quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Férias em Minas



Por Vovó Della Hassan, minha avó muçulmana

Estava eu ainda na minha caminha, abrindo meus belos olhinhos, numa bela sexta-feira de manhã ensolarada no Deserto, quando ouço o carteiro de calça azul e camisa amarela gritar na minha porta: 

“Ô Vovooooooooooó, a Romyna, sua neta de Minas, lá no Brasil, mandou um trem pra senhora”. 

Mais do que depressa, acabei de abrir meus belos olhinhos e pulei da minha caminha. 

Saí correndo para ver que trem era esse que minha querida e amada neta mineira tinha me enviado. Lá estava o carteiro de calça azul e camisa amarela me aguardando para entregar a encomenda. Meu coração saltitava feito uma rã dentro do peito, tamanha a expectativa. 

Pensei: “Deve ser um pedaço de goiabada cascão com queijo minas que ela mandou por Sedex 10”. 

Quando me aproximei do carteiro com calça azul e camisa amarela, fiquei surpresa. Minha boca secou, meu coração pulou mais que rã dentro do peito, minha pressão subiu, minhas pernas bambearam, minha cabeça girou (não, não, não, não foi que nem a Linda Blair em “O Exorcista”, não, gente...o que quis dizer é que fiquei tonta), enfim, fiquei estupefata com o tamanho da “beocidade” da minha neta. Gente, ocês acreditam que ela teve o trabalho de me mandar, pelos Correios, uma carta? Uma carta, gente. Ainda não contaram pra ela que existe e-mail, Facebook, Insta, Tuíto e uatizápi. Pobrezinha. Bem, abri a carta e lá estava escrito:

“Veia, pronquecê vai nas suas férias? Vem pra cá, sô”.

Mais do que imediatamente, peguei o dicionário Mineirês-Brasileirês-Desertês e traduzi:

“Velha, para onde você vai nas suas férias? Venha para cá, sô” (sô é o fim de qualquer frase em Minas Gerais: “Cuidado, sô”, “Oi, sô”, “Tudo bem, sô” “etc sô”).

Atenção para dica da vovó: se você tiver um dicionário de Mineirês, melhor tê-lo às mãos para continuar a ler este texto.

 Para não deixar a pobre da minha neta muito triste, ajeitei minhas burquinhas nas minhas sacolinhas de plástico do Carrefour, peguei o primeiro avião em direção ao aeroporto de Confins, em Minas Gerais. Chegando a Confins, peguei um táxi rumo a BH. O taxista perguntou:

- Veia, proinóstáínu, sô?

Falei:

- Só um instantinho, que vou pegar o dicionário, pois não falo a sua língua.

Depois de 30 segundos, descobri o que ele disse: “Para aonde nós estamos indo, sô”?

Respondi ao taxista:

- Pode me levar para o bairro Cruzeiro, em BH, sô.

- Ok, sô.

O “ok, sô”, eu entendi. Hihihi!

Chegamos à casa da minha neta. Ela me esperava ansiosa no portão.

- Vó, ói qui bão sô que cê tá qui. Óiprocêvê, vó, né di hoji qui to pelejânu pra falá pra senhora vim passá uns dias em Minas. Mas os Correios tavam em greve, vó. Num pude mandá carta antes. Deusde setempassado que tô tentano falá com a senhora.

Nessa hora, pensei: “e o uatizápi, beócia, não chegou a essa roça, ainda?”

- Sapassado, mamãe Dellinha chegou nimim e falô: “fia, a greve dos Correios cabô. Pómandá carta pra mamãe.”

Não sabia o que mais me horrorizava: aquela língua de ET ou a descoberta de que minha herdeira mineira e minha herdeira paulistana desconheciam e-mail.

Entrei na casa da minha neta e ela foi me mostrando cada aposento. Tudo muuuuuito arrumadinho. Minha neta me mostrou cada cantinho.

- Veia, prestenção: a senhora pópô suas burcas naquela cazôpô quifica trádapórta, seus chinelim pópô badacâma, sua iscodidêntch encimadapía _ cuidaaaaado pra ela num caí dêndapia, hein?_ e os vidiperfume encimadomóvi.

- Aaaaaaaahhnnnnn?

Antes que eu pudesse pegar meu dicionário pra traduzir tudo aquilo, minha neta me puxou pelo braço e me levou para tomar um café tipicamente mineiro.

