quinta-feira, 7 de maio de 2015

Mas é que eu tenho ciúmes de você...

Minha mãe atendeu ao telefone:

- Alô!

E ela, que sempre foi tão falante, naquela ligação, era apenas monossílabos:

- Sei...

- Ok.

- Uhum...

- Tá.

Duas palavras:

- Quantos são?

Mais duas:

- Meu Deus!

Até que...

- Eu não acredito que vocês estão fazendo isso comigo. Vocês têm noção de que eu poderia ter caído morta, aqui, agora, de enfarte? Com isso, não se brinca.

E desligou o telefone FURIOSA. Virou-se pra mim:

- Sua irmã Alana mandou uma amiga me ligar, passando um trote, dizendo que é amante do seu pai e que tem três filhos com ele. Pode isso? Vou matar sua irmã, quando ela chegar em casa.

Era um 1º de abril. Minha irmã quis se vingar de todas as mentiras que minha mãe nos pregava nesse dia. Ninguém a superava num 1º de abril. Pegava todo mundo MESMO.

E também ninguém a superava no ciúme. Ninguém...ou melhor...talvez, meu pai.

As brigas são memoráveis.

Minha mãe quebrava tudo que encontrava pela casa.

Certa vez, quebrou um móvel inteiro de porcelanas e cristais.

Em outra, mordeu meu pai e arrancou um pedaço da sua camisa. Uma camisa vermelha.

Ficou engasgada. Quase morreu sufocada.

Aprendeu a lição.

Nunca mais mordeu meu pai.

Ele não ficava atrás.

Imaginava que ela tinha amantes, muitos, por todos os lados.

A coisa ficava séria, muito séria.

Ficava dias sem falar com ela. E ela só chorava.

Em uma dessas crises, talvez, a pior delas, minha irmã mais velha, a Cláudia, resolveu se meter...mas usando o método Cláudia de resolver os problemas: dramática e tocando terror.

Segurou as mãos do nosso pai, olhou bem nos seus olhos e disse:

- Quem é o amante dela, pai? Eu preciso saber. Estou do seu lado. Vamos botar mãe pra fora de casa hoje mesmo.

Ele, morto de medo da minha irmã expulsar minha mãe de casa:

- O que é isso, menina? De onde tirou essa ideia? Ficou louca? Sua mãe nunca teve um amante na vida. Tira isso da cabeça.

Minha irmã ria por dentro. Problema resolvido pelo método Cláudia.

Era assim: minha mãe não podia falar “oi” com outro homem que o ciúme dele explodia. Ele não podia falar “oi” com outra mulher, que minha mãe enlouquecia.

- Com quem você toma café todos os dias na padaria? – perguntava ela, numa braveza só.

- Com os balconistas e com mais uma meia dúzia de vizinhos.

- Vizinhos? Aposto que a Maria José está lá.

Maria José foi nossa vizinha por 30 anos, nossa amiga. Mas não tinha jeito, minha mãe morria de ciúmes dela com meu pai.

- Laís, eu tomo café na padaria porque saio de casa às 5h30 da manhã, todos os dias. Não dá tempo de fazer café, ir na padaria comprar o pão e voltar. No mais, eu gosto. Encontro pessoas, bato um bom papo, me faz bem. Não imagine coisas que não existem – dizia ele numa sensatez que ele mesmo nunca teve quando o assunto era ela.

- Romyna, seu pai tem uma amante – me confidenciou minha mãe, quando já morávamos em Sete Lagoas.

- Outra? Poxa! Ele não para, hein? – disse, às gargalhadas.

Levei um tapa por causa da brincadeira.

A amante, em questão, era uma vizinha da rua Maria Helena. Eu a conhecia bem. Ela parava todos os dias, no portão da nossa casa, para conversar com meu pai.

- Mãe, eles não conseguem nem disfarçar, hein? Bem debaixo do seu nariz.

Outro tapa.

Nem mesmo nos seus últimos dias, o ciúme do meu pai se aquietou.

No hospital, seu médico, que também era médico da minha mãe, há anos, deu um beijo na testa dela. E na frente dele. Foi ousado o cara.

Meu pai ficou FURIOSO.

- Sua mãe está proibida de vir aqui – falou com a Patsy, minha irmã. E ele também. Quero trocar de médico.

- Pai, você não pode fazer isso. O carinho que ele tem por ela é carinho de médico-paciente, de filho pra mãe. Ele a acompanha há anos e está te acompanhando durante todos esses dias. Não faça isso, por favor.

Não adiantou minha irmã implorar.

- Você acha mesmo que eu sou bobo? Aquilo foi beijo de amante.

Ele tinha um rádio inseparável, onde ouvia os jogos do Cruzeiro e do Flamengo. Levamos o rádio para o hospital, a pedido dele. Só não sabíamos que daquele inofensivo rádio sairia uma arma.

- Tá vendo essa pilha aqui? – mostrou para minha irmã. Ela vai ficar debaixo do meu travesseiro. Se um dos dois aparecer, jogo essa pilha neles.

Uma semana depois, ele partiu. Minha mãe não pode vê-lo naqueles dias. Ele estava realmente indignado. Ou não. Hoje, penso se ele não fez aquilo por ciúmes ou por amor, para poupá-la da despedida. O ciúme dos dois era diretamente proporcional ao amor.

Minha mãe entrou em casa, aos prantos:

- Romyna, conheci a amante do seu pai hoje.

- Mãe, pai morreu há um mês e você ainda está com essa história de amante?

Entendi que ela estava se referindo à moça que sempre conversava com meu pai, no portão da nossa casa.

- Ela não é amante dele, não, Romyna. Nunca foi. É uma pessoa maravilhosa. Passamos a manhã conversando. Convidei ela pra tomar um café com a gente amanhã. Você se importa?

- Se você me garantir que ela nunca foi amante dele, tudo bem? – falei, rindo.

Mais um tapa.

E o ciúme não parou.

Passaram-se três anos da morte do meu pai.

- Você não sabe o que aconteceu – disse minha mãe, irritada.

-  O que foi?

- Maria José, nossa vizinha de Belo Horizonte, morreu.

- Nossa, mãe! Que chato!

- Chato mesmo. Ela me passou a perna. Morreu antes de mim. Vai se encontrar com seu pai antes de mim.

- Eu não acredito no que você está falando.

- Pode acreditar. Uma hora dessas, ela deve estar lá em cima tomando café com ele e mostrando o vestido novo.


E foi assim, entre tapas, beijos, ciúmes e muitas histórias divertidas, que os dois viveram 58 anos de história.