sábado, 8 de outubro de 2016

Preciso contar pra vocês a história do Tutti

Por Romyna Lanza

Tutti entra na sala. Sempre de cabeça baixa, seu olhar não se encontra com nenhum outro que está ali.

É a segunda vez que nossos caminhos se cruzam, e sempre de forma dolorosa.

Ele se senta de frente para o defensor público. Tutti está preso há dois dias, no Ceresp Gameleira, por tráfico de drogas.

É um rapaz com pouco mais de 20 anos.

Tutti tem seis anos. Agora, ele está num abrigo. 

É o início dos anos 2000. Eu estava lá prestando serviços como voluntária.

Ele agride as outras crianças com chutes e socos.

Me agride violentamente.

Ele grita muito, chora demais.

Eu consigo agarrá-lo por trás e abraçá-lo. Seguro-o forte, contra o meu peito. Ele resiste. Eu resisto. Ele chora. Eu também. Eu não sabia o que fazer. Aprendi naquele momento, no choque, que o certo era me manter abraçada àquele garotinho de seis anos, em silêncio, ouvindo sua respiração e deixando que ele ouvisse a minha para que, juntas, no mesmo ritmo, aos poucos, elas se acalmassem.

Nos acalmamos. Deixei que ele falasse. Pediu para ver o irmão mais velho.

O irmão mais velho de Tutti tinha 13 anos, na época, e era sua maior referência. Além de Cláudio, Tutti tinha outros três irmãos. O mais velho, com apenas 13 anos, era a maior referência de um garotinho de seis. Além de Tutti, os dois mais novos também estavam abrigados. Cinco irmãos.

Consegui localizar Cláudio, e foi ele que me contou a tragédia de vida em que estavam imersos.

Cláudio, também um menino, mas com a responsabilidade de um pai de cinco filhos nos ombros. Cinquenta anos em 13. Era assim que eu o via. Era assim que ele também se via e se obrigava a ser. Não era assim que o Estado o via. Dias depois, também foi abrigado.

O abrigo em que Tutti e seus irmãos estavam recebia menores carentes não infratores. Não carentes de bens materiais apenas, mas carentes de afeto, de atenção, de amor. Tutti era carente de tudo isso. Os pais eram dependentes químicos e não tinham nenhuma condição financeira, física, psicológica ou emocional para cuidar dos filhos. Assim como os meninos, eram carentes de tudo.

Tutti está novamente no meu colo, abraçado, aos prantos. Respirações sincronizadas. Suas mãozinhas se perdem entre as minhas. Eu digo que vai ficar tudo bem. Minto para Tutti.

Essa cena se repete por incontáveis outras vezes.

Tutti agora está de frente para o defensor.

Tutti havia sido preso por tráfico. Sua família não sabia que ele estava ali. Mais uma vez, abandonado.

Não posso mais abraçá-lo, nem dizer que vai ficar tudo bem. Ele já sabe que sua família falhou com ele. O Estado falhou. A vida falhou.

Seus olhos, sempre baixos, revelam a frustração e a dor diante das constantes falhas.

Tutti não nasceu nas ruas, nem no tráfico, nem no presídio.

Ele teve a infância interrompida muito cedo pela dura realidade da destruição que as drogas promovem nas famílias de dependentes químicos. Era uma criança sem pai, sem mãe, sem irmão, sem referência, jogada num abrigo, aos seis anos de idade, que tinha, como único conforto, os braços de uma estranha.

O meu reencontro com Tutti aconteceu no final de 2014. Naquele dia, eu acompanhava o Galeno Siqueira, defensor público, em uma de suas visitas semanais aos presídios de Belo Horizonte. Queria conhecer de perto a miséria do nosso sistema prisional.

Eu me lembrei do Tutti, hoje, ao ver, nas últimas semanas, o sistema prisional em foco no noticiário, como sempre esteve: violando e massacrando toda a dignidade humana, enquanto seu papel deveria ser respeitá-la e resgatá-la.


Não sei como Tutti chegou àquele presídio, mas não me é difícil imaginar. A história de Tutti é a história de milhares de meninos negros e pobres das periferias brasileiras.