Aaah, pai, você foi embora sob protestos. Foram muitos os
meus protestos. Eu não queria que você se fosse.
Foram muitos os anos da minha vida em que eu desejei ir
antes de você só para não passar pela dor da nossa despedida. Egoísmo de quem
ama demais. Eu tive que entender que um pai não merece passar pela dor da perda
de uma filha e, assim, trabalhar, na minha cabeça e no meu coração, que o
melhor foi mesmo você ter ido antes de mim. Mas foi doloroso pacas, quase
insuportável. Dilacerante talvez seja a palavra.
Talvez eu nunca tenha te dito, assim, com todas as sílabas
que “vo-cê er-a a pes-so-a mais-im-por-tan-te da mi-nha vi-da”. Talvez, por achar
que não precisava, que você sabia. Aliás, acho que todos sabiam. Nossa cumplicidade
e companheirismo, desde o momento em que nasci, deixava claro isso.
Era você quem me fazia dormir, na infância, contando
histórias de “Pepe Legal e Babalu” ou “Zé Colmeia”, meus desenhos favoritos da
época, mesmo chegando exausto do trabalho, após 15 horas fora de casa. Lembro
que, muitas vezes, adormecia antes de mim.
No outro dia, bem cedo, já estava no meu quarto, me
acordando, levando Nescau quente na minha cama e me arrumando para levar para a
escola. Era assim a nossa parceria do dia a dia. Poucas horas juntos, horas
corridas, mas horas inesquecíveis. Era assim a nossa vida.
Inesquecíveis também eram os Natais. Eu ainda tenho as
cartinhas que eu recebia do Papai Noel. Incrível como a letra dele se parecia
com a sua. Incrível como ele sabia tudo sobre a minha vida e me dava puxões de
orelha pelas coisas de errado que eu fazia ao longo do ano. Ele também me
parabenizava pelas minhas conquistas e me incentivava a ir mais e mais longe.
Os
presentes? Ele não errava. Eu pedia e estavam lá. Geralmente, pianinhos, mini-orgãos, helicópteros vermelhos que tentavam voar (a tecnologia não era lá essas coisas, né?),
carrinhos, bolas e outros “brinquedos de meninos”, como insistiam em tachar na
época. Bonecas, só a bebê engatinhando. Nunca curti muito esse lance de bonecas. Mas nunca ligamos pra isso, né, pai? Os
brinquedos sempre foram para mim, e ponto.
Por falar nisso, estive no Mineirão, essa semana, e me
lembrei muito de você. Depois que você se foi, confesso que só pisei naquele
estádio pra ver o Paul McCartney. É que os jogos de futebol perderam um pouco a
graça pra mim. Como ver o nosso Flamengo ou o seu Cruzeiro sem você do meu
lado? Desculpa, mas não consigo mais.
Fui ao Mineirão, porque o Rio está sediando a Olimpíada e
alguns jogos estão acontecendo por aqui. Você, pai de quatro mulheres e avô de
quatro netas, que sempre lutou para que o mundo fosse um lugar melhor para nós,
mulheres, amaria ver as meninas da nossa seleção. Elas são maravilhosas. Jogam
pra caramba. A seleção masculina continua aquela merda de sempre. Você xingaria
aqueles caras do mesmo jeito que os xingava.
O Flamengo? Ah, tá mais ou menos,
pra variar. Nosso último título no Brasileirão foi em 2009. Seu Cruzeiro ganhou
dois títulos no Campeonato depois que você se foi. E, sim, continuo torcendo
pra seleção inglesa de futebol. E, não, não ganhamos nenhuma Copa, além daquela
que você já sabe.
A essa altura, Laís deve estar aí com você, com
ciúmes da nossa conversa. É que hoje é Dia dos Pais, daí bateu a saudade. Mas conta pra ela que essa
semana, uma moça estava ao meu lado, na rua, e atendeu ao celular, dizendo: “mãezinha,
que saudade!” Pensei, já em lágrimas:
mãezinha, que saudade!
A saudade que sinto de vocês é diária. A falta que sinto
de vocês é toda hora, a cada instante. Ainda me vejo pegando o telefone para
ligar e contar uma novidade ou para pedir socorro por conta de algum problema
que estou passando. Reflexos de uma filha que sempre teve pais tão presentes.
Então, é isso.
Um dia feliz pra você e pra mim que tive a alegria de te ter
por tantos anos ao meu lado.
Sim, você foi a pessoa mais importante que passou pela minha
vida.
Te amo.