Domingo, 6h da manhã, primeira contração.
- Acho que a Ana Luísa nasce hoje.
Cerca de uma hora depois, nova contração.
-A Ana Luísa nasce hoje.
Liguei para a casa da minha médica. A mãe dela, uma das mães
mais mães que conheci na vida, atendeu:
- Oi, dona Ana! Sou eu, a Romyna. Desculpe ligar tão cedo,
mas preciso falar com a Silvana com urgência.
- Ela está dormindo. Chegou de uma festa agora há pouco, não
vou chamá-la.
- Dona Ana, estou tendo contrações. Minha filha vai nascer.
Chama a Silvana, pelo amor de Deus.
- Tem certeza? Não vou acordar minha filha à toa.
- Tenho certeza. Tô indo pro hospital.
- E se você estiver enganada?
- Dona Ana, por favor, diga à Silvana para me encontrar no
hospital.
- Faça o seguinte: vá para o hospital, confirme e ligue de
lá.
- Dona Ana, eu vou para o hospital e, se a Silvana não
estiver lá, vou direto para sua casa ter a Ana Luísa aí. Que tal?
- Ok, você me convenceu. Vou falar com a Silvana para te
encontrar lá.
Segui para o hospital com o Tito, pai da Ana Luísa. Meus
pais estavam na porta nos esperando. A Silvana já tinha ligado para sua
equipe, que estava à minha espera. Fiz todos os procedimentos e fui para o
quarto esperar pela hora do parto. As contrações eram leves e bem espaçadas.
Pensei:
- Contração é isso? Não entendo por que algumas mulheres
fazem tanto drama.
Alguns minutos depois, soube o porquê. Veio a primeira
grande contração. Eu não entendia como algo podia doer tanto. Entrei em pânico.
Minha mãe, que estava ao meu lado e havia me ensinado uma tal “respiração
cachorrinho”, que nunca a deixou sentir dor durante os partos, tentou me
ajudar:
- Faça a respiração cachorrinho. Você vai ver como melhora
de imediato.
Comecei pelo cachorrinho filhote de chihuahua...e nada.
Cachorrinho chihuahua
adulto....e nada. Cachorrinho yorkshire,
cachorrinho maltês, cachorrinho poodle, cachorrinho basset...
Apelei para raças maiores. Latia como um pastor
alemão, rosnava como um rottweiler, babava igual a um pitbull e nada disso
amedrontava a dor.
Passou. Ufa!
Veio a próxima.
- Filha, lembre-se do cachorrinho.
E eu, já aos berros:
- Mãããããeeeeeee, cachorrinho, de novo, NÃÃÃÃÃO. Estou começando
a odiar TODOS OS CACHORRINHOS DO MUNDO. ODEEEEEEEEEEEEIO CACHORRINHOS, TIREM OS
CACHORRINHOS DE PERTO DE MIM.
- Tá bom, Romyna. Esqueça os cachorrinhos. Respire devagar e
com calma.
Passou. A médica chegou. E eu, feliz:
- Bora pra sala de parto?
- Ainda não. Tenho que te examinar.
Após o exame:
- A Ana Luisa vai nascer por volta das 6h da tarde.
- Não, não vai.
- Por que não?
- Porque ainda são 9h da manhã e eu não vou suportar mais
nove horas de dor.
- Claro que vai. Você aguenta.
Nisso, outra contração. Berrei igual a uma louca.
Passou.
Falei com a médica:
- Olha aqui ó: estou descendo da cama, estou indo em direção
à porta. EU VOU FUGIR, OK?
Quando já estava na porta, ela disse:
- Fugir pra onde? A dor vai te acompanhar aonde você for.
Pensei bem, dei meia-volta e me deitei novamente.
Mais uma contração. Me lembrei do super sábio conselho da vó
Dirce:
- Quando você estiver sentindo dor, diga que não vai
suportar, que vai morrer e que precisa da anestesia de imediato. Aí, é só
esperar pelo anestesista.
Comecei a gritar:
- ESTOU MORREEEEEEEEEEEENDO, QUERO UM ANESTESISTA, ESTOU
MORREEEEEEEEEEEENDO.
E a médica:
- Você não está morrendo. Só vai ter uma filha. Anestesia,
só alguns poucos minutos antes do parto.
- Mas minha a vó Dirce me garantiu que vocês chamariam o
anestesista se eu ameaçasse morrer de dor.
- Só se for no hospital onde ela teve os filhos dela.
- MÃÃÃÃÃÃE, liga pra vó Dirce e pergunta em que hospital
você nasceu. Quero ir pra lá.
- Minha filha, nasci em casa, com parteira. Não tinha
anestesia.
Novo intervalo na dor.
Minha irmã Patsy, que tinha acabado de chegar, falou:
- Pense que a Ana Luísa estará no seu colo daqui a algumas
horas. Isso vai te fortalecer.
Nova dor.
- Ana Luísa estará comigo daqui a
algumas horas... Ana Luísa estará comigo daqui a algumas horas... Ana Luísa
estará comigo daqui a algumas horas...Ana Luísa estará comigo daqui... SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! Eu QUERO um
anestesista.
E assim foi ao longo do dia.
Faltando 15 minutos para as 6h, fui para a sala de parto. Logo
após, entrou na sala um médico que, até então, eu não conhecia. Ele se
apresentou:
- Como vai? Sou o dr. Frederico, anestesista.
- Queeeeeeeeeeeem?
- Dr. Frederico, anestesista.
- Jura? O senhor veio me salvar?
- Acho que sim.
Ele me explicou todo o procedimento e, finalmente, aplicou a
anestesia. Fui ao paraíso. Peguei nas mãos do dr. Frederico, olhei no fundo dos
seus olhos e disse:
- O senhor é a pessoa mais bondosa que já conheci em toda a
minha vida. Lutarei pela sua canonização depois que o senhor morrer.
- Ok, vou aguardar ansiosamente.
Ana Luísa nasceu às 18h15. Linda, linda com cara de pãozinho
francês.
Ela não pode passar a noite comigo. Teve que ficar na
estufa. Meu quarto era ao lado do berçário. Sempre que ouvia um bebê chorando,
falava com o Tito:
- Vai lá. É a nossa filha.
- Como você sabe?
- Tenho certeza. Vai lá.
Ele voltou me tranquilizando:
- Não era ela. A Ana Luísa está dormindo.
Outro choro:
- Tito...
- A Ana Luísa está bem olhada, não se preocupe.
- E se estiverem sequestrando nossa filha? Vai lá.
Ele foi, voltou e me acalmou:
- A Ana Luísa não foi sequestrada. Continua dormindo.
Novo choro.
- Tá bom, já sei...vou lá, disse o Tito.
[...]
- A Ana Luísa está ótima. Vê se tenta dormir, agora. Você
deve estar exausta.
Segui o conselho do Tito e tentei pegar no sono. Ficava
ouvindo os ruídos do corredor, vozes, choros distantes dos bebês. Em
determinado momento, ouvi os berros da grávida do quarto ao lado:
- EU VOU FUGIR, NÃO AGUEEEEEEEEEEEEENTO MAIS ESSA DOR.
Pensei:
- Colega, não adianta fugir. A dor irá te acompanhar aonde
você for.