- Vão comé um cadín de trem, agora, né, sô? A senhora tá com fome, veia?

- Eu tô. E você, não vai comer nada?

- Não, brigadão. Tô com dôdestombago deusde ânsdionti. Mas óiaquí, tem um tanditrem pra senhora comê à vontadi. Tem pão-di-quêju, tem lidileite, tem goiabácomquêju, tem até pincomé no café. A senhora qué um cadim pra experimentá?

- O quê?

- Cêquié?

- O quê?

- Tô perguntano se a senhora quié um cadim de pincomé pra experimentá?

Só entendi o “experimentá”.

- Vou aceitar, sim. Grata.

Minha neta me trouxe duas garrafas com um líquido esbranquiçado e outro amarelado e me perguntou:

- A senhora prefere tomar Atitude ou Providência?

- Querida, estou de férias. Não é hora pra isso. O que quero tomar mesmo é aquela outra coisa que me ofereceu há instantes. Traz lá pra vovó, vai.

- Toma Providência, então, vó.

E foi despejando o líquido amarelado numa miniatura de copo que estava à minha frente.

Pensei: “Que água esquisita é essa que ela pôs no copinho?” E virei logo o líquido goela abaixo para desvendar o mistério.

Por Allah! Que queimação! O inferno inteirinho estava dentro daquele copo anão. Nunca vi nada tão quente na minha vida. Desta vez, minha cabeça não só tonteou, mas tenho certeza de que girou que nem a da Linda Blair, em “O Exorcista”. Fiquei birutinha. Mas o trem é bão. Mandei mais quatro depois daquele. Isso, só no café da tarde, né sô?

Depois daquela experiência única que se repetiria várias vezes durante minhas férias em Minas e ao longo da minha vida (levei caixas e mais caixas de Providências e Atitudes para o Deserto), fomos passear pela capital mineira.

Quando estávamos nos preparando pra sair, minha neta implicou com minha burca:

- Vó, óisó, tiissdaí. Tá quente aqui.

- Tiro nada, menina. Essa burca foi criada pelo Romero Britto.  

- Ô dó. Cadiquê Romero Britto ia criá uma burca pra senhora? Mas boralá pro pondiôns.

- Para aonde nós estamos indo?

- Prasavass. É proncovô levá a senhora.

- Ahn?

- Bora, veia.

Segui minha neta, mesmo sem saber para aonde aquela desvairada me levaria.

Chegamos a um belo bairro de Belo Horizonte, a tal Savass, que, na verdade, chama-se Savassi, o coração da cidade. Esse foi só um dos muitos passeios que fiz durante minhas férias em Minas.

Também visitamos as cidades históricas e as montanhas mineiras. Cada codilôco.

[...]


- Voooooooooooó-óóóóó, tá quainahora. A senhora vai perdê seuvinhão de vorta pro Deserto.

Gritou minha neta, me apressando para irmos pro aeroporto.

- Eu tenho um negocin pra dá de lembrancinha pra senhora. Ispia só qui belezura, vó!

- Oh, que lindeza! É um bonequinho!

- Não, vó! É um Santantonho.

- É um o quê?

- Um Santantonho, um santo casamentêro.

- E isso serve pra quê, menina? Eu sou muçulmana. Não acredito em santos.

- Óprôcevê, vó. Isso é um santo católico, que serve pra mode desencalhar as moçoilas encalhadas, vó.

- Mas eu não sou encalhada, apesar de ser moça.

- Uai, vó. Cê é moça ainda? Cumopodi?

- Pode.

- Num podi.

- Pode.

- Vooooooó...

- Neta, melhor encerrar a discussão, vou perder meu voo. Dá cá um abraço na vovó. Promete que irá passar suas férias no Deserto com a vovó?

- Confórfô, ôvô.

- O quê?

- Confórfô, ôvô.

- Aaaaaaaahn?

- Confórfô, ôvô.

- Ah, deixa pra lá. Estou te esperando, viu?

Me despedi da minha neta, com os olhos cheios d'água, e entrei no táxi, com minhas sacolinhas do Carrefour, onde sempre levo minhas burquinhas.. Eis que o taxista me perguntou:

- Veia, proinóstáínu, sô?

- Ah, essa aí, eu conheço. Pra Confins, rapaz...pra Confins...