Impotente.
Foi assim que me senti durante os dois meses em que
acompanhei a minha mãe no estágio final da sua doença, um câncer no pulmão.
Ouvir do médico “vocês não podem fazer mais nada por ela”
foi uma das experiências mais dolorosas por que passei.
E esse “nada” significa NADA mesmo.
Acompanhar um doente no estágio terminal irreversível não é
o mesmo que, por exemplo, lidar com uma vítima atingida por uma bala.
Diante de alguém baleado, existe a reação.
Chama-se uma ambulância.
Pede-se ao médico para que, pelo amor de Deus, salve a vida
daquele paciente.
Tem-se a esperança de que um cirurgia resolva a situação.
Enfim, tem-se esperança.
Faz-se qualquer coisa por aquela vida.
Com um doente em estágio terminal irreversível, não é
possível fazer nada pelo paciente, além de lhe propiciar uma morte digna.
E, para isso, há que se tomar decisões difíceis que,
normalmente, não se tomaria no caso de uma doença grave, porém não terminal,
por exemplo.
Mais do que isso: é preciso deixar de lado todo o egoísmo de
querer prolongar a vida de quem se ama a qualquer custo e deixar a pessoa partir,
seguindo o curso natural da vida...e da morte.
- Nossa mãe teve uma hemorragia – me falou minha irmã Patsy.
Como médica, era para ela que os médicos passavam a real
situação do estado da nossa mãe. Ela era capaz de compreender melhor, do que
qualquer um de nós, o que se passava.
- O procedimento normal seria uma endoscopia para saber a
origem da hemorragia, mas mãe está muito fraca, a endoscopia pode feri-la.
Àquela altura, minha mãe pesava menos de 40kg. Parecia um
biscuit de porcelana, que poderia se quebrar em mil pedacinhos, se ousássemos
um movimento um pouco brusco, ou melhor, uma intervenção um pouco mais
agressiva naquele corpo já tomado pela doença.
Não valia a pena fazê-la sofrer mais.
Ela não aguentaria. Nós, muito menos.
A hemorragia foi estancada.
Com base na experiência profissional de anos, a junta médica
concluiu que a hemorragia fora causada pelo Decadron, o remédio que diminuía o
inchaço no cérebro, tomado também pelo câncer.
Nova decisão a tomar.
O Decadron proporcionava um pouco, um pouquinho mais de
consciência à minha mãe, ajudando a prolongar sua vida.
Em compensação, provocava hemorragias.
Optamos por cessar o Decadron.
Decisões como não fazer um exame ou não ministrar um remédio
pode parecer simples.
Quantas vezes, ao longo das nossas vidas, não nos vemos
diante dessas opções?
Não vou tomar uma dipirona para dor de cabeça porque o
medicamento me dá sono. Não vou fazer o exame de sangue porque tenho medo de
agulhas. E está tudo ok.
Porém, numa situação extrema, tudo toma uma dimensão
diferenciada.
Suspender um remédio pode significar não retardar a morte.
Desde 2006, o Conselho Federal de Medicina, através da
Resolução 1805, recomenda aos médicos que não tentem prolongar a vida do doente
em estágio terminal irreversível com intervenções ou procedimentos inúteis, com
os quais, já se sabe de antemão, não se obterá a cura.
À minha mãe, nos seus últimos dois meses de situação
irreversível, dedicamos amor e cuidados para amenizar suas dores, seus
sofrimentos.
Montamos uma estrutura de hospital dentro da casa da minha
irmã.
Duas enfermeiras a acompanhavam dia e noite.
As quatro filhas se revezavam também dia e noite.
Cremes, pomadas, óleos para evitar feridas pelo corpo,
pijamas novinhos e confortáveis, cabeleireiro em casa, para cuidar dos cabelos
que ela sempre fez questão de manter impecáveis, fisioterapia, terapia
ocupacional (nos dias em que ela estava um pouco mais consciente), aparelho
para melhorar sua respiração e amor, muito amor.
Tudo que podíamos fazer, fizemos.
Mas nós quatro, as filhas, tínhamos consciência, uma
consciência dolorida, que ela deveria partir.
Ela partiu.
Pra mim, foi um alívio vê-la livre daquele sofrimento. A
morte da minha mãe, que deveria me trazer dor, me trouxe alívio.
Naquele momento, me lembrei da cunhada de uma amiga, que
havia perdido, há dois anos, o filho de 15 anos também para o câncer:
- Quando ele morreu, tirei violentamente todos os aparelhos
que estavam amarrados a ele. Eu queria vê-lo LIVRE – ela me contou.
Com minha mãe, foram três anos de luta contra um câncer no
pulmão e dois meses de muita impotência, muita angústia, de muita reflexão
sobre a vida e a morte.
O pior: dois meses de espera.
Eu acordava e dormia esperando pelo inevitável dia em que
minha mãe morreria, sabendo que nem eu nem ninguém poderiam mudar aquele
destino.
E eu esperava...assim...impotente.
PS 1. Minha mãe só perdeu a batalha para o câncer porque foi vítima de negligência médica, no início da doença, o que impossibilitou a cura. Nos três anos que a acompanhei nas quimioterapias, conheci muitas, muitas histórias de vitórias.
PS 2. Felizmente, minha família teve condições financeiras para oferecer à minha mãe, alguns "luxos" como pijamas novos, cabeleireiro, cama de hospital em casa, enfermeiras. A maioria não tem. Tudo isso é facilmente compensado com cuidados, companhia, carinhos, amor e decisões conscientes.
PS 1. Minha mãe só perdeu a batalha para o câncer porque foi vítima de negligência médica, no início da doença, o que impossibilitou a cura. Nos três anos que a acompanhei nas quimioterapias, conheci muitas, muitas histórias de vitórias.
PS 2. Felizmente, minha família teve condições financeiras para oferecer à minha mãe, alguns "luxos" como pijamas novos, cabeleireiro, cama de hospital em casa, enfermeiras. A maioria não tem. Tudo isso é facilmente compensado com cuidados, companhia, carinhos, amor e decisões conscientes.