Eu me lembro exatamente da primeira vez em que uma música do Queen me chamou a atenção.
E isso não é pouca coisa, não.
O fato de um simples fato me marcar tanto significa que esse fato causou uma revolução na minha vida.
Eu tinha 11 anos de idade e estava na casa da minha vizinha, a Liliane. O irmão dela mais velho, o Nando, ouvia Somebody to Love, na rádio. Fiquei entusiasmada. Quis saber que banda era aquela.
Eu sempre tive uma relação muito estreita com a música. Aos cinco anos, no meu mini pianinho, que ganhei do Papai Noel, no Natal, já tentava tirar Wave e Águas de Março, só de ouvido. Ok, nunca consegui.
Aos sete, já tentava cantar igual a Elis. Ok, nunca consegui também.
Na mesma idade, sonhava em ser a menininha do poetinha na Arca de Noé ou a gata de Saltimbancos.
E o disco Revolver, dos Beatles, tocava dia e noite na radiola da minha casa, assim como Chico 1978.
Para o desespero da minha mãe, adorava cantar “ooooooo meeeeeeu amooooooor tem um jeeeeeeeeeeeeito manso que é só seu”. Ela dizia: “você não pode cantar isso, menina. é muito indecente para sua idade”. E eu continuava: “e de pousar as cóxas entre as minhas cóxas, quando ele se deita”. Coxas assim mesmo: cóxas, com esse “o” aberto, gritante. Eu não tinha ideia do que se tratava aquilo, mas continuava cantando. Minha mãe ria da minha inocência.
Mas foi o Queen que me fez perceber que papel a música teria – e ainda tem – na minha vida.
A minha paixão, paixão mesmo, amor de verdade, pela banda só nasceu em 1985, durante o primeiro Rock in Rio, dois anos após conhecer Somebody to Love.
No dia seguinte após a primeira apresentação, corri na loja e comprei Greatest Hits.
E a partir dele, vieram todos os outros discos do Queen e discos solos dos integrantes da banda.
Não parou por ai. A internet e o Google ainda não haviam sido criados e as revistas brasileiras especializadas eram poucas na época. Biografias praticamente inexistiam.
Portanto, eu quase nada sabia sobre o Freddie Mercury.
Era quase impossível descobrir quem eram suas principais influências, quem ele ouvia, o que ele lia.
Foi assim que resolvi mergulhar de cabeça na cultura britânica.
Eu queria ouvir o que o Freddie Mercury ouvia, eu queria ler o que ele lia, eu queria ver o que ele via. Para isso, tinha que conhecer tudo daquela ilha.
Comprava álbuns e mais álbuns de absolutamente todos os artistas britânicos da época.
Até mesmo de bandas que não tinham a mínima chance de influenciar o Freddie Mercury, como o Bananarama, um trio de garotas metidas a cantoras. Mas eu pensava: “tá tocando em alguma rádio inglesa, neste momento. então, ele tá ouvindo. vou ouvir também”.
Descobri de Bananarama a Pink Floyd, de Status Quo a Led Zeppelin. E vieram Duran Duran, Smiths e outras paixões que conservo ainda hoje.
Na literatura, fui apresentada a Lord Henry Wotton, um dos mais fascinantes personagens da literatura mundial. Tão fascinante que me fez ler O Retrato de Dorian Gray por sete vezes.
No cinema, Kenneth Branagh e suas adaptações shakeasperianas mereciam toda a minha atenção.
Isso sem falar em Absolute Beginners, sucesso do cinema inglês dos anos de 1980, com a desastrosa Patsy Kensit, que a imprensa da época tentou nos empurrar como a nova Madonna.
Porém, Freddie seguia como a minha grande, absoluta e insuperável paixão.
Como adolescente, eu poderia tê-lo adotado como meu namorado. Mas eu não quis.
Não porque ele fosse gay. Isso não era problema.
Se eu resolvesse, nos meus sonhos, que ele seria meu namorado e que largaria todos os homens do mundo por mim, assim o seria.
Afinal, os sonhos eram meus.
Eu queria mais: queria uma relação que demonstrasse que éramos próximos desde o momento em que nasci.
E também que tínhamos uma relação diária.
A relação tinha que ser duradoura, eterna.
Ah, ele tinha que me proteger. Assim, nos meus sonhos, Freddie Mercury era meu irmão.
O namorado era, claro, o melhor e mais lindo amigo dele: o Roger Taylor, baterista da banda.
E foi assim durante anos. Até que em 24 de novembro de 1991...
Ainda hoje, penso como seria ligar a rádio ou acessar a internet e me deparar com o mais novo lançamento do Queen.
Ou ainda como seria incrível um show da banda no Mineirão.
Meu coração, certamente, pararia.
É o que resta a fãs e a nós, irmãs de artistas, quando eles se vão: lamentar e chorar por tudo aquilo que deixou de ser criado.
Há um poeminha de um outro ídolo, meu poetinha Vinicius de Moraes, a que recorro para traduzir a falta que Freddie me faz. É o “Ausência”, que termina com os versos: “e todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada”.