quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Sobre mães e filhos detentos

Por Romyna Lanza

Maria Ilda S. G., moradora de Ribeirão das Neves, casada, mãe de dois filhos, passa seus dias percorrendo os corredores do Fórum Lafayette, em Belo Horizonte, e da Defensoria Pública do Estado de Minas.

É essa a rotina que vive há dois anos.

Luiz (*), de 23 anos, está preso por tráfico de drogas.

Ela já não possui mais uma família feliz, tranquila, estruturada. A dor de ver Luiz preso abalou também o marido Cláudio e Carlos, o filho mais velho.

- Nem de longe somos felizes como antes. Nossa vida gira em torno do Luiz.

Durante sete anos trabalhando na área criminal do Tribunal de Justiça, pude acompanhar, de perto, o sofrimento das famílias que cumprem as penas juntamente com seus filhos e filhas.

As idas ao Fórum, em busca da concessão de uma liberdade provisória, de um habeas corpus ou de uma sentença absolutória, são semanais. Às vezes, diárias.

Um dos casos mais dolorosos que acompanhei foi de uma “senhorinha”, uma “mãezinha” – foi assim que eu e meus colegas carinhosamente a apelidamos – que, durante um ano e oito meses, ia ao Fórum. De início, as idas eram diárias...Às vezes, duas ou três no mesmo dia.

Depois de muito explicarmos a situação, a impossibilidade das coisas se resolverem com a rapidez que seu coração desejava, ela passou a ir um dia sim, outro não. E nunca menos que isso.

- Eu queria saber como que está a situação do meu filho?

Explicávamos. Uma, duas, três...vezes. Mas sempre era insuficiente.

Ela insistia:

- Mas como que está mesmo o processo dele?

Compreendemos que, no fundo, a resposta que ela queria ouvir era: “seu filho será solto”.

Infelizmente, ela nunca obteve essa resposta de nós. Além do processo que corria na nossa Vara, havia vários outros, em diversas outras Secretarias.

Nem todas essas complicações eram capazes de, sequer, arranhar sua esperança.

A saga da “mãezinha” se repetia pelas outras Varas, em que seu filho tinha processos.

A falta de compreensão de como se dá o procedimento criminal na Justiça, muitas vezes, torna tudo ainda mais doloroso.

O esforço dos advogados, dos defensores públicos e dos servidores do Tribunal em explicar, passo a passo, o que acontece desde o momento da prisão é insuficiente para minimizar a aflição de pais e mães.

A urgência que exigem é baseada no amor, não na racionalidade de um processo judicial.

Maria Ilda se recorda da primeira vez em que Luiz foi preso:

- Ele foi preso por porte ilegal de arma. Ele me ligou da Delegacia contando o que tinha acontecido. Fiquei sem chão. Foram quatro dias no presídio. Quatro dias intermináveis.

Maria Ilda não se alimentava naqueles quatro dias, não dormia, apenas chorava pelo filho preso. O maior sofrimento era pensar no que ele poderia estar passando.

- Ele tem problema de saúde.

Os presídios oferecem assistência médica aos presos que necessitam. Nem isso conforta Maria Ilda.

- Ninguém cuida dele como eu. Sou mãe. Eu é que sei do que ele precisa.

A mãe de Luiz carrega consigo os últimos exames feitos pelo filho. “Ele tem problema de plaquetas baixas”, explica.

Pergunto exatamente o que significa, mas ela não sabe dizer, ao certo. Apenas sofre. Sabe da necessidade do filho passar por um diagnóstico adequado que detecte um problema que pode ser ainda maior.

Maria Ilda não tem mais uma profissão – deixou o emprego em um grande hospital da capital mineira – para se dedicar, tão somente, à busca pela liberdade do filho caçula.

- Eu passo meus dias indo ao Fórum, do Fórum para Defensoria, volto para o Fórum...

Essa é a rotina da mãe do Luiz. Essa é a rotina de milhares de mães de detentos que passam a ter como única meta na vida ter seus filhos de volta em casa.

- E no presídio, a senhora vai muito? Pergunto.

- Não. No presídio, não vou mais.

- Por quê?

- É uma dor insuportável ver tudo aquilo. São centenas de rapazes sem nada para fazer, sem nenhuma esperança de sair dali e reconstruir suas vidas. Fico só imaginando o que se passa naquelas cabeças o dia inteiro. É só ódio, só desejo de se vingar do inferno por que estão passando.

E reflete, em meio à tristeza e indignação:

- Se eles tivessem uma ocupação...se pudessem ter um trabalho pra chegar aqui fora e dizer “olha, eu sei fazer isso; pode me dar o emprego que eu consigo fazer direito; eu aprendi durante o tempo em que fiquei preso”. Mas nem isso eles têm. Como alguém consegue se recuperar dessa forma?

Maria Ilda não vê o filho há quatro meses.

- É o Carlos que vai lá vê-lo. Ele sabe o quanto é difícil pra mim tudo isso.

Em relação a Carlos, os papéis, muitas vezes, se invertem. Maria Ilda se torna filha, cuidada e amparada pelo filho mais velho que toma a frente de situações que ela não suporta mais enfrentar.

Maria Ilda, agora, é exclusivamente mãe do Luiz.


(*) Nome fictício a pedido de Maria Ilda.