sexta-feira, 24 de agosto de 2018

De polenguinhos e camemberts

Ontem à noite, eu tava resolvendo uns lance lá no Rio e disparei a ligar e a mandar mensagem prumondigente. Uma dessas mensagens foi pra uma mulher que nunca vi na vida, não tenho ideia de quem seja, mas me indicaram o nome dela para resolver um dos lances. Foi a conta de mandar a mensagem e ela me ligar.
- Oi, Romyna! Aqui é Fulana. Tudo bem?
- Oi, Fulana, tudo ótimo. E você?
- Tudo bem também. Antes de mais nada, deixe-me dizer quem eu sou pra você ficar ciente. Eu moro em Londres há três anos, faço pós em Direito em Cambridge (falou com sotaque americano. sim, o sotaque foi americano, não inglês). Nesse curto período de tempo, todo mundo da minha família morreu. Eu não tenho mais nenhum parente vivo. Sou sozinha. Totalmente sozinha.
Aí já comecei a ficar com medo, pensando se ela não mandou matar a família inteira. Continuei ouvindo, mesmo porque era a única coisa que me restava a fazer, já que ela nem ao menos respirava entre uma frase e outra, sem me dar chance de falar qualquer coisa.
- Eu fico no Rio só por mais um mês. Estou louca pra voltar pra Londres. Aqui é tudo muito caro. Lá, eu compro Camembert, enquanto aqui sou obrigada a viver à base de Polenguinho. Como você suporta o Brasil?
- Ah, eu... (ao mesmo tempo, pensando: realmente, Rio sempre foi mais caro que Londres... aham...)
- Deixa eu terminar de falar. A língua que mais ouço lá fora é o português. Parece que tá todo mundo deixando isso aqui, né? Um Judiciário corrupto... Você tem acompanhado o Supremo?
- Eu...
- Aquele Gilmar Mendes é uma canalha.
- É verd...
- Você viu ontem? O Supremo absolveu a Gleisi por unanimidade. E de corrupção. Esse país é muito corrupto. Não dá pra confiar em ninguém. Eu sou muito, muito americanizada. Morei nos Estados Unidos por 40 anos. Sou extremamente correta, não tenho nome no SPC, nem no Serasa, não existe nada contra a minha pessoa, pois sou muito, muito americanizada.
- Ah, qu...
- Deixa eu terminar de falar. O que você faz da vida? Aposto que é servidora pública.
(nessa hora, pensei, ela deve ter descoberto que sou servidora pública pela minha voz, né?)
- Eu sou advogada, mas advogada com pós em Cambridge. Não sou advogada formada por qualquer universidade não. Onde você mora em Belzonte?
(eu, mentalmente, já que não conseguia me pronunciar: ODEIO QUE FALEM BELZONTE)
Tentei falar:
- Moro na...
- Eu morei em Belzonte por dois anos, na Timbiras. Você conhece?
- Sim. (consegui falar uma palavra inteira)
- Aqui, eu moro em Copacabana, num prédio onde vivem só desembargadores e juízes.
(E eu pensando: tudo servidor público)
- Sou uma pessoa muito fácil de lidar, sabe? Só não gosto de prostitutas, travestis e maconheiros.
(Eu, novamente, mentalmente: me encaixo nas três categorias - prostituta, travesti e maconheira, não vamos nos dar bem)
Enfim, depois de muita conversa sem sentido - foram exatos 18 minutos -, desliguei o celular e bloqueei a americanizada. Fiquei realmente com medo. Cheguei à conclusão de que ela mandou assassinar a família inteira. MESMO.