quinta-feira, 21 de maio de 2015

Hoje, encerro um ciclo de oito anos no TJ Minas

"A senhorinha, que acabara de entrar no Fórum Desembargador José Félix, em Sete Lagoas, me chamou a atenção pela extrema simplicidade, o olhar vazio, desesperançoso.
O contraste era o netinho, que ela trazia consigo. Sorridente, falante, serelepe.
Eu fui a primeira pessoa que ela viu. Naquela época, eu, uma novata no Tribunal de Justiça de Minas, trabalhava no Protocolo, a porta de entrada do fórum setelagoano.
Ela me mostrou os papéis que segurava. Perguntei qual era a sua dúvida. Mal consegui ouvir sua voz. Muito baixa. Além do mais, ela sempre virava o rosto, desviando seu olhar do meu. O olhar vazio olhava para o nada.
Descobri que ela precisava pagar a multa do filho, parte da pena resultante de uma condenação penal por roubo.
Eram três os lugares a serem percorridos: Central de Guias, Vara de Execuções Penais e, finalmente, Banco do Brasil, ali, dentro do fórum mesmo.
Ensinei os caminhos.
Ela permaneceu imóvel na minha frente.
Entendi que minha explicação fora inútil.
Resolvi acompanhá-la em sua jornada.
O misto de simplicidade e timidez não a deixava conversar comigo. Não consegui saber nem seu nome. Assim, eu, uma tagarela, resolvi respeitar seu silêncio. Apenas a acompanhei e, claro, brinquei com o menino serelepe.
Retirei a guia, peguei a assinatura e o carimbo do escrivão da VEP e a deixei no caixa do BB.
No mês seguinte, ela voltou a me procurar.
Novamente, Central de Guias, VEP e Banco do Brasil.
Isso se repetiu pelos dois meses que se seguiram até que, certo dia, minha colega, a Débora, que trabalhava na Central de Guias/Distribuição, me disse:
- A senhorinha com o netinho veio aqui, ontem, te procurar, mas você não estava. Eu a acompanhei até a VEP e ao banco.
Falei:
- Não precisava, ela já sabe o caminho.
A Débora, mais velha de Tribunal que eu, me respondeu:
- Sim, ela sabe. Mas você não percebeu que o que ela quer é a companhia, a atenção, o carinho?
Foi então que defini que minha passagem pelo Tribunal de Justiça teria que fazer a diferença com a população que eu atenderia. Não deixaria ninguém sair dali sem resolver o que precisasse ser resolvido, não deixaria ninguém passar por um mau atendimento, não deixaria ninguém ser desrespeitado.
Em quase oito anos de varas criminais e infrancional e cível da infância e juventude, tive contato direto e diário com a população mais carente e sofrida de Sete Lagoas e Belo Horizonte.

As únicas experiências felizes possíveis num fórum são as adoções e as guardas. Aliás, minto. Até mesmo em casos de adoção e guarda, há uma história triste por detrás, uma história de abandono, de negligência ou de violência.
É impossível ter qualquer alegria numa vara criminal ou infracional de crianças e adolescentes.
Nem mesmo a liberdade significa alegria. Conquistar a liberdade significa que alguém estava preso. E essa prisão, certamente, destruiu a vida daquele preso e dos seus familiares.
Conquistar a liberdade significa que alguém estava preso por cometer um crime contra outro alguém, no caso, uma vítima.
Numa vara criminal e infracional de crianças e adolescentes, todos são vítimas.
Hoje, encerro um ciclo de quase oito anos de Tribunal de Justiça.
Deixo o Tribunal para trabalhar na assessoria de comunicação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, com o Sávio Souza Cruz.
Se, por um lado, estou extremamente feliz pela nova etapa profissional, por outro, estou com o coração DES-PE-DA-ÇA-DO por abandonar a população sofrida de BH e, claro, por deixar meus colegas.
Foram muitas as histórias, foram muitas as amizades e, principalmente, foi muito o aprendizado.
Não foi fácil, em 2013, deixar a comarca de Sete Lagoas para voltar para BH. Fiquei com medo de não encontrar uma equipe tão legal, tão profissional, por não conquistar amigos entre os meus colegas, como aconteceu naquela comarca.
Mas foi muito fácil quando, no meu primeiro dia, de volta a Belo Horizonte, fui recepcionada tão carinhosamente pela nova equipe.
Logo depois da minha chegada, enfrentei a doença e morte da minha mãe. E o apoio foi INCONDICIONAL.
E esse apoio incondicional se repetiu, nos últimos dois anos e meio, em momentos de crises. Apoio incondicional e recíproco.
Deixo o Tribunal com a certeza de que vou deixar saudade também. Pude ter essa certeza vendo as lágrimas dos colegas,ouvindo as palavras de carinho, recebendo homenagens com festinha surpresa, flores e cartões e, principalmente, pude ter essa certeza sentindo cada um dos abraços.
Mas não, não pretendo voltar tão cedo, apesar de tudo. Um novo desafio profissional está aí e pretendo vencê-lo. Deixem-me quietinha na Semad.

PS. A senhorinha me marcou tanto que foi sobre ela que escolhi escrever na minha despedida - temporária; ou não - do Tribunal. Ela me fez um bem imenso. Uma lição de vida para mim.