quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Pai herói

- Era uma vez Pepe Legal e Babalu…

- Agora, conta uma do Manda Chuva e do Batatinha.

- Manda Chuva e Batatinha? Ok. Vamos lá…

- Você sabe contar histórias do Zé Colmeia e Catatau?

- Sei. Quer ouvir?

- Quero.

Eram assim minhas noites com meu pai. Ele inventava e reinventava histórias até eu pegar no sono e adormecer. O trabalho o obrigava a ficar fora de casa por tempo demais. E esses eram os momentos que ele reservava para mim. Eu os aguardava ansiosamente, a cada hora do dia.

Nem sempre era fácil me fazer dormir. Por muitas vezes, meu pai era vencido pelo cansaço e pegava no sono bem antes de mim. E era nessas horas, horas de silêncio e escuridão, que o medo me tomava pelas mãos e me levava para um mundo que eu temia conhecer: o mundo sem meu pai. Mais do que ter medo de monstros e fantasmas, eu tinha medo de um mundo sem meu pai. 

Foi em 23 de março de 2006, que conheci o mundo sem meu pai. Um mundo vazio, triste, sem fantasias, sem heróis, sem o meu herói.