Hoje, 8h da manhã, entro numa ótica, no Centro de BH, para encomendar meus óculos.
Tô lá, sentadinha, escolhendo a armação.
Uma mocinha, toda sorridente, se apresenta na minha frente:
- Bom dia, meu nome é Paola e estou aqui para te oferecer um café.
- Prazer, Paola. Vou agradecer, mas não tomo café. Vou preferir uma água. Pode ser?
Ela volta com a água. Agradeço.
Dois minutos depois:
- Te trouxe um novo copo d'água.
- Obrigada. Você é muito gentil.
Bebo o novo copo.
Não mais que dois minutos após o primeiro copo:
- Te trouxe mais uma água.
- Paola, vou agradecer. Não precisa.
- Eu insisto. Água é sempre muito bom pra saúde.
- Sim, claro. Mas dois copos, nesse intervalo de tempo, são suficientes. Obrigada de verdade - respondo, já constrangida.
Mal consigo escolher a armação dos óculos:
- Trouxe um licor pra vocêêê-ê-ê-ê.
- Aaah, que gentileza! Mas eu não bebo nada alcoólico, ainda mais a essa hora do dia. Não são nem 8h30.
- Um licorzinho não vai te fazer mal.
- Agradeço de coração. Eu já disse que você é muito gentil, né? De verdade. Mas vou recusar o licor.
Por dentro, já estava irritada. A gentileza da Paola não me dava tempo de negociar meus óculos com o vendedor.
Novamente, a Paola e sua gentileza:
- Aceita um conhaque?
- Não bebo - respondi, já com vontade de arrancar-lhe a cabeça com os dentes, tal qual um rotweiller, mas ainda com a consciência de que ela estava ali, fazendo o seu trabalho da forma que lhe fora recomendada e da melhor maneira possível. Assim, engoli minha vontade e retribui o sorriso.
Enfim, consegui fechar a negociação.
Fui pagar os óculos.
No fundo da loja, ao lado do caixa, um freezer e um bar com diversas bebidas - licor, conhaque, uísque, vodca e tudo mais que se encontra numa casa de shows. E só associei a uma casa de shows porque, ao fundo, bem alto - e ainda não tinha percebido, porque minha atenção estava totalmente dividida entre os óculos e a gentileza da Paola - um sertanejo universitário.
Marketing. Ou pelo, é o que eles imaginam que seja.