Por Romyna Lanza
Tutti entra na
sala. Sempre de cabeça baixa, seu olhar não se encontra com nenhum outro que
está ali.
É a segunda vez que nossos caminhos se cruzam, e sempre de forma dolorosa.
É a segunda vez que nossos caminhos se cruzam, e sempre de forma dolorosa.
Ele se senta de
frente para o defensor público. Tutti está preso há dois dias, no Ceresp
Gameleira, por tráfico de drogas.
É um rapaz com
pouco mais de 20 anos.
Tutti tem seis
anos. Agora, ele está num abrigo.
É o início dos anos 2000. Eu estava lá prestando serviços como voluntária.
Ele agride as outras crianças com chutes e socos.
É o início dos anos 2000. Eu estava lá prestando serviços como voluntária.
Ele agride as outras crianças com chutes e socos.
Me agride
violentamente.
Ele grita muito,
chora demais.
Eu consigo
agarrá-lo por trás e abraçá-lo. Seguro-o forte, contra o meu peito. Ele
resiste. Eu resisto. Ele chora. Eu também. Eu não sabia o que fazer. Aprendi
naquele momento, no choque, que o certo era me manter abraçada àquele garotinho
de seis anos, em silêncio, ouvindo sua respiração e deixando que ele ouvisse a
minha para que, juntas, no mesmo ritmo, aos poucos, elas se acalmassem.
Nos acalmamos. Deixei
que ele falasse. Pediu para ver o irmão mais velho.
O irmão mais velho
de Tutti tinha 13 anos, na época, e era sua maior referência. Além de Cláudio,
Tutti tinha outros três irmãos. O mais velho, com apenas 13 anos, era a maior
referência de um garotinho de seis. Além de Tutti, os dois mais novos também
estavam abrigados. Cinco irmãos.
Consegui localizar
Cláudio, e foi ele que me contou a tragédia de vida em que estavam imersos.
Cláudio, também um
menino, mas com a responsabilidade de um pai de cinco filhos nos ombros. Cinquenta
anos em 13. Era assim que eu o via. Era assim que ele também se via e se
obrigava a ser. Não era assim que o Estado o via. Dias depois, também foi
abrigado.
O abrigo em que
Tutti e seus irmãos estavam recebia menores carentes não infratores. Não
carentes de bens materiais apenas, mas carentes de afeto, de atenção, de amor.
Tutti era carente de tudo isso. Os pais eram dependentes químicos e não tinham
nenhuma condição financeira, física, psicológica ou emocional para cuidar dos
filhos. Assim como os meninos, eram carentes de tudo.
Tutti está
novamente no meu colo, abraçado, aos prantos. Respirações sincronizadas. Suas
mãozinhas se perdem entre as minhas. Eu digo que vai ficar tudo bem. Minto para
Tutti.
Essa cena se repete
por incontáveis outras vezes.
Tutti agora está de
frente para o defensor.
Tutti havia sido preso
por tráfico. Sua família não sabia que ele estava ali. Mais uma vez,
abandonado.
Não posso mais
abraçá-lo, nem dizer que vai ficar tudo bem. Ele já sabe que sua família falhou
com ele. O Estado falhou. A vida falhou.
Seus olhos, sempre
baixos, revelam a frustração e a dor diante das constantes falhas.
Tutti não nasceu
nas ruas, nem no tráfico, nem no presídio.
Ele teve a infância
interrompida muito cedo pela dura realidade da destruição que as drogas promovem
nas famílias de dependentes químicos. Era uma criança sem pai, sem mãe, sem
irmão, sem referência, jogada num abrigo, aos seis anos de idade, que tinha,
como único conforto, os braços de uma estranha.
O meu reencontro
com Tutti aconteceu no final de 2014. Naquele dia, eu acompanhava o Galeno
Siqueira, defensor público, em uma de suas visitas semanais aos presídios de
Belo Horizonte. Queria conhecer de perto a miséria do nosso sistema prisional.
Eu me lembrei do
Tutti, hoje, ao ver, nas últimas semanas, o sistema prisional em foco no
noticiário, como sempre esteve: violando e massacrando toda a dignidade humana,
enquanto seu papel deveria ser respeitá-la e resgatá-la.
Não sei como Tutti
chegou àquele presídio, mas não me é difícil imaginar. A história de Tutti é a
história de milhares de meninos negros e pobres das periferias brasileiras.