As mãos já estavam frágeis, pequeninas, quase que sem
força.
Eu insistia em agarrar aquelas mãos, segurá-las com toda
firmeza que me era permitida, como se dissesse “não vou deixá-las ir, não quero
deixá-las ir”. E as beijava, implorando para que elas não partissem.
Eram as mãos da minha mãe. Mãos que, apesar das marcas do
tempo e da doença, conservaram sua delicadeza até o último instante.
As mãos da minha mãe eram também as mãos de uma artista,
de uma pintora.
No apartamento em que vivemos por 30 anos, tintas, telas,
cavaletes, pincéis davam tons e cores ao nosso dia a dia.
Minha mãe gostava de pintar rostos. Dizia que era um
desafio pintá-los. Lembro-me, claramente, do rosto da dona Maria, de Montes
Claros, reproduzido na tela. Uma pintura em preto e branco, tal qual uma foto antiga.
Mas o rosto que me acompanharia ao longo da vida é o de
um preto velho. Um belíssimo preto velho nascido do talento das mãos de minha
mãe (*).
Ela também adorava paisagens: um barco em meio a um mar
raivoso era o meu favorito.
Eu ficava horas parada na sua frente, observando as
pinceladas que imprimiam fúria à imagem.
E havia uma igrejinha...a igrejinha onde ela conheceu meu
pai. As mãos da minha mãe reproduziram, durante toda a vida, essa igrejinha.
Certa vez, me perguntaram por que ela pintava aquele
quadro repetidas vezes. Foi, inclusive, o último quadro que ela pintou antes de
partir.
Nunca perguntei isso pra ela.
Hoje, percebo que ela pintava aquela igrejinha, sem
parar, como uma forma de espalhar – e manter viva - a sua história com o meu
pai. Era como se reproduzisse vários exemplares de um romance e os distribuísse
para que as pessoas conhecessem aquela história de amor que durou 58 anos.
[...]
Pousei a cabeça
no colo da minha mãe. E ela afagou meus cabelos com suas mãos. O cérebro,
tomado pela doença, já não tinha mais controle sobre suas mãos. Mas também não conseguia
controlar o amor de mãe.
(*) O quadro do preto velho estava com minha tia do
coração, a Rosarinha, em Montes Claros. Este ano, cheguei na casa da minha irmã
e ela me mostrou o quadro que minha tia nos havia enviado.Não o via desde a minha infância. Ela disse que era
nosso por direito. Agradecerei à tia Rosarinha eternamente por esse carinho.