Minha mãe atendeu ao telefone:
- Alô!
E ela, que sempre foi tão falante, naquela ligação, era
apenas monossílabos:
- Sei...
- Ok.
- Uhum...
- Tá.
Duas palavras:
- Quantos são?
Mais duas:
- Meu Deus!
Até que...
- Eu não acredito que vocês estão fazendo isso comigo. Vocês
têm noção de que eu poderia ter caído morta, aqui, agora, de enfarte? Com isso,
não se brinca.
E desligou o telefone FURIOSA. Virou-se pra mim:
- Sua irmã Alana mandou uma amiga me ligar, passando um
trote, dizendo que é amante do seu pai e que tem três filhos com ele. Pode
isso? Vou matar sua irmã, quando ela chegar em casa.
Era um 1º de abril. Minha irmã quis se vingar de todas as
mentiras que minha mãe nos pregava nesse dia. Ninguém a superava num 1º de
abril. Pegava todo mundo MESMO.
E também ninguém a superava no ciúme. Ninguém...ou
melhor...talvez, meu pai.
As brigas são memoráveis.
Minha mãe quebrava tudo que encontrava pela casa.
Certa vez, quebrou um móvel inteiro de porcelanas e
cristais.
Em outra, mordeu meu pai e arrancou um pedaço da sua camisa.
Uma camisa vermelha.
Ficou engasgada. Quase morreu sufocada.
Aprendeu a lição.
Nunca mais mordeu meu pai.
Ele não ficava atrás.
Imaginava que ela tinha amantes, muitos, por todos os lados.
A coisa ficava séria, muito séria.
Ficava dias sem falar com ela. E ela só chorava.
Em uma dessas crises, talvez, a pior delas, minha irmã mais
velha, a Cláudia, resolveu se meter...mas usando o método Cláudia de resolver
os problemas: dramática e tocando terror.
Segurou as mãos do nosso pai, olhou bem nos seus olhos e
disse:
- Quem é o amante dela, pai? Eu preciso saber. Estou do seu
lado. Vamos botar mãe pra fora de casa hoje mesmo.
Ele, morto de medo da minha irmã expulsar minha mãe de casa:
- O que é isso, menina? De onde tirou essa ideia? Ficou
louca? Sua mãe nunca teve um amante na vida. Tira isso da cabeça.
Minha irmã ria por dentro. Problema resolvido pelo método
Cláudia.
Era assim: minha mãe não podia falar “oi” com outro homem
que o ciúme dele explodia. Ele não podia falar “oi” com outra mulher, que minha
mãe enlouquecia.
- Com quem você toma café todos os dias na padaria? – perguntava
ela, numa braveza só.
- Com os balconistas e com mais uma meia dúzia de vizinhos.
- Vizinhos? Aposto que a Maria José está lá.
Maria José foi nossa vizinha por 30 anos, nossa amiga. Mas
não tinha jeito, minha mãe morria de ciúmes dela com meu pai.
- Laís, eu tomo café na padaria porque saio de casa às 5h30
da manhã, todos os dias. Não dá tempo de fazer café, ir na padaria comprar o
pão e voltar. No mais, eu gosto. Encontro pessoas, bato um bom papo, me faz
bem. Não imagine coisas que não existem – dizia ele numa sensatez que ele mesmo
nunca teve quando o assunto era ela.
- Romyna, seu pai tem uma amante – me confidenciou minha
mãe, quando já morávamos em Sete Lagoas.
- Outra? Poxa! Ele não para, hein? – disse, às gargalhadas.
Levei um tapa por causa da brincadeira.
A amante, em questão, era uma vizinha da rua Maria Helena.
Eu a conhecia bem. Ela parava todos os dias, no portão da nossa casa, para
conversar com meu pai.
- Mãe, eles não conseguem nem disfarçar, hein? Bem debaixo
do seu nariz.
Outro tapa.
Nem mesmo nos seus últimos dias, o ciúme do meu pai se
aquietou.
No hospital, seu médico, que também era médico da minha mãe,
há anos, deu um beijo na testa dela. E na frente dele. Foi ousado o cara.
Meu pai ficou FURIOSO.
- Sua mãe está proibida de vir aqui – falou com a Patsy,
minha irmã. E ele também. Quero trocar de médico.
- Pai, você não pode fazer isso. O carinho que ele tem por
ela é carinho de médico-paciente, de filho pra mãe. Ele a acompanha há anos e
está te acompanhando durante todos esses dias. Não faça isso, por favor.
Não adiantou minha irmã implorar.
- Você acha mesmo que eu sou bobo? Aquilo foi beijo de
amante.
Ele tinha um rádio inseparável, onde ouvia os jogos do Cruzeiro
e do Flamengo. Levamos o rádio para o hospital, a pedido dele. Só não sabíamos
que daquele inofensivo rádio sairia uma arma.
- Tá vendo essa pilha aqui? – mostrou para minha irmã. Ela
vai ficar debaixo do meu travesseiro. Se um dos dois aparecer, jogo essa
pilha neles.
Uma semana depois, ele partiu. Minha mãe não pode vê-lo
naqueles dias. Ele estava realmente indignado. Ou não. Hoje, penso se ele não
fez aquilo por ciúmes ou por amor, para poupá-la da despedida. O ciúme dos dois
era diretamente proporcional ao amor.
Minha mãe entrou em casa, aos prantos:
- Romyna, conheci a amante do seu pai hoje.
- Mãe, pai morreu há um mês e você ainda está com essa
história de amante?
Entendi que ela estava se referindo à moça que sempre
conversava com meu pai, no portão da nossa casa.
- Ela não é amante dele, não, Romyna. Nunca foi. É uma
pessoa maravilhosa. Passamos a manhã conversando. Convidei ela pra tomar um
café com a gente amanhã. Você se importa?
- Se você me garantir que ela nunca foi amante dele, tudo
bem? – falei, rindo.
Mais um tapa.
E o ciúme não parou.
Passaram-se três anos da morte do meu pai.
- Você não sabe o que aconteceu – disse minha mãe, irritada.
- O que foi?
- Maria José, nossa vizinha de Belo Horizonte, morreu.
- Nossa, mãe! Que chato!
- Chato mesmo. Ela me passou a perna. Morreu antes de mim.
Vai se encontrar com seu pai antes de mim.
- Eu não acredito no que você está falando.
- Pode acreditar. Uma hora dessas, ela deve estar lá em cima
tomando café com ele e mostrando o vestido novo.
E foi assim, entre tapas, beijos, ciúmes e muitas histórias
divertidas, que os dois viveram 58 anos de história.