sábado, 2 de agosto de 2014

Pai, já sei o que vou ser: jornalista.

Estávamos no ano de 1985, mal tínhamos saído da ditadura, quando, ao final da apresentação de um trabalho de História, em formato de telejornal, o professor Mauro Mendes Vilela – ou Fichinha, como era mais conhecido – se levantou da cadeira, foi até mim e disse: “você vai ser jornalista”.
Eu tinha apenas 13 anos e, até aquele momento, não tinha ideia do que seria na vida. Mas, naquela hora, soube que Fichinha estava correto e que eu seguiria a carreira de jornalista.
À noite, durante o jantar, anunciei pro meu pai:
- Já decidi o que vou fazer: JORNALISMO!
Ele se levantou da mesa furioso, quase derrubando o prato, e gritou, gesticulando os braços, como bom descendente de italiano que era:
- Tira essa ideia da cabeça agora. Mas pode tirar mesmo. Você JAMAIS será jornalista. Eu te proíbo.
Assustada e sem entender nada, perguntei:
- Mas por quê?
E ele:
- Porque você é igual ao Joca.
Joca Drummond é o primo que meu pai perdeu no massacre da Lapa, em dezembro de 1976. Ele foi torturado e assassinado pelos militares. Não era a profissão que nos ligava – Joca era economista, se não me engano – mas sim os ideais políticos e a eterna inquietação. A preocupação do meu pai estava justamente aí. Aliando-se a isso, havia ainda o temor por conta da profissão de jornalista, uma das mais visadas pelos ditadores naquele período.
Ainda hoje, quando me lembro dessa frase do meu pai, fico impressionada em ver como ele já percebia quem eu era, apesar de eu ter acabado de sair da infância.
Apesar da reação surpreendente do meu pai – poucas vezes na vida, eu o tinha visto tão bravo -, por dentro, eu pensei que fosse explodir de tanta felicidade. Ser comparada ao Joca era motivo de orgulho, já que eu sempre tive uma admiração danada por esse meu primo.
No final de 1988, prestei meu primeiro vestibular para…computação. Apesar da ditadura já fazer parte do passado, meu pai cumpriu a promessa e não me permitiu fazer o curso com que eu tanto sonhava. O medo e os traumas daquele período ainda o assombravam.
Foram três longos anos na faculdade de computação até que, um dia, cheguei pra ele com o resultado do vestibular para o curso de jornalismo da PUC. Disse:
- Passei. Quero fazer.
E ele:
- E a computação?
- Larguei. Larguei mesmo. Nem tranquei matrícula. Larguei propositalmente para perder a vaga e você não poder me obrigar a voltar.
E ele, meio que rindo, meio que desolado:
- Você é estranha. Está prestes a concluir um curso, que te oferece grandes oportunidades profissionais, numa faculdade onde não paga nada, que é ao lado da nossa casa…e larga tudo para começar do zero um curso que te dá poucas oportunidades, numa faculdade do outro lado da cidade e onde eu pagarei uma fortuna de mensalidade. É isso mesmo o que você quer?
- Sim, é o que eu quero.
Já se dando por vencido, concordou:
- Tudo bem, pode fazer, então. Eu pago.
E com olhar desconfiado, me desafiou:
- Mas você tem que me prometer, por tudo quanto é mais sagrado, que nunca, jamais irá se meter em confusão. Você nasceu subversiva. Promete que se comportará?
E eu:
- Prometo. Pode confiar.
Ele riu, como se me dissesse “não acredito em você”.
Mais uma vez, meu pai mostrou que me conhecia mais do que eu mesma.
Eu nunca consegui cumprir a promessa que lhe fiz.
Até nos seus últimos dias no hospital, no ano de 2006, quando “brigávamos” por causa do Zé Dirceu, ele me chamava de “subversiva”. Mas a palavra, àquela altura, já não tinha mais o mesmo peso de décadas atrás.