sábado, 2 de agosto de 2014

Abraços que me faltam

“Você se lembra de quando ficava comigo até de madrugada me ajudando a bordar os vestidos das minhas clientes? Você era tão novinha…”
Minha mãe já estava morando comigo, em Belo Horizonte, em março de 2013, quando me surpreendeu com a lembrança.
“Você se lembra?”
Aquela pergunta…uma pergunta feita de uma forma tão inesperada…
Eu não me lembrava. Mas as imagens chegaram fortes e nítidas. Era o “click” que faltava para restabelecer a relação com a minha mãe.
Tivemos um relacionamento muito duro nos últimos anos, principalmente, depois da perda do meu pai.
Minha mãe era uma pessoa difícil. E eu nunca deixei por menos. Eu chegava a pensar “como pude ter um pai tão presente e uma mãe tão distante?”
Mas eu estava enganada. Ela não era distante. Nós não éramos distantes uma da outra. Éramos companheiras. Mais que companheiras, amigas. Mais que amigas, mãe e filha.
Aos 11 anos de idade, eu ficava ao lado dela, até 1h…2h da madrugada, ajudando a pregar botões ou bordar vestidos feitos sob encomendas para que a entrega se desse rigorosamente nos prazos.
Minha mãe dividia o tempo entre a costura e as artes plásticas. Era professora de pintura.
As lembranças dos momentos que dividimos na costura me levaram a recordar uma outra história.
Eu tinha pouco mais de seis anos de idade, quando ganhei de presente uma tela, uma tela pequena, bem pequena, para que eu pudesse me aventurar no meu primeiro trabalho como pintora. O dia mal havia despertado e eu já estava armada com tintas e pincéis na frente do cavalete.
A ideia era surpreender minha mãe com um quadro lindo, incrível, assim que ela acordasse.
Pintei um elefante vermelho, muito vermelho, que tomou conta de toda a tela, num fundo azul, muito azul. O elefante não tinha olhos, nem boca, nem nada. Era apenas vermelho. Hoje, quando me lembro daquilo, penso na jiboia do Pequeno Príncipe. E rio ao perceber que o personagem era bem, mas bem mais talentoso que eu.
Terminei minha pequena obra-de-arte e assinei: Romyna, 1978.
Fiquei ao lado da cama da minha mãe, esperando ela acordar, ansiosa para lhe mostrar o que eu tinha feito. E ela sentiu um orgulho danado. Achou lindo meu elefante vermelho no fundo azul. E, como boa professora, me deu dicas para melhorar minhas pinturas. Vieram outras telas…outras “obras-primas”…outros momentos com minha mãe.
“Você se lembra de quando ficava comigo até de madrugada me ajudando a bordar os vestidos das minhas clientes?”
A partir daquele dia, as discussões passaram a ser mais raras e os abraços mais constantes. Nasceu em mim uma necessidade imensa de abraçar a minha mãe. Meu coração dizia que eu precisava abraçá-la.
Alguns meses depois, em 10 de julho de 2013, eu a perdi.
Perdi uma grande companheira, uma grande amiga, uma grande referência, uma mãe.
E que falta insuportável sinto daqueles abraços!