óbvio que tô.

- Mas PM não tem que cuidar da segurança da gente, prender ladrão etc.?

- Não tô falando de ladrão, não, moça. Tô falando daquele cachorrinho ali. Ele é bravo pra cacete. Não entro mesmo.

- Ah, porra. Me dá sua arma aí, que eu mesma vou lá.

- Ah, não dou arma não. Tá louca?

Nisso, os cachorros já estavam razoavelmente calmos, e a louca aqui foi no fundo do quintal ver o que tinha. Se tinha ladrão, já tinha fugido. E Filé fez o mesmo. Só que fugiu pro lado da PM, que enlouqueceu. Seis policiais. Foi cada um pro lado, fugindo da pestinha. Como meu pai estava por perto, ele não avançou em nenhum, mas correu de um lado pro outro, passando por debaixo da perna de todos. Meu pai, claro, só gargalhava, não se lembrava de mandar a pestinha entrar. Eu tive que dar um berro pro meu pai voltar ao normal e botar moral na situação.

Ato 3

Meu pai faleceu. Filé chorou junto comigo, enquanto eu passava o terno com que ele seria enterrado.

Ato 4

Eu e minha mãe resolvemos mudar de casa.

- Como vamos levar Filé? Ele não deixa ninguém encostar nele - perguntei pra minha mãe.

- Dá Rivotril pra ele - respondeu minha mãe.

Achei a ideia maravilhosa.

Dei quatro gotas. O cachorro adormeceu e o levamos pra casa nova. BRIN CA DEI RI NHA. O cachorro enlouqueceu e saiu pulando todas as janelas da casa. Tive que deixar o Filé pra trás. No outro dia, com o coração na mão, fui lá ver como ele estava. Quando parei o carro na porta de casa, e ele me viu, correu, pulou a janela do carro e começou a lamber meu rosto, algo que ele não fazia desde filhote. Fomos, enfim, pra nova casa.

Ato 5

Filé estava cada vez mais bravo. Resolvi doá-lo. Minha mãe estava idosa e minha filha tinha só sete anos. Deixei um anúncio no petshop, deixando bem claro o quanto ele era bravo. O mestre de obras de uma construção me ligou, dizendo que precisava de um cão bem, mas bem bravo pra vigiar a obra.

Eu disse: - ENCONTROU.

Ele e mais três pedreiros foram buscar Filé.

GAR GA LHA RAM quando viram aquela coisinha pequenininha.

CHO RA RAM quando tentaram pegar Filé.

20 minutos de tentativa para laçá-lo.

Lá se foi Filé. Meu coração ficou na mão. O companheirinho do meu pai tava indo embora. Era necessário.

No outro dia, 7h30 da manhã, campainha toca.

- Vim devolver o Filé. Ele não deixou um pedreiro sequer entrar na obra.

- Moço, não aceito devolução não.

Enfim, Filé ficou com um dos pedreiros. O cara tinha jeitão do meu pai. Eles se entenderam. Via os dois passeando pela Lagoa Paulino, a principal de Sete Lagoas, de vez em quando. Era uma festa, quando ele me via. Tava feliz.